A “Nova Política” Já Existe. E chama Marielle

Desde 2013, ao menos, o discurso de negação da política tem ganhado força no Brasil. No contexto das manifestações de 2013, a popularidade de todos os políticos caiu, especialmente a de Dilma Rousseff, que viu sua aprovação derreter de 57 para 30% em menos de um mês. Se por um lado isso soa até engraçado, considerando que Temer não consegue sob nenhuma hipótese ter mais de 6% de aprovação, por outro é uma prova de que as manifestações de junho de 2013, junto com o que veio depois (eleição de 2014, Lava Jato, Impeachment de Dilma, governo Temer), jogaram a classe política desse país em um abismo difícil de sair.

Esse discurso contra a política institucional foi especialmente utilizado pela direita nas eleições de 2016, gerando eleições improváveis como a de João Dória em São Paulo (a cidade agradece o fato de que ele já está saindo para buscar o mandato de governador do estado de São Paulo). Mas já estava lá, em 2014, quando candidatos como Marina Silva propunham o que eles chamavam de “nova política”, colocando-se como uma ruptura ao sistema político institucional vigente. A campanha de Marina em 2014 naufragou por diversos motivos, sendo o primeiro deles a horrível fatalidade ocorrida com Eduardo Campos, mas a retórica da “nova política” permaneceu: virou até nome de partido comandado por banqueiro.

Esse cenário é corroborado pelas pesquisas mensais do Barômetro Político da Ipsos, em parceria com o Estadão: em uma pesquisa com 22 nomes da política ou do judiciário, o único político com mais avaliação positiva do que negativa na última pesquisa, de fevereiro, é o… Luciano Huck. Que nunca concorreu a um cargo público:

Isso mostra que a rejeição à política institucional continua presente. E isso ocorre, dentre outros motivos, porque aqueles que adotam o discurso da novidade em geral não adotam a prática da novidade. O maior exemplo atual dessa hipocrisia é o próprio (futuro ex) prefeito de São Paulo, João Dória, que se elegeu prometendo não ser político, e, após um ano e três meses de administração, fez campanha para presidente, colecionou fracassos, ganhou rejeição, teve que redimensionar suas ambições para o governo do estado de São Paulo e agora sai da Prefeitura pela porta dos fundos, com muito marketing e pouca prática.

A nova política consiste justamente no contrário disso: muita prática, proximidade com o eleitor, sinceridade, clareza de propósitos, preocupação sincera com quem confiou o voto a você. Hoje em dia, os grandes profissionais no mercado são cada vez mais aqueles que demonstram capacidade de resolver problemas atentando para o aspecto humano das situações. É por isso que uma coisa que está na moda é o “coach”: o coach, quando é um profissional sério, nada mais é do que uma pessoa que ouve as suas questões e utiliza metodologias para enxergar potencialidades que muitas vezes você não enxerga em você mesmo. Enxergando essas potencialidades, você encontra ferramentas para resolver questões que envolvem, normalmente, a sua vida profissional, enxergando novas perspectivas. Querendo ou não, a nova política tem um pouco disso: fazer a nova política é não ter medo de se posicionar, é se engajar, é não levar os riscos em conta, é se preocupar com as pessoas a ponto de ter empatia sincera por elas, fugindo da postura hipócrita tão característica da maior parte de nossos políticos institucionais.

Nesse sentido, hoje, a maior representação da nova política é justamente Marielle Franco. Porque ela tinha algumas características específicas, que são justamente as que fazem as pessoas acreditarem novamente na política institucional. Para a gente entender o tamanho disso, é necessário enumerar algumas características da atuação de Marielle Franco e como ela ajudou, da maneira dela, a transformar a política do Brasil

Marielle não tinha nenhum medo de se posicionar. Pela mulher, pelo negro, pelo povo da favela, pelas questões LGBT. Ela dedicava a vida à questão dos direitos humanos e à luta contra os abusos, tão comuns ao pobre que vive em condição de vulnerabilidade nas comunidades do Rio. Também se posicionou de forma veemente contra o impeachment, em pleno ano de 2016, quando fazer isso significava automaticamente perder votos. Ao se posicionar de forma tão veemente, Marielle flertava com a renovação de fato da política, fazendo um poderoso contraponto aos políticos que pregam renovação, mas só são capazes de reproduzir opiniões de senso comum, por mero medo de rejeição.

Marielle tinha empatia pelas pessoas. O seu engajamento em questões relacionadas aos Direitos Humanos se estendeu a prestar assistência às mães dos policiais mortos em serviço. E ela fazia isso mesmo sendo só uma assessora na época, mesmo sem ter carro. Ela ia visitar as pessoas de trem. Sabe por que? Porque Marielle se preocupava de verdade com o que realmente importa na política: as pessoas. Marielle era capaz de enxergar a dor de uma mãe que perdeu o filho. Quem vai se preocupar com a mãe do policial morto? A gente naturalizou a morte dos policiais. Morreram mais de 100 só no Rio de Janeiro em 2017. Viraram número. Viraram estatística. Mas, para Marielle, eles não eram estatística. Cada policial era um sujeito que ganhava mal e mesmo assim ia pra rua correr risco de vida. Cada policial morto tinha uma família, uma história de vida. Teve policial morrendo no Rio porque não tinha interesse em receber a propina que os demais policiais recebiam. Marielle se preocupava com todos eles.

Outra característica de Marielle era a coragem. Marielle não tinha NENHUM medo de se posicionar. Uma de suas últimas postagens no Facebook foi denunciando o homicídio de dois jovens no Acari, onde está o batalhão mais violento da PM do Rio. Se você fizer uma pesquisa mais aprofundada no histórico das redes sociais da Marielle, vai perceber que esse tipo de denúncia era recorrente. E nenhuma ameaça a faria mudar o tom. Marielle tinha um profundo senso de justiça, e esse senso de justiça se refletia em suas atitudes, todos os dias. Ela se colocava em maus lençóis para defender aquilo que considerava justo.

Marielle nunca parou de estudar. Como defensora das causas sociais, que viu de perto todo tipo de situação desalentadora na vida (negra, pobre, moradora de comunidade, mãe aos 19 anos), Marielle nunca desistiu de estudar. Ela sabia que só transformaria a Maré com muito conhecimento. Se formou, estudou as UPP’s em seu mestrado, e era com certeza uma das pessoas que melhor conhecia as dinâmicas sociais das comunidades do Rio de Janeiro. Ela se preparou para ser vereadora. E, preparada, teve uma atuação monumental em seu primeiro ano, conciliando a assistência aos moradores das comunidades com a confecção de 16 projetos de lei, sempre no sentido de garantir os direitos de quem sempre tinha seus direitos sob risco.

Marielle era (e é) presente. O slogan de sua campanha e de seu mandato não era um slogan vazio, como ocorre com a maioria dos slogans dos políticos. Marielle de fato se fazia presente na vida das pessoas. As mudanças que ela propunha faziam diferença real na vida das pessoas. Um exemplo disso é a Lei das Casas de Parto, que oferece espaços para as mulheres mais pobres terem seus filhos de forma mais humanizada. Outro é a proposta dos Espaços Coruja, estendendo o horário de funcionamento em creches de locais pobres e distantes, para que os pais possam ir trabalhar e deixar seus filhos nas creches sem sofrer tanto. Eram coisas que realmente transformavam oa dia a dia da população pobre. Porque ela era do meio. Ela tinha conhecimento. E ela usava o conhecimento que tinha para o bem.

Conclusão

Capa do Washington Post (20 de março de 2018) retratando Marielle Franco como um símbolo global.

A morte de Marielle segue causando comoção mundo afora. Pelas circunstâncias horríveis, mas também porque o seu trabalho era monumental. O Washington Post a retratou como um “símbolo global”, e talvez ela seja mesmo. Existem pessoas que são faróis. Que, como faróis, mostram a direção a seguir. Marielle, em vida, foi uma dessas pessoas, com seu trabalho monumental, com sua energia contagiante, com sua capacidade de dar esperança a todos os que a cercavam até seu último evento. Mas em sua morte, Marielle foi maior ainda: foi como uma estrela que, ao explodir em supernova, atraiu a atenção de todos, mostrando que a única política que vale a pena é aquela que é feita pelas pessoas e para as pessoas.

Nesse sentido, Marielle continuará presente para sempre.

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