A moda do conteúdo efêmero — e como enganam você dizendo que isso é bom.

Assumo que não sou fã do Snapchat. Na verdade não vejo a menor graça. Uma vez disse isso no Twitter e recebi como resposta "é, é tão ruim que vale bilhões". Continuei sem gostar.

Sim, eu entendo a importância da ferramenta, apesar de achar ela um saco. Entendo que a gurizada está ali (nos EUA as crianças tem suas contas no Snapchat, aqui ainda é terra de adolescentes) e que já tem uma turma mais velha entrando. Também entendo que aquela febre do "app usando pra enviar foto pelado" já não é o que move os novos usuários. Entendo, juro. Até entendia o argumento inocente de quem dizia gostar do Snapchat porque ali não ficavam registro do que postavam. "Ah, não pode dar print da tela ou gravar os vídeos", diziam. Bobagem, você recebe um aviso de print mas, oras, já foi, alguém tem aquela imagem.

2%? Sei não… acho que desses 80% devem ser meus amigos.

Conheço uma guria que seduz blogueiros e quando recebe aqueles vídeos mais picantes onde mostram a cara e o cara ela usa outro celular pra filmar a tela do celular em que usa o app. Sem registros, espertão. Você não recebe nenhum aviso de que aquele seu vídeo espancando o sabugo está na mão de alguém que está "criando um arquivo para uso futuro", como alegou. É, amigo blogueiro, você pode ter caído nessa, sinto muito.

Experimenta dar uma busca no Google por hot snapchat pics e vai ver que esse papo da segurança sempre foi roubada.

Acho o fato de não existir interação algo que vai contra o que acredito ser mais importante nas redes sociais. Não existe discussão, debate ou mesmo conversa. É uma coisa meio monólogo, você falando pra um monte de gente, ou pra ninguém, sem nenhum feedback ou interação (sim, eu sei, pode ser feita em privado). É uma atualização do flogão, uma evolução do "meu querido diário", uma ferramenta perfeita para exibicionistas em todos os níveis. Pessoas falando pra câmera enquanto contam um pouco de sua vida, a maior parte delas sem que ninguém se importe. E talvez isso seja parte do sucesso, podem não se importar mas quem publica não sabe disso. Ou não quer saber. Ela apenas usa, sem se cobrar resultados até porque não tem como mensurá-los.

Por trás disso tem ainda o argumento do conteúdo ágil, onde há uma urgência de ser consumido afinal ele vai desaparecer em X tempo. Isso daria uma dinâmica diferente, mais moderna, com a cara desse mundo onde tudo, até mesmo amores eternos, tem prazos para acabar. Venderam isso pra você, não venderam?

A verdade é que o sumir no éter na rede não faz de nada moderno ou muito menos ágil. A agilidade está na publicação, não no consumo. Essa "modinha" de conteúdo que some tem outra explicação que não tem relação com hábito. Ou não tinha.

Sem a obrigação de manter o conteúdo guardado vão-se os custos de arquivamento, um dos maiores de uma operação como essa (acredito eu, que algo aproximado do custo de banda), vão-se as preocupações com ações judiciais para retirada de conteúdo do ar, vão-se os custos com tráfego de dados envolvendo busca e muito mais. Ou seja, a "moda" não benificia você, usuário, e sim o aplicativo, que aumenta bastante sua possibilidade de lucro ao reduzir tremendamente os custos. Se alguém de tech tiver os dados relacionados com esses custos e quiser me manda eu publico aqui e dou o crédito, pode ser pra me desmentir ou pra confirmar, tá valendo.

Transferiram pra você o "desejo" de um conteúdo que some, algo meio Steve Jobs, atendendo a uma necessidade que você não tinha e fizeram você acreditar que agora tem. Vejo um paralelo com bancos que transferem a responsabilidade pela segurança das transações digitais do usuário para o próprio usuário.

E assim surgiu em seguida o Periscope — onde ao menos há o feedback, há a interação — que também vende essa urgência de consumo de conteúdo. E irão surgir muitos outros mais, podem esperar.

O conteúdo, amigos, não devia ser efêmero.

Ao menos não o bom conteúdo.