A política indispensável do autocuidado em tempos de resistência

Imagem: Outros jeitos de usar a boca — Rupi Kaur

O amor próprio passou a se tornar pauta política, assunto de militância e recorrentemente levantado pelo movimento de mulheres. Só se percebe a importância de amar a si mesma quando tu convive com mulheres, com amigas, entre relatos e histórias descobre o processo doloroso em diversas proporções que cada uma passa. Percebe também a força que encontra nesse caminho, nessa subida juntas impulsionando uma outra.

Como se amar a si própria fizesse parte de um processo coletivo, ajuda outras mulheres a se amarem.

E auxiliando umas às outras, nos tornamos menos dissolúveis, estamos interligadas e engajadas também pela luta interna de cada uma. E ao respeitar os recortes sociais, de classe e raça, respeitamos também o crescimento pelo tempo de cada uma. Nunca vi uma energia tão sólida quanto mulheres que se amam e se admiram, se dedicam para ensinar como a outra pode evoluir, sem regras, no seu interior, na sua espera, nas suas raízes. O movimento político hoje demanda mais do que discurso, ações, afirmativas e performance, demanda saúde mental. Em um país que persegue e mata ativistas.

Estamos expostas, mulheres negras ainda mais, mulheres LGBTs ainda mais, numa sociedade perigosa. É preciso ter coragem. Mas é preciso ter amor. E encontramos amor no mesmo núcleo em que configura a luta, nada é mais forte do que o sentimento de pertencer e acolher.

Acolhemos as dores, as feridas que não compreendemos e as vivências que não experienciamos. Ainda há muitos passos para avançar, e fico feliz de conhecer e fazer parte de um grupo de mulheres com quem posso aprender, ouvir e também contribuir na construção pessoal. Porque estas mulheres praticamente salvaram minha vida.

Reconheci em mim forças que não sabia, percebi em mim tudo o que me mantém erguida e como ultrapassar as fraquezas (ou aceitá-las). Aprendi com as mulheres da minha vida. E mulheres do movimento, da luta, dos corres.

Autocuidado nos dias de hoje é privilégio e necessário. Lidar com uma política de recessão que se acirra cada vez mais, estruturantes de opressão que não só censuram como assassinam, prejudica nossa mente, nosso equilíbrio, e é preciso nos mantermos em andamento juntas, com base formada e saudáveis para sobreviver. Autoamor e saúde mental nunca foram tão políticos.