O pouso na Lua, Lunik 9 e o homem na história espacial.

Murillo Pocci
Jul 19 · 5 min read
Fonte: Pixabay

Poetas, seresteiros, namorados, correi
É chegada a hora de escrever e cantar
Talvez as derradeiras noites de luar

Lunik 9, composição de Gilberto Gil em 1967, anunciava: cantem suas últimas estrofes sobre a Lua. Falem sobre o céu, o chão, os mares de prata e os vizinhos espaciais, pois em breve a ciência acabará com nosso amor platônico por esse satélite misterioso.

E assim foi. No dia 20 de Julho de 1969, Armstrong, Aldrin e Collins descobriram o manto lírico desta superfície. A Lua tinha solo macio e poeirento; o céu, negro e estrelado, sem atmosfera. Os oceanos, mais tarde descobrimos, jaziam congelados nos polos e eram compostos de água, e não prata.

Não havia sinal de vida. Ainda não há.

Gil, Elis, Caetano e quantos outros compositores (para não citar Pink Floyd como o faço em grande parte dos meus textos) não se revoltaram com aquilo? Quantos escritores e teóricos não devem ter ficado abismados com a solidão da Lua? Sem vida, quase que monocromática e, ainda por cima, de solo macio!

Mas, como diz Neil deGrasse Tyson, a maravilha da ciência é que, você acreditando ou não, ela existe. Aquilo que nos era apresentado através de câmeras e rádio pelos astronautas (na época, muitas vezes chamados epicamente como cosmonautas, viajantes do cosmos), ao mesmo tempo que era admirável e esplêndido pelo feito, era frustrante pela simplicidade do resultado. Não houve um “primeiro contato” ou algo maior do que o pouso, salvo declarações de conquistas no maior estilo USA.

E, de fato, não havia muito mais o que se fazer por lá. Coletamos rochas, minérios diversos e descobrimos água congelada; aperfeiçoamos tecnologias usadas na missão (seu celular, por exemplo, é uma delas); tiramos fotos do satélite e mandamos sondas além da Lua. Conhecemos nosso sistema de diversas formas e agora, 50 anos após o primeiro pouso, a humanidade vibra ao caminhar para uma nova fase:

E lá se foi o homem conquistar os mundos lá se foi
Lá se foi buscando a esperança que aqui já se foi

A Lua, de joia mística no céu dos poetas, passou para grande conquista da humanidade e hoje, para as novas missões, não se trata nada mais do que um Posto Ipiranga.

Explico: novas missões da NASA, Blue Origin e SpaceX, após descobrirem sobre os estoques de água no satélite, viram ali uma forma de lançar foguetes, não da Terra, mas a partir da Lua ou até mesmo já no espaço. O hidrogênio e oxigênio contidos no gelo lunar podem ser usados como combustível, e, devido à baixa gravidade, o voo saindo da Lua apresenta um custo-benefício bem maior.

A ideia agora não é conquistar a Lua, mas usar sua superfície e seus recursos como escala para outros planetas. O objetivo atual seria fazer uma viagem a Marte com escala no nosso satélite, quase como um voo de avião. A diferença é que o avião não libera duas mil toneladas de combustível nuclear em segundos e nem sofre com modificações atmosféricas e gravitacionais ou com exposições diretas aos raios solares.

Mas, se em 1969 começamos a exploração espacial, no século XXI o tópico muda para exploração interplanetária. Logo, os poetas, seresteiros e namorados de Gil vão precisar se preparar para cantar as derradeiras noites marciais. Vênus e Marte serão tanto de homens quanto de mulheres. Assim como o nome da banda americana, no futuro estaremos a 30 segundos de Marte (30 Seconds to Mars). Faremos ligações e, no maior estilo Elis Regina, diremos “Alô alô marciano(a), aqui quem fala é da Terra” e, ao final, responderemos a Bowie que sim, existe vida em Marte.

Em séculos, dominaremos o nosso sistema solar. Mas o que isso vai significar para a Humanidade?

Da nova guerra ouvem-se os clarins
Guerra diferente das tradicionais,
Guerra de astronautas nos espaços siderais

Em 1969, além dos motivos científicos, o pouso lunar foi um golpe militar no episódio histórico da Guerra Fria conhecido ironicamente como Guerra nas Estrelas. Uma corrida armamentista disfarçada como ciência entre URSS e EUA, não só para provar quem conseguia ir mais longe, mas também para falar quem possuía o maior poder tecnológico e bélico. Em silêncio, cada nação lustrava seu foguete com um olhar ameaçador à outra.

Hoje os motivos parecem ser outros. Ainda se vende a exploração espacial como progresso científico, mas, com empresas privadas envolvidas, sabemos que grande parte desse esforço é em torno do lucro.

Poder bélico e econômico. Utilizando a ciência como transporte, estes são os dois motivos que nos guiam rumo ao espaço. Baseio-me na própria ideia da exploração de recursos lunares para avanço em outros planetas. Não existem dúvidas de que, assim que for viável, o comércio espacial vai existir. O problema é se, assim que for viável, a guerra também alcançar um novo patamar. Um fantasma do século passado, a Guerra nas Estrelas pode ser algo definitivo para dizer se a Humanidade vai ou não alcançar outros sistemas.

A mim me resta disso tudo uma tristeza só
Talvez não tenha mais luar pra clarear minha canção
O que será do verso sem luar?

Em um dos volumes da sua saga épica sobre a humanidade como sociedade galáctica, Fundação, Isaac Asimov nos apresenta um episódio no qual o protagonista da história encontra-se em um planeta onde todos os seres vivos são conectados em uma única e grande consciência. O episódio é uma analogia que serve para ilustrar uma questão que envolve a natureza humana: em troca de um bem maior, seríamos capazes de abandonar nossa individualidade para nos unir de forma sustentável? Abandonaríamos o singular para compor um plural mais sustentável e viável ao futuro?

Isso é apenas uma das questões que englobam nosso futuro espacial. Nossa sociedade vai ter de se adaptar a novas estruturas sociais para que possamos progredir. O ser humano possui tamanha adaptabilidade? Quando Armstrong pousou, seu pé deixou uma pegada de cinco centímetros de profundidade, com marcas definidas do seu calçado. Pergunto-me qual será a profundidade da pegada da humanidade na história da galáxia: quilômetros de profundez, adaptando-nos ao espaço e adaptando o espaço a nós? Ou apenas um tropeço que de nada teria efeito na superfície histórica?

Mas, acima de tudo, acho que a pergunta que mais me assusta é se, ao estarmos em outro planeta e apontarmos em direção à Terra, vamos dizer que ali está nosso berço de nascimento… ou nossa primeira falha?

Poetas, seresteiros, namorados, correi!
É chegada a hora de escrever e cantar
As derradeiras noites terrestres.

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Murillo Pocci

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Primeiramente, escritor. Co-autor do blog Pintando o Infinito e autor do livro A Casa. 22 anos. Por último, programador e desenvolvedor.

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