A permissão de Kim Kardashian de postar nudes.

Como uma ideia, comportamentos, mensagens e qualquer mudança sutil que impacte o dia-a-dia se espalham?

O jornalista e escritor, Malcolm Gladwell, em seu brilhante livro O Ponto de Desequilíbrio — considerado, por especialista da área, a bíblia da comunicação/propaganda -, já esgotou o assunto. Só que a matéria é poesia e, por assim reconhecer, me deixa absolutamente exaltado. Cabe a mim, portanto, mero mortal na disciplina, tentar espremer o pouco que me resta e aquilo que sinto e observo diariamente dos noticiários.

Quando se trata de compreender o surgimento de uma nova tendência, uma nova ideia, comportamentos, mensagens e qualquer mudança sutil que impacte o dia-a-dia, segundo Gladwell, a melhor maneira “é pensar em tudo isso como epidemias”. E como é que uma epidemia se espalha? Simplesmente se espalha.

Observar e constatar tais mudanças — quase que invisíveis — é minuciosamente sutil, complexo e repleto de neblina e artimanhas. Exige-se também, de quem observa, otimismo cético, a dúvida constante para superar as limitações e vieses cognitivos humanos, bem como grande acervo de conhecimento e experiência — ou, a capacidade perspicaz de encontrar soluções com limitada informação a disposição.

Em março deste ano, me deparei com algo de encher os olhos sobre tudo isso que impacta o dia-a-dia. Cheguei a pensar: “Mais uma epidemia?” Registrei o fenômeno, em meus cadernos de anotações, e me coloquei de prontidão aguardando o estouro, como pipoca na panela, do comportamento nos próximos dias. Apostei comigo mesmo que o episódio ganharia seguidores. Ganhei.

A socialite, Kim Kardashian, desde que ganhou os flashes na calçada da fama, apresenta belas e expressivas curvas. Seu corpo é um monumento; é o seu maior patrimônio. E motivos de festividades, com as mais diferentes intenções, sobre o corpo de Kim, não findam. Ela também arruma meios de manter a reputação de estrela da festa.

Em 7 de março, mais precisamente, numa noite como outra qualquer, Kim removeu as roupas, vestiu duas tarjas pretas, apontou o celular para o espelho e publicou a foto (nua) em sua rede social. O frenesi das opiniões, da mídia em geral, e de alguns famosos e multidões de plantão sobre assuntos alheios, correu, subitamente, pelos mais diferentes lugares. Aqui no meu canto, no entanto, com meus pensamentos, só me apaguei, como já mencionei, à minha aposta.

Não demorou um dia para eu levar o bolão das minhas expectativas. Ah!, que felicidade! Ainda iluminado pelo sol da manhã, ao passar os olhos pelas notícias diárias, a atriz, Courtney Stodden, se inspirou, com a mesma vestimenta, em nossa musa inspiradora. Depois disso, à noite, quando voltei a selecionar meu olhar para o ocorrido, fui atingido por uma enxurrada de fotos similares. Pelo menos, até onde minha pesquisa alcançou, e não foi tão profunda, pois já havia conquistado minha aposta, seis famosas, além de Courtney, copiaram a selfie de Kim. Isto é, meu exercício de detetive se restringiu apenas aos casos de famosos que receberam os holofotes da mídia. E o segmento anonimato da vida onde não se tem a mesma facilidade de visualização?

Existe um tipo de contágio que, não necessariamente, caminha pelo lado racional ou consciente das nossas escolhas. Como se fosse um vírus que navega livremente pelo ar. E quando se ancora em nós, passeia pelo circuito das racionalizações e decisões carregado de artimanha emocional. Empurrando-nos, portanto, na maioria das vezes, a tomarmos decisões, como já categorizou o psicólogo Dan Ariely, de maneira previsivelmente irracional — mesmo achando que estamos no controle da situação.

No caso do comportamento de Kim, “… o sucesso de qualquer tipo de epidemia depende muito do envolvimento de pessoas dotadas de um conjunto raro e particular de talentos sociais”, afirma Gladwell. Dessa maneira, só posso concluir que, juntando os rotineiros casos de tomadas de decisões puramente irracionais, com o conjunto raro e particular de talentos sociais de algumas pessoas, resulta-se, nesse caso, na permissão de Kim Kardashian de postar nudes. E com a permissão autorizada, deflagra-se a epidemia.

Os “eleitos” permitem que outros façam a ação daquilo que também está dentro deles. E sobre isso, existe uma dimensão, bem específica, que vale o cuidado de registrar aqui. Normalmente, quando duas pessoas estão conversando, elas entram em harmonia física e auditiva. Mas não é só isso. Elas também envolvem a mímica motora. Ou seja, com estímulos sugeridos, por exemplo, numa determinada experiência, mostrando fotos de pessoas sorrindo ou tristes, é possível que as “cobaias” reajam sorrindo ou amarrando a cara. De certa maneira, nos inclinamos a imitar o estado emocional da outra pessoa. E quando conversamos isso também acontece. “Imitamos as emoções dos outros como forma de expressar apoio e cuidado, e até, mais basicamente, como um meio de comunicação mútua”, aponta Gladwell.

A mímica é uma forma de contágio através das nossas emoções. E, portanto, a emoção é contagiante. Tendemos a acreditar que a emoção vem de dentro pra fora. Se estivermos com o coração radiante de felicidade, sorrimos; por outro lado, se o coração estiver encoberto de lamentações, enrugamos a testa. Mas, se considerarmos o inverso — a emoção vinda de fora pra dentro, e estimulando, portanto, uma predisposição interna — é possível compreender que algumas pessoas têm forte poder e influência sobre as outras pessoas.

Muitos devem se lembrar do depoimento da apresentadora Xuxa ao Fantástico, em 2012, revelando os abusos sexuais que sofrera até os 13 anos de idade. No outro dia, como é de se esperar quando alguma pessoa possui forte poder e influência sobre as outras pessoas, as delegacias colecionaram uma infinidade de depoimentos de meninas, em sua grande maioria, no início da adolescência. As revelações da Rainha deram permissão e voz ao trauma e angústia, de tantas meninas, de conviverem sistematicamente, dia após dia, caladas e com medo.

Outro aspecto impactante do dia-a-dia mais recente, brutal e injustificável, e que permeia esse fenômeno de se espalhar como epidemia, foi o episódio do estupro na cidade do Rio de Janeiro. Sobre o fato em si, não quero entrar em detalhes — e nem se encaixaria na abordagem aqui manifestada. Quero dizer, apenas, e, infelizmente, narrar, que o mesmo cenário apareceu, dias depois, em outros lugares. Também não vou me prolongar na lista que pesquisei. Aqui vão alguns: em Marau, município do Rio de Grande do sul; numa ocupação do MST (Movimento Sem Terra), em Minas Gerais; e até um caso polêmico, que sugeriu similar agressão à mulher, mas muito longe de ser um estupro, do cantor MC Biel.

Você deve estar se perguntando se estou sugerindo que o fato ocorrido no Rio de Janeiro deu permissão para outras pessoas (homens) cometerem o mesmo crime. Num lugar distante da razão e dos valores e princípios que entendemos da vida, pode-se dizer que sim. Mas não exclusivamente pensando apenas por essa ótica. Outros acontecimentos, por exemplo, são recorrentes, mas nada tem a ver com a permissão de pessoas, e ainda me despertam incomoda curiosidade.

Já notou que quando um avião despenca do céu, nos dias, semanas e meses seguintes, caem tantos outros como chuva? É uma incógnita constante em minha vida. E procuro pensar, para que eu não seja orientado aos médicos, que é apenas uma visão seletiva. Como acontece quando decidimos a compra de um carro. Passa a existir nas ruas apenas o carro desejado.

De alguma maneira, uma nova tendência, uma nova ideia, comportamentos, mensagens e mudanças sutis que impacte o dia-a-dia, se mexem e acontecem incisivamente ao redor das pessoas. Há tantos mistérios sobre a terra que, a quem estiver disposto a retirar os véus, a própria vida o impulsionará para o ritmo espiral da evolução. Resguardando-me de uma resposta mais abrangente — e que é mais uma pergunta -, o próprio movimento do universo, não responderia essas mudanças sutis que acontecem ao nosso redor e entre nós seres humanos?

O fato é que nos relacionamos e, como vimos, influenciamos diariamente, com mais ou menos intensidade, de um jeito bem específico, a vida de outras pessoas. Mesmo que com ou sem a incrível reputação de “eleitos”. Por conseguinte, pensando na permissão de Kim Kardashian, e nos demais episódios que percorremos juntos, nunca me perdoaria se não deixasse aqui aquilo que acredito ser uma permissão reflexiva sobre o gênero humano: continua sendo árduo colocar um bocado de princípios e responsabilidade em nossas ações?

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