A linguagem em “A Chegada”

Contém spoilers. Se você ainda não assistiu ao filme, não leia.

foram escritos diversos textos ótimos sobre esse filme maravilhoso do diretor Denis Villeneuve e não tenho a pretensão de competir com eles nem de exaurir a análise. Este é apenas um singelo ponto de vista que puxa a brasa para o meu assado. Afinal, não é todo dia que a linguística ganha papel de destaque em Hollywood — ou em qualquer outro lugar. Estou ainda tendo mini-infartos. ❤

Existe todo um desconhecimento coletivo quando o assunto é “linguagem”. Em geral, as pessoas associam linguagem basicamente àquilo que elas falam, seja a língua materna ou outra(s), ao que relativamente escrevem e a ‘regras chatas’ de gramática que podem ser percebidas pelo corretor automático do Word. E, embora de fato seja isso também, não é isso apenas. A área de Letras (da qual a linguística faz parte) é incompreendida, nada reconhecida e mal remunerada. Todo mundo sabe falar, sabe ler e sabe escrever, afinal. É primário. O que o mundo quer agora é tecnologia e inovação (de preferência, tecnológica).

Eu mesma trabalho em uma empresa de tecnologia que desenvolve materiais incríveis e trabalha com inteligência artificial. Sou revisora de texto. E, apesar da minha convicção de que não adianta dominar a tecnologia mais foda e desenvolver o robô coletor de dados mais poderoso sem que, lá no final, na ponta, o idioma esteja impecável, as pessoas no geral estão bem mais preocupadas com TI do que com português, é óbvio.

Na minha visão quase solitária, as coisas podem ser elaboradas com tecnologia da Nasa, mas é tudo porcaria se o que for apresentado como resultado não estiver com linguagem adequada ao público e transmitindo com precisão cirúrgica o recado que visa transmitir, seja um game, uma pesquisa, um curso Ead, um e-book, uma apresentação, um relatório, qualquer coisa.

Imaginem a intensidade do meu nirvana quando Ian, o cientista do filme, que inicialmente estava menosprezando a importância da comunicação no processo de contato com os aliens, vendo a Amy Adams trabalhar, diz embasbacado que o que ela faz com a língua é um approach matemático. Minha vontade era urrar no cinema e dizer “sim, mano, tá achando o que, aqui é Curinthia!”.

Línguas são organismos complexos, vivos, em movimento. Nada é jogado por acaso, há lógica, estrutura, padrões. E é isso que faz Amy quebrar a cabeça tentando decifrar o idioma dos heptapods e explicar para um monte de gente sem paciência/interesse para ouvir o que ela tem a dizer.

Já no começo da ação, ainda no helicóptero, a linguista chega na voadora deixando claro pro pessoal da física teórica que, antes de enfiar problemas goela abaixo nos aliens, primeiramente é preciso conversar com eles. Comunicação. “Sossega a humanidade aí, governo, que precisamos antes estabelecer um papo reto com os visitantes de cinco pernas e ensiná-los que “Ian walks”. Não é lindo?

“A Chegada” consegue dar uma amostrinha da importância que a compreensão e o bom uso da língua (em sentido amplo) têm na comunicação: toda tecnologia e poder bélico do mundo são insignificantes — e perigosos — se não conseguirmos nos comunicar uns com os outros, transmitir com clareza nossas mensagens, nos entender.

Amo que os linguistas de cada um dos 12 países que receberam as “conchas” tenha traduzido de forma ligeiramente diferente a mensagem dos heptapods, mostrando a crucial importância da semântica e da escolha vocabular adequada não somente ao texto, como ao contexto. Amo que isso faça toda a diferença. Amo que eles tenham mostrado o quanto um texto imperfeito pode macular a comunicação e provocar conflitos diplomáticos imensuráveis.

Apesar de eu achar que (1) poderiam ter explorado bem mais a linguagem dos heptapods (como foi que a Amy Adams conseguiu decifrar os círculos, afinal? Eles obedeciam a qual lógica sintática? Como foi que descolaram um alfabeto (?)?Como foi o progresso do processo de ensinar os aliens a ‘falar inglês’?, o que significa a mensagem final deixada em fragmentos para cada um dos 12 paises?); (2) que os diálogos sobre linguística poderiam ter sido mais numerosos e profundos (poxa, não é sempre, né? Dava pra ter ido além); e (3) que a estética dos heptapods poderia ter sido mais moderninha (achei meio vibes Família Dinossauro), saí do cinema feliz, flutuante e com gostinho de quero muito mais. Aliens, linguística e tempo. ❤ O que faltou em “A Chegada” foram horas.