A indústria do lixo: aterros sanitários

Crédito: Prylaer

No segundo texto da nossa série sobre a indústria do lixo, vamos ver como funciona um aterro sanitário. Todas as pessoas deveriam ter o conhecimento de quanto resíduo uma cidade é capaz de gerar, qual o destino atual dele, o quanto de energia e qual o custo para manipular esse material, pois apenas assim passarão a consumir com mais consciência e talvez diminuir a geração de resíduos desnecessários.

Existem duas maneiras de enterrar o lixo:

Lixão — um buraco aberto no chão onde o lixo é enterrado de qualquer maneira e sem controle algum (esta é a ideia da maioria das pessoas de um aterro sanitário); e
Aterro sanitário — estrutura cuidadosamente projetada incorporada, ou em cima do solo, em que o lixo é isolado do meio (águas subterrâneas, ar, chuva).

Em termos mais técnicos, de acordo com a norma NBR 8419/92 da ABNT, um aterro sanitário é:

“Uma técnica de disposição de resíduos sólidos urbanos no solo, sem causar danos à saúde pública e à sua segurança, minimizando os impactos ambientais, método este que utiliza princípios de engenharia para confinar os resíduos sólidos à menor área possível e reduzi-los ao menor volume permissível, cobrindo-os com uma camada de terra na conclusão de cada jornada de trabalho, ou a intervalos menores, se necessário.”

Historicamente, o aterro é o método mais comum de eliminação de resíduos organizados e permanece assim em muitos lugares ao redor do mundo.

Como construir um aterro

Pra não ficar só na teoria e exemplos de fora do país, eu vou descrever uma visita que eu fiz a um aterro sanitário alguns anos atrás, em Paulínia, interior de São Paulo. As atividades desse aterro se iniciaram em 1999 e são realizadas por uma empresa privada, a qual hoje ocupa uma posição de destaque no gerenciamento de aterros sanitários e no desenvolvimento de atividades de soluções ambientais seguras para a gestão de resíduos. Não vou citar nomes aqui, apesar de eu não ser o dono, nem amigo do dono.

Aterro em Paulínia — SP (arquivo pessoal)

A implantação do aterro se dá inicialmente com a impermeabilização do solo por meio da aplicação de uma geomembrana de polietileno de alta densidade, de 2,0 mm de espessura. Outros materiais podem ser utilizados em combinação com essa geomembrana, como solo compactado e compostos bentoníticos (que evitam que a água superficial infiltre no solo). Estes sistemas de impermeabilização asseguram a qualidade do solo e das águas subterrâneas, impedindo a infiltração de líquidos oriundos da decomposição do lixo.

Nos aterros, resíduos são compactados por equipamentos especiais, construindo-se áreas de formato prismático e dimensões compatíveis com a quantidade de resíduos enterrados. Essas áreas são diariamente cobertas com material “terroso”, geralmente retirados do mesmo local, de forma a evitar inconvenientes como:

•Infiltração das águas de chuva;
•Proliferação de vetores, que podem causar diversas doenças;
•Emissões de gases pela superfície;
•Dispersão de materiais leves pelo vento.

Os aterros são (ou pelo menos deveriam ser) implantados em áreas que atendem a critérios técnicos muito específicos, visando a proteção ambiental, a garantia da saúde pública e a manutenção da estética, como:

•Localização fora da área de mananciais, onde não ocorra desmatamento de vegetação nativa e não haja conflito com a fauna local;
•Distância e isolamento mínimo de 500 m de qualquer habitação;
•Aspectos geológicos e hidrogeológicos apropriados;
•Licenças ambientais emitidas pelos órgãos pertinentes.

Em relação a drenagem dos líquidos percolados, para que o chorume gerado no aterro seja eficientemente removido, são implantados drenos na base do aterro e entre as camadas de resíduos. Esses drenos geralmente são constituídos por canaletas preenchidas com pedra brita, envoltas numa geomanta permeável, que atua como um pré-filtro. Sua disposição no aterro facilita a remoção segura dos líquidos eventualmente gerados pelos resíduos. Quando visitei a empresa (no longínquo ano de 2011), o chorume era tratado em unidades situadas fora do aterro.

Existem sistemas de acumulação desse líquido, constituídos por grandes tanques, com capacidade suficiente para a contenção do chorume, inclusive nos períodos chuvosos, quando é gerado ainda mais chorume.

Já em relação à drenagem e ao tratamento de biogás gerado (o processo de decomposição da matéria orgânica gera diversos gases, sendo o gás de maior concentração o metano), sua remoção é realizada por meio de dutos verticais que atravessam o maciço de resíduos, da base ao topo. Atendendo aos propósitos do Protocolo de Kyoto, após a remoção, o metano é queimado, eliminando para a atmosfera dióxido de carbono, outro gás, mas que possui um impacto 23 vezes menor do que o metano para o efeito estufa antropogênico.

Durante minha visita, e informações coletadas da empresa, todas as unidades de gerenciamento de resíduos não perigosos são dotadas de avançadas técnicas de segurança, proteção ao meio ambiente e à saúde pública, como:

•Sistemas de alta eficiência e segurança para impermeabilização do solo;
•Sistemas de drenagem e coleta de líquidos percolados;
•Sistemas de drenagem e tratamento de gases de efeito estufa;
•Sistemas de drenagem de água pluviais;
•Sistemas de monitoramento geotécnico do maciço dos aterros e das águas superficiais e subterrâneas, com relatórios periódicos controlados pelos órgãos ambientais.

Finalmente, após ter sua capacidade esgotada, os aterros necessitam de obras e procedimentos visando o seu encerramento. As medidas a serem adotadas estão sempre condicionadas ao uso futuro que se pretende dar à área. Vários aterros, devido sua localização muito próxima aos centros urbanos, podem vir a transformar-se em áreas de lazer e uso comunitário. Alguns, dotados de estruturas para aproveitamento do biogás, permanecerão durante longos anos como recurso energético, assim como outros serão simplesmente inseridos à paisagem regional, reduzindo-se os impactos ao cenário local.

Um aterro sanitário, do início ao fim.

O futuro e as alternativas

Como já mencionado, para cada caso devem ser previstos procedimentos e cuidados específicos em função do uso. No entanto, todos os aterros necessitam de cuidados constantes após o encerramento de suas atividades, já que o processo de decomposição dos resíduos resultará em deformidades na superfície, requerendo nivelamentos, ajustes nos sistemas de drenagem, recolocação da cobertura vegetal, controle de erosões, entre outros.

No aterro que visitei, o material que pode ser reciclado é separado por uma cooperativa, que apenas utiliza o local e o material cedido. Parte significativa dos materiais presentes nos resíduos sólidos urbanos apresenta valor comercial agregado, como papel, papelão, plástico, vidro, materiais ferrosos e não ferrosos. Assim, seu aproveitamento permite uma sensível redução nas quantidades de resíduos a serem dispostos nos aterros. No entanto, quem manda seu “lixo” para o aterro tem que permitir que este possa ser manuseado pela cooperativa, do contrário é simplesmente “enterrado, mesmo que seja só papel limpo!

Caminhões descarregando materiais no aterro sanitário — arquivo pessoal

Se você tiver a oportunidade, visite um aterro. A visita é esclarecedora em relação ao real destino dos resíduos que geramos e o impacto deles no ambiente. O que chamou minha atenção foi o trabalho com o material reciclável (tema do próximo texto!), pois mostra uma preocupação social por parte da empresa, que é de suma importância para o desenvolvimento de algumas famílias que dependem desse setor.

Ver como o lixo é tratado também nos faz repensar como nos relacionamos com os resíduos gerados. De certa forma passei a agir mais conscientemente em relação a isso, atentando para um consumo mais consciente e para um melhor aproveitamento dos materiais adquiridos a fim de gerar menos resíduos e/ou separar os recicláveis do montante.

Analisando a forma como um aterro é construído podemos ter uma idéia do tamanho da área, os possíveis impactos ambientais e o alto custo econômico na implantação e manutenção. Aterros são com certeza uma alternativa melhor do que os “lixões” que vemos por aí, mas hoje já temos conhecimento e tecnologia suficiente para fazer melhor.

Você não precisa ser uma pessoa que sai por aí abraçando árvores para reconhecer o fato de que não podemos continuar a tirar matérias-primas da Terra, usar muita energia para convertê-las em produtos brevemente úteis e, em seguida, empilhá-los em enormes aterros sanitários. Se você entende isso, então você entendeu a essência do que é a sustentabilidade.

No próximo texto vamos discutir alternativas pensando no “ciclo de vida” do produto, iniciando com a reciclagem. Fique ligado!

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