
Um dia, quando estava voltando para a casa, ao atravessar o túnel em direção ao norte da cidade, percebi um reflexo na janela traseira do veículo à frente. O brilho era gritante para um fim de tarde, e não pude deixar de reparar as árvores e as nuvens naquele céu que parecia tão belo e que, aos poucos, foram sendo deixadas para trás. De repente, apenas as luzes dentro do túnel, que passavam rápidas em meio a toda aquela escuridão, eram vistas. Definitivamente a iluminação não era tão bela quanto a que estava fora dele.
Por muito tempo fiquei pensando naquele restinho de luz que decidiu aparecer na minha frente enquanto eu estava dentro de um táxi. Era muito bonito o seu reflexo, mas tenho certeza de que se olhasse para atrás não teria uma vista tão agradável: apenas veria outro carro, que estaria obstruindo qualquer tentativa de tentar voltar para o ponto de partida. Isso me lembrou da metáfora da "luz no fim do túnel": sempre que ela aparece, pede para que pensemos positivo, ela é sinônimo de esperança. Mas e quanto ao outro lado? Se o túnel tem um fim, ele também possui um ponto de partida, a sua entrada.
Por que nunca falamos da luz no início do túnel? Eu acredito que essa metáfora também possui uma lição valiosa: assim como a luz no fim do túnel, que trabalha com a luz após a escuridão, sabemos que há sempre uma luz antes da escuridão. Caso não houvesse luz, não haveria como identificarmos a escuridão, da mesma maneira que se fala da relação entre tristeza e felicidade: nunca perceberíamos que estamos felizes caso não conhecêssemos a sua ausência. Mas, uma vez que o final do túnel é uma esperança de que coisas boas virão, o que representaria essa luz que vemos antes de entrar em um túnel? Nós certamente não nascemos dentro do túnel, em algum momento de nossas vidas já estivemos fora dele.
Talvez seja fácil deduzir o que pode ser a luz no início do túnel: a memória. Antes de entrarmos em uma situação difícil (a escuridão de um túnel), temos um período no qual as coisas eram o contrário disso. Se pensarmos na Lei da Polaridade, uma das leis herméticas, que afirma que "Tudo é duplo, tudo tem dois pólos, tudo tem o seu oposto. O igual e o desigual são a mesma coisa. Os extremos se tocam. Todas as verdades são meias-verdades. Todos os paradoxos podem ser reconciliáveis”, percebemos que, assim como o claro e o escuro são manifestações da luz, momentos calmos e turbulentos são manifestações da mesma coisa: da vida. Por que, então, eu afirmo que a luz (o claro) do final do túnel é diferente daquela do início? Justamente por causa dos conceitos de antes e depois. Os momentos mais fáceis de antes são memórias, os que virão após a dificuldade ainda são intangíveis e tudo que podemos dizer sobre eles é que temos esperança de que estão próximos (podemos ver a luz no fim do túnel).
O cenário no qual eu me encontrei nos revela mais uma coisa sobre esse "túnel da vida". O reflexo da claridade que eu via na janela de outro carro não era a imagem real e, se eu tentasse olhar para a verdadeira luz na entrada do túnel, não seria agradável por causa dos outros carros atrás do táxi no qual eu me encontrava, que atrapalhavam a minha visão no banco do passageiro. Essa revelação me trouxe a uma contemplação sobre a natureza da memória e o papel que ela tem no presente. O meu presente naquele momento era estar dentro daquele táxi, indo em direção ao outro lado do túnel, porque eu queria chegar em algum lugar. O meu passado era o que eu vi antes de entrar no túnel. E a minha "memória" daquilo era a imagem refletida na janela á frente. Sim, se eu me esforçasse, eu conseguiria lembrar de cada árvore que eu vi alguns segundos antes, mas naquele momento a única coisa que eu conseguia pensar era no que eu via agora: uma mera representação do meu passado.
Agora imagine se houvesse um engarrafamento dentro daquele túnel. Ficaria naquela mesma posição por minutos, horas — no caso de estarmos falando do túnel como a vida, seriam anos ou meses — e a única coisa que eu conseguiria ver do início do túnel seria seu reflexo na traseira daquele automóvel. Se eu olhasse para trás, o que chamaria minha atenção seriam todas as coisas que me impedem de voltar ao ponto de partida e, então, eu desistiria de tentar olhar para trás, ficaria apenas com o reflexo, que é como eu processei aquela memória.
Eu não perceberia que o lugar mais perigoso de ficar é na memória. É olhar para aquele reflexo e pensar o quão bonito ele é. A luz no início do túnel não é o que estava antes de eu entrar ali. A memória que a gente guarda das coisas nunca é, depois de um tempo, tão exata como pensamos que ela é. Suas paredes estreitam conforme você se sente confortável e, quando menos percebe, tentam te esmagar. É como num sonho estranho em que você está em um lugar lindo e de repente tudo desmorona, e você se encontra numa ilha isolada, sem conseguir avistar nada ao horizonte dali.
Nos apegar ao ponto de partida porque há uma luz no início do túnel é a atitude mais nociva que podemos ter. Nunca poderemos dar ré e pensar que estamos a seguir a mesma direção e, dentro de um túnel, ou mesmo no caminho antes dele, sempre haverá pelo menos um carro que tornará difícil para que as coisas sejam como antes. É essa a natureza mutável das coisas. Se queremos chegar em casa, não podemos ficar no mesmo ponto e olhar para a fonte da luz no início do túnel só nos causará agonia. Fixar no reflexo que vemos dessa luz nos faz querer voltar e, assim, ficamos em um ciclo, de encontro aos perigos de viver na memória.

