A incrível habilidade de se encantar com o óbvio.

“Vocês publicitários são cheios dos termos esquisitos”. Verdade. Benchmark, ROI, KPI, call, feedback, follow up, CRM, briefing, job, crossmedia, share of voice, budget, mind share e tantos outros. E o pior é que muitos são desnecessários, confesso, usamos só pra dar um ar de coisa cool — desculpa, não pude evitar. Publicitário tem dessas bobagens mesmo, reconheço.

Mas esse texto não é exatamente uma auto-crítica, a abordagem é outra, vocês verão.

Existe uma necessidade de se criar nomes legais e diferentes para coisas que sempre foram feitas. Veja storytelling, por exemplo. A propaganda já conta histórias há muitos anos, quem não lembra do comercial do “meu primeiro sutiã”, que em seus 90 segundos contava uma história que comoveu toda uma geração de mulheres? Mas, opa, veja só, pegamos algo que já fazíamos, criamos processos, teorias, extrapolamos cenários diversos e… bingo, temos uma palavra nova para uma “nova” área.

Calma lá, não estou diminuindo a importância do storytelling, de jeito algum. Acredito que desenvolver técnicas para que ele seja mais eficiente foi importante para começar a desconstruir o sentimento de que se trata de pura bullshitagem — desculpa, passou — quer dizer, baboseira. Quando entramos em contato com os porquês por trás de construir histórias percebemos como podemos melhorar aquelas que nos pagam para criar e contar. Sugiro acompanharem o Bruno Scartozonni se tiverem interesse no tema.

Storytelling gerou buzz — é incontrolável, argh — gerou barulho (melhor, né?) depois de outro termo interessante, que é Social Media e antes de outro muito falado, que é Big Data.

Você certamente já ouviu falar de ambos, lógico. Social Media já virou meio carne de vaca, foi novidade em 2009, hoje já está incorporado ao dialeto marquetês — mesmo que pouca gente faça como se deve. Já Big Data ainda tem um frescor, um quê de algo novo, mesmo não sendo. O uso de dados para melhorar o resultado de produção, vendas ou mesmo apenas da comunicação não é algo novo. Desde 2001 que era tema de estudo e de 2012 pra cá passou a ser falado por 9 entre cada 10 cientistas de comunicação. É, eles existem e você não faz noção de como podem mudar sua performance de mídia ou de conversão de leads até contratá-los. Quer saber mais? Ricardo Cappra, pode acompanhar sem medo.

E eis que quando achamos que já temos termos esquisitos demais e áreas sobrando surge o tal o inbound marketing. Virou moda agora mas o termo existe desde 2005. De lá pra cá foi tratado com uma certa desconfiança, algo do tipo “é só mais um terminho bonito para algo que já era feito”. Verdade, os conceitos por trás do tal do inbound já existiam faz tempo, nasceram com a social media, ouso dizer, ali junto com o marketing de conteúdo que usa, entre outras coisas, storytelling para falar de temas que podem ter sido identificados pelo Big Data. Legal, hein?

O inbound nada mais é do que estabelecer processos de conversão (a famosa geração de leads) pelo uso de vários meios. Fala em atrair, converter, fechar e encantar. Você atrai com conteúdo, naquele seu blog super legal, converte o visitante em um cliente por meio daquele call-to-action maneiro (ei, essa eu tive que usar mesmo), fecha o ciclo inserindo o novo cliente no seu sistema de CRM e o encanta fazendo um pós lindão com pesquisas, follow-ups e coisas do tipo. Meio óbvio, mas organizado assim… uau, todo mundo transa.

E nem vou falar da nova modinha, o tal do Growth Hacking com todo seu teste muito, erre rápido, corrija mais rápido ainda para encontrar alternativas de baixo-custo, alto poder de gerar boca-a-boca e ajude a sua empresa a crescer fora do padrão, saindo do lugar comum. Tá, falei um pouco, não resisti.

Bom, você chegou até aqui sem entender sobre o que é esse texto, não o culpo, mas vamos resolver isso agora mesmo.

Sabem todas essas palavras esquisitas? Publicitários E clientes vão continuar usando. Não parte delas, todas. Ao invés de ligação vão seguir dizendo call, no lugar de verba irão usar budget, no lugar de solicitação de trabalho irão usar job. E vão falar em Social Media, em Storytelling, em Big Data, Inbound Marketing e Growth Hacking. Vão falar. E até vão falar que fazem. Não vão fazer. É tudo bullshitagem — ah, parem de me policiar, já mostrei que não consigo resistir a parecer cool. É que fica bonito, moderno, ousado e disruptor abordar todas essas possibilidades super contemporâneas, mas bom mesmo é terminar gastando 1 milhão na produção de um VT e metendo todo o resto do budget em mídia na Globo.

Pra agência é ótimo, isso eles tem expertise de fazer mesmo, fazem com um pé nas costas. Comissão garantida, um BV maneiro e a facilidade de aprovar com o cliente — afinal esse sabe que isso dá certo desde que minha vó era virgem. Pro cliente também é “bom”, menos dor de cabeça, “certeza” de que vai dar certo e a segurança de ter um argumento do tipo “ah, mas eu fiz o que sempre fazemos, não sei o que deu errado dessa vez”. No máximo irão fazer anúncios em portais e no Facebook, mas sem muita preocupação com segmentação ou adequação da mensagem, só ajustando a campanha off pra esse meio e mandando ver. Tá “resolvido”.

Mas vão seguir falando das palavras bonitas, mostrando-se encantados com o óbvio.

E, por fim, amigos, confesso que trocaria todas as palavras esquisitas por clientes que realmente quisessem ir além de parecerem descolados conhecendo as últimas novidades do mundo da comunicação, usando-as de verdade, mesmo que em projetos pilotos.

Onde será que eles estão?

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