A internet não é a esperança, mas a rede!

rede de pessoas comuns, rede social.

A seriedade e importância da internet e tecnologias tocam muito além do desenvolvimento econômico. Alcançam o potencial de revolução do modelo educacional, científico, e econômico vigente. Tocam o desenvolvimento de inovações substanciais para a sociedade, o progresso e o aprimoramento do empreendedorismo, a transformação das relações de trabalho, uma nova invenção da democracia e uma profunda mudança política e moral da sociedade.

Novos “conversares” (modos e meios de se conversar) estão surgindo. E a internet tem sido essencial neste aspecto.

O que essa interação social favorecida pela revolução tecnológica possibilita, vai bem além do que muitos estão concebendo. A sociedade ainda não se deu conta da importância de conversar. Não posso garantir que tal importância será notada agora com consciência. Posso garantir apenas que muita coisa significativa acontecerá naturalmente em decorrência da interação.

O conversar leva à aprendizagem, que envolve a criação de conhecimento novo e o compartilhamento de pensares. E a interação social, a aprendizagem, estão envolvidos diretamente no processo de inovação.

Por isso, pode parecer contraditório o que vou dizer agora mas, a internet não é a esperança, e sim a rede!

Para entender isso segue uma explicação rasa sobre o que é rede e rede social:

Pense numa rede de pesca. Cada ponto (chamado nó ou nodo) é o cruzamento entre duas linhas diferentes. Os nós estão distribuídos conforme o tamanho desta rede. Na rede social, cada ponto é a representação de uma pessoa que, portanto, está em ligação ou em relacionamento com outra. Numa rede distribuída não existe hierarquia. Não há, por exemplo, uma liderança porque, ou todos lideram, ou ninguém lidera. E bastam três pontos para se nascer uma rede.

Pelo diagrama abaixo, de Paul Baran podemos entender melhor esta topologia. O diagrama A apresenta uma centralização. Do ponto de vista da rede social é a representação máxima de uma hierarquia. O diagrama B apresenta a descentralização, que também ainda aponta uma hierarquia, não fugindo à relação de comando e controle. E no diagrama C temos a rede distribuída, em que não há graus superiores e inferiores, mas uma relação de igualdade pela diversidade. A rede social, então, são as relações humanas, entre pessoas comuns, que não estão de alguma forma em destaque e caracterizadas como especiais ou incomuns. Toda vez que há um posicionamento de diferença auto-invocada ou consentida e de certa forma imposta em relação a outra pessoa, há hierarquia.

A rede social sempre existiu e sempre irá existir em alguma medida, uma vez que os seres humanos são seres sociais e só nascem, via de regra, na convivência social. Porém, assim como ela pode se amplificar e fortalecer, ela pode se reduzir e enfraquecer. Em regimes totalitários, nas autocracias, este “poder” social (porque a rede social é um imensurável poder) é cada vez mais reduzido, ou mesmo pode ir a zero como retratado em alguns filmes distópicos, tal como filme 1984, Admirável Mundo Novo, o Guardião de Memórias, dentre outros.

Como a rede social se ativa na ligação efetiva entre os seres, a interconexão possibilitada por uma estrutura como a internet, que eliminou distâncias, amplia esta rede ativa. E as chamadas mídias sociais, por exemplo o Facebook, somadas ao crescimento das tecnologias, por exemplo a mobile, possibilitaram amplificação ainda maior, porque a essência de seu produto é justamente proporcionar e facilitar a conversa entre pessoas. Por isto, a mídia social chega a ser confundida por muitos como a própria rede social, embora esta última independa da primeira.

Nesse sentido, a percepção da possibilidade de se interagir e conversar inclusive com o outro-desconhecido — aquele que está fora de seu círculo de amigos — representa uma revolução velada. Velada porque, como já dito, poucos se dão conta da importância deste conversar, pois há pouco entendimento prático do quanto este conversar é amplo, não restringindo-se somente à linguagem oral, já que não possuímos só esta forma de linguagem, mas também a corporal, a gestual, etc.

Mas reparem como a internet está fazendo com que estas conversas comecem a acontecer. Todos começaram a dar suas opiniões. As mídias sociais empoderaram as pessoas para que de forma fácil e gratuita contem ao mundo o que pensam.

Nesse estágio incipiente da descoberta de que “posso falar”, eu no momento, só falo e não escuto. Apesar deste ser um comportamento hierárquico, defendo que o falar já é um bom sinal! Resta-nos exercitar a observação profunda para começar a escutar, mesmo a quem diverge de nossa opinião. O escutar é um trabalho de procurar pontos comuns/convergentes que elevem a interação a um nível de aprendizagem construtiva.

Neste trabalho de atenção, aquele que exercita o “escutar o outro”, cria poder social.

Esta mesma interação social, este conversar, está levando a acontecer uma das coisas mais cruciais para o desenvolvimento de um país e evolução de sua sociedade, a educação. Está levando também a uma fundamental percepção nova da ciência — como ciência aberta, que se liberta da apropriação acadêmica, fechada nos muros das universidades e do método, para alcançar novos atores, meios e formas de pesquisa e ciência. Também está levando ao desenvolvimento de novas tecnologias, porque quanto mais estas surgem e são utilizadas, mais elas são aprimoradas e, delas, melhores se derivam. Além, desencadeia novas formas de trabalho e empreendedorismo, mais flexíveis e informais que permitam às pessoas serem verdadeiramente quem querem ser.

Tudo isso alimenta e reforça uma nova cultura que tende a forçar as instituições a se transformarem pela simples mudança destas demandas culturais aqui expressas. As pessoas comuns ganharão, assim, cada vez mais força e coesão social. O cenário será amplamente modificado em todos os aspectos, dentre os quais certamente caberá uma inovação política sem precedentes. Isso não se dará em pouco tempo, mas já está acontecendo.

Aqui encontra-se o ponto principal desta reflexão. A rede social que se descobre, ou seja, que se torna consciente de si mesma, nunca mais se enfraquece. Se você entende que se unir às pessoas torna o impossível possível em termos sociais, você nunca mais deixará de buscar e de viver esta conexão.

Diante o surgimento de uma rede social consciente, nenhuma instituição pode fazer frente. E aí, corte a internet, limite sua franquia, derrubem presidentes, nada disso poderá segurar a pressão da rede que há de dobrar o mundo hierárquico à sua distribuição social. Por isto a esperança, e o futuro, é a rede!

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