A necessidade de encaixar toda a nossa vida em uma coisa só.

(ou) por que tenho um Instagram de Looks do dia?

Eu-zi-ta vestindo um look casual no meu Instagram de #looksdodia! Aliás, segue lá você também: @dona_baratinha! [AUTO JABÁ]

Dia desses eu contei para uma pessoa próxima que há algum tempo resolvi montar um Instagram de looks do dia. A conversa foi mais ou menos assim:

- Nossa, mas vocêêêêêêêêêê! Jornalista, designer de produto, estudada, escreve aquele monte de textos profundos sobre a vida e perde tempo fotografando look do dia? Quem diria, hein?
- Olha, meu querido, também poderia pilotar uma Scania e dançar ballet, não entendi sua surpresa em relação a isso.

Mas eu estava mentindo. Porque eu entendo sim a surpresa das pessoas em relação aos meus múltiplos comportamentos aparentemente controversos. Sempre achei a vida curta demais pra gente gostar e ser de um jeito só. Então, na dúvida, sou um pouco de tudo. E tenho certeza que você também, mesmo que não conte pra ninguém.

Somos julgadores natos. E gostamos de prever quem são as pessoas com base naquilo que elas nos exibem. Seus sentimentos, histórias e contextos vêm muito depois daquilo que enxergamos, e é natural que façamos isso em menor ou maior grau, mas confesso que fiquei um pouco chateada com a colocação do amigo acima. Em qual universo eu deveria me inserir, afinal, para ter a permissão social de ter um perfil de looks do dia? Não é algo que todo mundo tem no mundo atual?

Será que deveria ser mais elegante? Alta? Menos colorida? Mais ryca?

Depois de concluir que nada na minha vida mudaria mesmo que todas essas perguntas fossem respondidas, comecei a escrever esse texto. E a colocar aqui alguns devaneios acerca das pessoas e seus muito julgamentos sobre como deveria ser a vida alheia.

Para 99% dos seres humanos gostar de moda = a ser fútil. Se você se preocupa com a sua imagem ou tem interesse por isso, automaticamente se torna uma pessoa superficial, fraca e, sim, burra. E isso pode ser aplicado também a quem se interessa muito por futebol. Ou vídeo-games. Ou qualquer coisa que não faça de você uma pessoa intelectualmente astuta, necessariamente, que é só um hobby, sabe? Então.

Fiquei ainda mais desgraçada da cabeça quando me dei conta que as pessoas residentes em São Paulo capital, um dos locais mais modernetes do planeta Terra, são também as que mais guardam preconceitos. Nos juntamos, afinal, por afinidades — mas nos segregamos também por isso.

- Ai, ela é tão legal, mas usa umas roupas esquisitas, né? Meio ridículo. Gosta de rap. Tem cabelo colorido e várias tatuagens…Sei lá…

A autora da frase acima foi uma amiga minha quando se deparou com outra nos corredores da faculdade de Design, que fiz em meados de 2008. Essa tal menina estranha hoje é uma super grafiteira famosa, estilosíssima que eu, obviamente, simpatizei logo de cara e insisti para sermos amigas. Talvez, se eu tivesse encarado todas essas diferenças como uma barreira sócio cultural, jamais teria conhecido a pessoa incrível, múltipla e talentosa que ela é. E muito mais que isso: os nossos preconceitos nos impedem de emergir em um mundo de possibilidades e novas visões. Não é a moda que aliena a gente, são os nossos próprios critérios de seleção “natural” que nos deixam burros.

Somos seres humanos múltiplos e complexos. Nosso comportamentos e preferências também deveriam ser. Que medo é esse de saber mais sobre a vida do outro? De conhecer gente nova e diferente? Que mania é essa de sempre conversar com as mesmas pessoas, fazer os mesmos trabalhos, viver cheio de fórmulas prontas e funcionais para tudo? Por que esse medo de se decepcionar com o que a gente nem conhece?

Se você nunca se permitir coisas novas, vai ter sempre os mesmos resultados, os mesmos dramas e limites. E não vai crescer com os novos erros ou superar os antigos. Seja hoje a blogueira de look do dia que você quiser. A empreendedora, a apaixonada por ciência e mecatrônica. Seja médica e jogadora de futebol, atriz e engenheira civil. Por que não? Você não precisa colocar toda a sua vida em uma caixinha, nem tudo sobre você vai agradar as pessoas ao seu redor.

Depois que você se vir livre dos limites sociais que te impedem de ir em frente, pode crer, vai crescer muito.