A memória da mãe

para a minha e todas as mães

Fotografia de Twyla Jones

A primeira memória inscrita da mãe é a do calor.

Do calor do ventre, quando, ainda despreparados para o mundo, repousamos, em silêncio, pacificados pela pura intensidade do amor.

Depois, o calor do colo. Da frequente casa de ternura; móvel caravela que ensina a direção aos pequenos membros ainda ignorantes das direções do mundo.

E o calor dos gestos de carinho. Dos olhares de encanto. Dos abraços onde a eternidade é pressentida.


A segunda memória inscrita da mãe é a da luz.

A primeira consciência, a primeira imagem do mundo é a da mãe. Por isso a mãe está associada a todas as manhãs do mundo. A raios de sol entrando, sempre, por uma janela aberta.

E essa luz é macia como um colo e quente como um ventre.


A terceira memória inscrita da mãe é a do som.

Dos sussurros que, mesmo quando incompreensíveis, falam o idioma universal e inconfundível do amor incondicional. De uma voz explicando que, no meio do mundo sombrio, há um sacrifício capaz de redimir-nos.


A quarta memória da mãe prolonga-se tão indefinidamente quanto a vida.

Porque a mãe está em todos os instantes.

Na harmonia sanguínea do meu corpo. No invisível ritmo dos meses. Em todos os momentos em que a alma, querendo desesperar-se, sente o calor, ouve a voz e vê a luz do milagre essencial.

A vida nutrindo a vida. Mãe.

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