A indústria vicia seu paladar

Ou, por que você não gosta de chuchu

Recebi a recomendação médica de cortar o glúten da minha alimentação, porque não tive bons resultados em exames do fígado e tireoide. Essa advertência já me havia sido feita antes, por uma médica da linha da medicina chinesa, que fez esse diagnóstico sem nenhum exame, só examinando meus olhos e língua. Ainda por cima, a recomendação foi cortar a tríade completa: glúten, lactose e açúcar. Para mim isso seria viver só de ar. Não levei muito a sério. Agora, o alerta voltou, um pouco mais drástico.

Eu achei que nunca viveria sem pãozinho, pizza e macarrão, não gosto de ser radical com nada e adoro comer. Mas, estou a algumas semanas com glúten quase zero. Apesar de pouco tempo, já vi alguns resultados alarmantes.

Meu interesse nisso NÃO foi estético. Mas a redução da gordura abdominal é impressionante, em pouquíssimo tempo.

Mas o mais chocante aconteceu quando gostei de comer chuchu. Aí saiu fumacinha da minha cabeça, fiz umas conexões e tirei umas conclusões.

Chocolate é muito mais gostoso do que chuchu. A indústria mistura muitos sabores diferentes no mesmo alimento. A chave são os aromas: elementos químicos e sintéticos. Eles até se baseiam em alimentos naturais, mas não são, claro: são potencializados e alterados. Ou seja, quando você chupa uma bala de morango, ela é tudo, menos morango — ela pode ser até esse insetinho aqui. Assim, a indústria oferece uma EXPERIÊNCIA alimentar. E NÃO um alimento.

Isto não é um cachimbo (René Magritte)

Acostumamos com o gosto maravilhoso e sintético-sinestésico dos alimentos industrializados. E perdemos a sensibilidade para gostos naturais e não tão apetitosos, porque não foram potencializados. Aconteceu exatamente isso: há algumas semanas com essa alimentação mais atenta e natural, desacostumei com a super-experiência do gosto industrial e simplesmente o chuchu não me pareceu tão ruim.

Estou querendo dizer que a indústria VICIA nosso paladar.

É só abrir o pacote de salgadinho e comer, não precisa cozinhar, é gostoso e não suja louça. Chuchu não. E assim, a natureza vai sendo atropelada — fora os resíduos sólidos! — em troca de interesses egocêntricos, prejudiciais à saúde e ao meio ambiente, e da nossa necessidade cada vez mais compulsiva de prazer instantâneo, reduzido a poucos minutos.

É o modo de vida, a industrialização, o capitalismo, a urbanização, não sei muito bem o que concluir a não ser ir morar em uma comunidade autossustentável, o que não farei agora.

Só sei que por causa dessa mudança alimentar que eu tive que fazer, diminuí bem os industrializados e estou preparando meus próprios alimentos mais vezes. Sim, gasta tempo, que hoje é cada vez mais escasso — um dos principais motivos de querermos tudo pronto. Mas, justamente, quebra um pouco esse imediatismo que vivemos atualmente, faz entender que tudo tem um processo e que nós somos parte dele.

Eu consigo ficar muito feliz quando cozinho algo e fica bom, quando eu mesma fiz o que estou comendo, e quando eu confio no que estou comendo porque eu que fiz, mesmo que seja só lavar uma alface (tô brincando vai, já fiz mais do que isso). Dá trabalho, mas é muito importante. Quebra paradigmas, quebra hábitos, é reflexão, é conexão, lidar com os alimentos crus é sentir a natureza. É retomar nossas origens, quando a produção era pouca e era o que precisava, e não um exagero em larga escala desenfreado. Não estou mudando o mundo quando cozinho, ou quando fico atenta à minha alimentação, mas é mudar o padrão, pelo menos um pouco.