A pureza heterossexual dos homens é uma farsa

E até me dá vergonha de escrever algo tão óbvio

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A pura, genuína e intocável heterossexualidade masculina — o que tem de autêntica, tem de mentirosa. E de amedrontada. Eis o óbvio: é uma farsa amedrontada. Lanço a aposta: de dez homens héteros que jamais se permitiram, quiçá de brincadeira, beijar ou tocar um outro homem, quatro ou cinco, se se permitissem a tal, gostariam do resultado. Dois ou três, quem sabe, até se excitariam.

A questão não é que todos devam ter a experiência erótica com alguém do mesmo sexo. Não, não é isso. Mas a verdade é que esse código de ética masculino e heterossexual, que faz de tudo para preservar uma característica de pureza e castidade, é simplesmente uma falácia, é simplesmente um medo oculto. Daí concluo: não há nada mais totalitário que fingir ser um homem legitimamente heterossexual. Porque, para ser um cara heterossexual, segundo os ditames, é se manter virgem de qualquer tipo de experimento que envolva corpo e libido com alguém do mesmo sexo. Caso contrário, sua pudica masculinidade foi manchada e você, agora, automaticamente se tornou gay.

Reprisando a mensagem: no que concerne às experiências homossexuais, há, nos homens heterossexuais, a preservação de uma pureza fantasiosa, uma castidade à la Igreja Católica nos tempos medievais; a conservação de um código de orientação totalitário por excelência.

Toda essa macheza, toda essa virilidade, são mais frágeis que uma bolha de sabão. E, dentro das bolhas, nós, homens, desesperados, fingimos crer que o que nos circunda é feito de titânio. Lá no fundo, bem no fundo, porém, sabemos que, a qualquer toque, a bolha se desfaz. O melhor a se fazer, então, é se isolar de qualquer contato. Mantenha distância, saia de perto, não toque! E assim seguimos, entupindo nossos inconscientes, e forçando o fechamento da tampa, com verdades — ou apenas possibilidades — que nos são inadmissíveis.

Um vestiário lotado de machos nus é o antro da inibição. É um bando de homens pelados, e isso já é muita coisa, porém não se engane: o pudor e a proibição redobram e se escodem por detrás da postura. A postura? Militar — não abaixe a cabeça; não incline o corpo; mantenha uma distância segura. E não precisa ser um vestiário cheio de caras sem roupas. Basta um banheiro público, com um mictório colado no outro, e as regras serão as mesmas.


Dia desses, perguntei para uma amiga se ela já tinha beijado alguma mulher. Me respondeu de bate-pronto: “Já, lógico. Várias. Mas sempre de brincadeira: prefiro homens”. E, sobre a segunda declaração, eu sabia bem; pois é um tipo de garota que não cansa de admitir a atração que sente por homens, do quanto gosta de uma rola.

Não foi a única que recebeu a minha pergunta. Não foi a primeira nem será a última a me admitir beijos lésbicos, aos montes. Aliás, das minhas amigas héteros, diria que a maioria já se aventurou em investidas homossexuais. Quase sempre de brincadeira. Aventura. Curiosidade. Também por atração, por que não? Engraçado é que em nenhuma delas eu pude ver qualquer sinal de remorso ou vergonha pelo que fizeram. Há, pelo contrário, o sentimento de que é a coisa mais normal do mundo. E talvez seja. Mas, por enquanto, aos heterossexuais, isso é comum apenas para boa parte das mulheres, que, muito diferentes dos homens, enxergam pouquíssimas, ou quase nenhuma barreira ou linha divisória clara que separa uma orientação sexual da outra.

E aí está uma virtude, uma vantagem, ou sei lá exatamente o quê: a segurança feminina em conseguir se relacionar com quem bem entender sem que isso abale a certeza da própria orientação sexual é de dar inveja a qualquer macho mal esclarecido que um dia teve uma natural vontade de beijar outro homem e, por puro medo, insegurança, reprimiu esse desejo.

Logo, para elas, a liberdade é maior: sem qualquer tipo de drama ou crise, podem desbravar o oceano de possibilidades e, ao fim, voltar aos seus supostos lugares de origem, sem abalos, sem suspeitas — mas apenas com novas experiências que serão apenas boas, mais ou menos ou ruins. Enquanto o sexo oposto, feito um cão raivoso e traumatizado, late e rosna ao primeiro sinal de aproximação de gente estranha em sua garagem, protegida por um portão trancado com corrente e cadeado, e que estampa a placa “Cuidado! Cão bravo”.

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No ano passado eu beijei dois homens. (Pelo risco de causar graves decepções e cismas, espero que a minha mãe, outros parentes e alguns amigos heteronormativos não me leiam agora, pois todos estes ainda me veem como o homem hétero que ainda creio ser. Porém, depois dessa admissão, eles não entenderiam isso, mal absorveriam toda a argumentação dos parágrafos acima, e me falta paciência — melhor: ímpeto e contundência — para explicar ainda mais.)

Beijei dois homens e o primeiro foi um amigo meu. Bastante próximo, íntimo, daqueles que a gente não cansa de dizer que é para o resto da vida. O beijo me lembrou a perda do meu BV, precocemente aos oito anos, creio que com uma garota um ano mais velha — nós dois escondidos no quartinho de ferramentas do caseiro de uma colônia de férias. Enfim, o beijo que dei no meu amigo foi um beijo tosco, agressivo — agressivo por ser tímido e inseguro — e eu não gostei da experiência; e creio que ele também não.

Já a segunda e última experiência até então foi bastante diferente. Quase épica, literalmente teatral: no meio da epopeia orgástica de As Bacantes, de Eurípides, adaptada por quem melhor poderia fazer isso neste país: nosso mestre grego-tupiniquim-xamânico-imortal Zé Celso, lá no mágico e inquebrantável Teatro Oficina.

Elenco e plateia se confundem nas mais de seis horas de peça e, no clima festivo, entusiasmado, divinamente embriagado, emanando ares de doce eternidade para os que ali estavam, me acontece a coroação, o presente: um dos atores, um homem grande, robusto e alegre, me tasca na boca um beijo. Nada mais delicado, meloso, agradável que aquele beijo. Fiquei sem reação, talvez um sorriso abobalhado estampado na cara. Me senti seduzido e, depois mais calmo, sóbrio e reflexivo, tive para mim: foi tão bom quanto tantos outros beijos que já dei em garotas e mulheres. Beijei o homem e me lembrei dos beijos femininos. Porque o beijo daquele ator tinha, afinal, algo daquilo que eu já provei em muitas meninas.

E veja você: eu continuo o mesmo. Irremediavelmente apaixonado por mulheres. Sinceramente atraído pelo sexo oposto. Que eu seja, então, o que chamam de hétero afrouxado dos padrões? Pode ser. O importante é não perder a calma e a segurança. O mais importante é não se reprimir. (E espero que o texto não tenha causado a impressão de que só se prova verdadeiramente hétero aquele que permite se relacionar, alguma vez na vida, com alguém do mesmo sexo, pois não é isso.)

O pingo no último “i”: saber que gosto de mulher não significa quase nada exceto o fato de saber que gosto. Bradar e cuspir ao mundo o quanto eu sou hétero não me faz mais homem, assim como me relacionar com pessoas do mesmo sexo não me faz menos hétero. E, caso faça, já pouco me importa.