A quê você pertence?

Tenho pensado bastante sobre pertencimento, sobre deixar-se pertencer — ou não — a algo ou a alguém.

Crédito: Araquém Alcântara (Pinterest).

Tenho pensado bastante sobre pertencimento, sobre deixar-se pertencer — ou não — a algo ou a alguém. Até tais pensamentos me acometerem a mente, sempre tive uma ideia positiva sobre entregar-se de todo a uma coisa que mereça nosso eu inteiro e assim ser uma das peças que faz o maquinário rodar.

Pertencer-se, entregar-se a tal ponto que você deixa de ser unidade para tornar-se todo.

Como sempre enxerguei o termo como algo positivo, naturalmente me deixara pertencer. Constantemente me aborreço e me questiono. Existe algo tão forte que mereça nossa individualidade? Existe um sentimento tão profundo que exija como moeda de troca nossa liberdade? Vale a pena abandonar o eu para tornar-se todo?

Desde novo me orgulhei de entregar-me de corpo e alma a tudo que faço, de ter uma vontade insaciável de viver intensamente cada coisa até o ponto em que ela perca o encanto. Uma necessidade voraz de encontrar coisas novas que me preencham completamente e me façam seguir alimentando sonhos e expectativas. Por esse motivo concordo com aqueles que já me julgaram interesseiros — é exatamente assim que sou! Só consigo ser interesseiro e me afasto rapidamente quando já não tenho mais interesse. Foi assim quando iniciei na faculdade. Recordo-me claramente dos pensamentos que passavam em minha cabeça e que movimentavam sensações que me invadiam o peito, antes mesmo de mudar de cidade ou se quer fazer a matrícula. Pensava no lugar onde iria morar, em todas as pessoas que conheceria e que se tornariam amigos de longa data, as experiências, festas e aventuras que me meteria, as aulas as quais frequentaria com entusiasmo. Eu já estava entregue antes de começar, eu já pertencia àquela realidade antes mesmo de estar.

Depois, ainda antes de me formar, comecei uma caçada intensa de Norte a Sul do país — ou melhor, do Acre ao Rio Grande do Sul — em busca de um trabalho ideal, aquele ao qual me dedicaria para o resto da vida e que tomaria conta de mim a tal ponto que me tornaria a mais dedicada das engrenagens. Como um filho ingrato fui me despedindo, em meio a lágrimas e frustrações, de pessoas e lugares que me proporcionaram experiências únicas.

Com relacionamentos também foi assim. As poucas pessoas com quem me envolvi seriamente me envolvi tão seriamente e com tamanha vontade de conhecê-las e com tamanho comprometimento que acabei me comprometendo comigo mesmo. Logo estava sufocado, tão asfixiado que já não saiam palavras e então fugi apressado. Eu já havia me perdido de mim e isso era inaceitável.

No entanto, como um bom brasileiro não desisti e passei a crer que eu não pertencia a alguém, a algo ou a determinado ofício, e sim a um lugar. Existiria o lugar perfeito onde, independentemente das companhias, dos trabalhos e das distâncias eu me sentiria o cidadão mais ativo.

É injusta a natureza ao colocar em nós características tão conflitantes, como a liberdade e o pertencimento, e exigir que cada um por conta própria encontre seu equilíbrio. Hoje estou convicto de que vim ao mundo com as duas sementes: a da liberdade e a do pertencimento. E talvez por esse motivo me pareça tão estranho quando recentemente descobriram esse último e passaram a utilizá-lo como estratégia empresarial. “Você precisa trabalhar mais o seu sentimento de pertencimento com a empresa”, ouvi certa vez. E “o pertencimento gera mais motivação nos empregados”. Porém, ninguém disse: “ei, você precisa pertencer menos”, ou “pare de pertencer tanto a algo que não irá lhe satisfazer por completo”.

Ando colocando minhas forças no não-pertencimento e isso não quer dizer que viva os momentos com menos intensidade. Quero dizer que, antes que já esteja atolado até o pescoço, vou me segurando nas bordas para encontrar a saída. E de novo caio em outro lamaçal e passo a admirar a paisagem, as raízes aéreas, os caranguejos e jacarés que se aproximam e os colhereiros que pousam nos arbustos verdes-vivo da vegetação minutos antes do sol se pôr. E então percebo que a lama já chegou até o peito e me agarro nas raízes aéreas que ainda enxergo e forço o tronco para fora, de uma só vez. Chacoalho a roupa molhada e sigo mato adentro.

Assim é a caminhada daqueles que pertencem ao mangue, mas sempre buscam à luz.