A profundidade da confiança em mim

Você já parou para pensar sobre qual foi a experiência mais assustadora que você já vivenciou? Provavelmente não. Normalmente só observamos esse lado polarizado quando estamos de fato de frente para ele.

Talvez listar situações específicas ajudem a elucidar quando que de fato o modo contemplativo toma conta do nosso consciente. Aquela vez que percebi que havia perdido 3 folhas de cheque da minha mãe, ou aquela vez que meu dedo ficou preso em um cilindro no ônibus de desembarque no aeroporto, ou aquela vez que achei que 2 meses de natação introdutória me salvaria de um quase afogamento na piscina do hotel. Em todas essas situações, sem banalizar — e relativizar — nenhuma delas, tudo dependia de um exercício de navegação sobre minha relação com medo. O ideal é que nesses momentos, eu tivesse minha bússola mental bem configurada para que conseguisse navegar calmamente sem pânico, correria e desespero até um porto seguro onde fosse claro o suficiente para observar o cenário.

Nem parece tão difícil, não é?

Confesso que, no início, eu sempre estive com essa bússola preparada bem abaixo das expectativas de como deveria estar. Então eu acabava sempre cuidando para que, independente do cenário, eu não descesse rápido demais e não me afastasse na direção oposta do caminho da tranquilidade. Um erro muito primário e que deveria ser cometido somente uma vez, certo? Errado. Muitas vezes eu já me vi longe demais daquela ilha de sanidade mental que eu deveria usar de norte para me guiar na navegação dos meus medos. Outras tantas vezes, tudo que pude ver nessas situações era a imensidão de angústia, uma imensidão azul em todas as direções, que tomava conta de mim quando percebia que só minha cautela seria insuficiente.

Essa idéia sobre bússola mental é uma questão que ficou mais clara e recorrente para mim depois que comecei fazer terapia. Ter por onde caminhar nem sempre é uma garantia de que você tem firmeza sobre onde está pisando. Agora saber por onde se caminha é uma vantagem das boas quando se fala das inevitabilidades da vida. Muitas vezes o caminho que a gente percorre nada mais é que uma abrupta, inesperada e inescapável queda livre. E isso é uma metáfora muito precisa.

Por mais que uma queda livre pareça excitante e libertadora; também é assustadora a sensação de que não há apoio nem garantia de onde você vai pousar. Você pode achar muito bacana a adrenalina e a liberdade de um voo de parapente, mas isso não tira o valor de ter o chão sob seus pés no seu cotidiano. É um vício que somos condicionados a cultivar: precisamos de um ponto de segurança para termos impulso suficiente para sair daqui e ir até lá — onde quer que lá seja.

É bom confiar que seu contador está garantindo que você está em conformidade com todos os regulamentos fiscais.
É bom confiar na empresa em que você trabalha ira pagar pelos seus dias no final de cada mês.
É bom confiar no sistema de transporte da cidade e que os vagões do metrô foram testados e verificados regularmente para evitar possíveis catástrofes. 
É bom confiar quando as pessoas que você reconhece como mais inspiradoras dizem que se você fizer algo, eu terei uma sucesso na minha vida.
Nada disso, porem, é uma garantia.
E nada disso pode te paralisar.

Mesmo nas situações mais assustadoras, o caminho a seguir é tão existente quanto nas situações de segurança e você é o único responsável por compreender a melhor rota que deve ser seguida. Isso não significa que você não deva mais confiar em ninguém nem em nada. Nem que você deva manter todas suas opiniões e convicções imutáveis. Na vida cotidiana, você deve seguir depositando a mesma confiança de antes no seu contador, no seu emprego, no sistema de transporte de sua cidade tanta confiança no meu contador, empresa e no sistema de transporte da cidade. O que pode e deve mudar é que o primeiro e inegável ponto de vista que você deve considerar é o seu mesmo. Ele é o melhor configurador para sua bússola mental e parâmetro de que o caminho está tão aderente quanto sua expectativa.

Para todos os efeitos práticos, de fato, é bom saber que o céu está em cima da sua cabeça e o chão está debaixo dos seus pés. Mas quando estiver em queda livre, seja qual ela for, é melhor encontrar outra maneira de entender onde está e para onde precisa ir.

Me fez muito bem construir meu senso de que o mundo funciona a partir de como eu decido me movimentar. 
E isso é algo que eu posso fazer sozinho, navegando com minha bússola na mão.