A lorota de viver o presente

O agora é um ponto na encruzilhada. Pra onde você vai, depende de um monte de coisa. Foto de Dhinakaran Gajavarathan (Flickr).

Das besteiras que o mundo da auto-ajuda impôs no inconsciente coletivo da humanidade deste século, a que mais me irrita é a tal “viva o presente. O futuro não existe, o passado não importa. Viva o momento”.

Falando assim, até parece que faz sentido. Mas sempre que ouço, me cheira à desculpa que alguém inventou pra si próprio quando estava com muita vontade de comprar um iPhone novo.

Ok, tem gente que vive somente no passado, chorando os erros ou tentando reviver os acertos. E tem gente que só pensa no futuro, sem conseguir realizar. São distorções, tratáveis com remédios e terapias. Só não entendo como criar um regimento de pessoas que vivem somente no presente pode resolver algo.

Na verdade, creio que essa ideia foi lida na orelha dos livros, e aproveitada por setores que não tem nada a ver com o conteúdo original.

A filosofia por trás da afirmação diz que para alguém ser pleno deve viver o momento atual, estar presente no agora. Prestar atenção nos detalhes, não se perder em devaneios sobre o que será ou que poderia ter sido. É uma forma de aumentar o foco, produzir com mais tranquilidade e menos turbilhão interno. Tem origem na própria meditação, e sim, faz todo sentido.

O que a publicidade e a galera pegou para si, no entanto, não tem nada a ver. De tudo isso, o que eles entenderam é que só se vive uma vez, que a vida é muito curta para se viver no passado, e que ninguém deve perder as oportunidades que a vida lhe dá só porque vão te dar dor de cabeça amanhã.

Viver no agora é um habeas corpus preventivo eterno.

A cada afirmação “agorista” que se constrói, é possível ouvir, lá no fundo, a vozinha do demônio do consumismo e do egocentrismo, que fica permanentemente sentado em nosso ombro, estimulando o cara a fazer besteira.

“Ai, que vontade comprar aquela bolsa linda, mas não tenho grana esse mês”, diz a mocinha. “Não esquenta, joga no cartão, divide em 12 vezes com juros. Só se vive uma vez. Depois a gente vê”. Diz o demônio das operadoras de cartão de crédito.

“Será que devo dirigir acima do permitido por lei aqui?”, pensa o dono do carrão, cujo motor está claramente subutilizado dentro dos limites da cidade cheia de radares. “Pisa fundo”, responde o demônio da indústria automobilística. “Você dirige pra cacete, não tem como dar errado. Se vier multa, se você perder a carteira, sempre pode contar com aquele despachante que arruma as coisas no Detran e faz as multas sumirem. Faça como Vin Diesel, viva perigosamente. Se você morrer, pelo menos morre bonito, se matar alguém, é menos um lerdo no caminho”.

“Acho que não convém mandar meu chefe à merda hoje”. E o demônio do cheque especial: “Deixa de ser bobo. Você é jovem, tem que seguir os seus sonhos, trabalhar naquilo que você ama. Não interessa se toneladas de pessoas tentaram isso e se estreparam antes. Você é especial. Você merece. Qualquer coisa você faz um empréstimo pra pagar as contas”.

“Preciso mesmo desse novo celular maravilhoso, sendo que eu nem aprendi, todas as funções do meu antigo?”, pergunta o fanático por tecnologia. O demônio do consumo responde, todo orgulhoso. “Nem pensa duas vezes. O preço tá ótimo, e você precisa ter esse aparelho antes de todo mundo para mostrar que antenado. O planeta está indo pro saco, mas não vai ser justamente o seu telefone que vai cagar tudo, né?”

Nosso pequeno demônio nos desculpa de tudo. Ele é um fofo.

O fato é que aqueles que te aconselham não pensar no futuro e no passado, pensam. E muito. Constantemente. Na verdade, eles fazem convenções enormes em resorts, onde apresentam projeções de resultados, gráficos, tendências e históricos. Colocam metas, destinam equipes, e contratam agências de comunicação milionárias para vender sutilmente essa ideia para as massas.

E como é gostoso comprar uma coisa inútil, ainda que seja uma ideia, não? O povo se joga com vontade nessa onda de viver o momento.

Os resultados?

Uma horda de gente que não sabe administrar seu tempo. Que não analisa prós e contras de nada. Que ganha dinheiro mas gasta tudo em atividades onanistas. Que não planeja, não pondera, não evolui. Hedonistas, vivendo o melhor da vida, enquanto seus pais pagam por suas cagadas. Afinal de contas, se eu tenho que viver pra sempre o hoje, melhor parar na adolescência, né?

Não era pra ser assim.

Ainda que você não se prenda a eles, o passado e o futuro existem. Qualquer decisão que se tome na vida precisa levá-los em conta. Refletir sobre o que aconteceu antes, com você e com outros, e tentar contornar o que deu errado e repetir o que deu certo é a única forma de se progredir. Ignorar o passado é um perigo. Pergunte a qualquer professor de história.

Ter uma noção realista do que se quer para o futuro ainda é a forma certa de planejar, de administrar recursos, de evitar ser pego tão de surpresa pela vida quando ela acontece.

E ela acontece, mesmo que se queira adiá-la.

Para quem comprou essa ideia, eu diria: repense. Sua vida não deve acabar amanhã. Essa ideia de “viver o hoje” te dá uma liberdade falsa. Ninguém vive só. Nossos atos fazem marolas que nem sempre espirram em nós mesmos.

A palavra é consequência. Você não precisa ficar preso ao passado, até porque ninguém inventou uma forma de mudá-lo ainda. Nem deveria perder o sono pensando no amanhã. Mas se você não sabe onde esteve, nem pra onde quer ir, vai condenar a si próprio a ficar esbarrando em tudo no caminho sem nunca encontrar entradas ou saídas para as situações.

O passado é pra refletir. O futuro é pra planejar. O presente é pra agir.