A Regra do Jogo não era para ser uma novela

E se fosse série, precisaria começar do zero

Foram mais de 160 capítulos sem escrever uma linha neste espaço sobre A Regra do Jogo. Dois motivos: tempo, este elemento precioso; e, não menos importante, o que a trama poderia acrescentar a este panteão louco da televisão aberta e teledramaturgia brasileiras.

Em um dos últimos textos publicados aqui, com o fim de Os Dez Mandamentos/Record(leia AQUI), afirmei:

Uma explicação — que pretendo desmembrar em um próximo texto — é que telespectadores (e críticos de TV) foram iludidos por Avenida Brasil. Acreditando que o telespectador queria tramas “realistas”, com visual, histórias e ritmo “próximos ao de seriados”, os exemplos de Babilônia e A Regra do Jogo são mostras de que tudo isso é uma grande balela.

Com o fim próximo de A Regra do Jogo, a afirmação acima se mostra, ao menos, coerente.

A trama de João Emanuel Carneiro/JEC, a despeito do crescimento de audiência em sua reta final, não cativou a massa — e apenas recapturou um público que não tem opção melhor no horário. Àqueles que acompanharam, foi um deleite — sobretudo nos últimos capítulos pelas coincidências com o atual cenário brasileiro. Tony Goes, do F5, explica:

Mas, ainda assim, a mistura de referências de A Regra do Jogo resultou em um produto tal qual o dúbio mote da trama: amor e ódio; ora adorável, ora detestável.

Um jogo de xadrez bem proposto, é verdade: a bandidagem no seio de qualquer organização social. Da favela, às empresas, passando pela política e pela polícia. Uma crítica oportuna, e capitaneada por aquele que talvez seja o mais politicamente combativo ator do país: José de Abreu (um petista) soltou seus demônios em Gibson (o conservador personagem que usa uma facção criminosa para “libertar” o Brasil), e foi alucinante acompanhar suas ações — alucinante em relação às pirotecnias do roteiro de JEC e às falhas de uma facção muitas vezes capenga. Foi, de longe, o que segurou a novela e enterrou qualquer tentativa de fazer brilhar outro núcleo — estes, muito por deslizes e repetições.

Elementos recorrentes de JEC apareceram em massa na trama: dúvidas acerca das personalidades (A Favorita), vingança (Avenida Brasil), violência doméstica (A Favorita), família suburbana-cômica (Avenida Brasil, Da Cor do Pecado), troca de casais (Avenida Brasil), vilã loira (todas, e pode incluir aí os platinados cabelos brancos de Gibson), Cauã Reymond (quase todas). A mistura de referências resultou em uma novela com bom tempo de vídeo e arte desperdiçados, onde uma trama principal mais evoluída fez sucumbir praticamente todos os outros núcleos. Maurício Stycer, no Uol, com dois meses de novela, já indicou:

Outro elemento de JEC é a velocidade das tramas. O recurso usado em Avenida Brasil e, em menor grau (devido às limitações técnicas da época) em A Favorita, entrega uma trama rápida, com várias reviravoltas e ganchos. Chegamos ao ponto crucial: a ilusão criada por Avenida Brasil.

À época de #oioiois e Carminha, o Brasil ficou abismado. Afinal, o que era aquela novela com ares de seriado, a fotografia trabalhada, o ritmo ágil, a tensão? Em meio a isso, gritos e gritos de uma histérica e cativante Adriana Esteves, uma novela que nada deve aos dramalhões mexicanos, mas devidamente atualizados para aquilo que foi concebido como um novo jeito de fazer novelas: novela com jeito de série.

Chegamos à atual novela das 21h com a prova de que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.


JEC é mestre, e isso não resta dúvida. Em apenas 5 novelas e uma minissérie (a excelente A Cura) e vários roteiros de cinema, Carneiro nos brindou com um jeito peculiar de conduzir as tramas, ora apelando aos cânones do folhetim (o recheio de núcleos cômicos), ora subvertendo-o (personagens dúbios). No entanto, suas referências parecem ter se esgotado em A Regra do Jogo e faz ruir a ideia de que novela pode emular uma série — ainda que quase todos aqueles que analisam TV apostem nessa que, agora, mostrou-se uma furada.

A trama apostou em uma história pesada, escura, policial, uma emulação da realidade. Mas não poderia deixar de lado outros itens básicos de uma novela, como núcleos cômicos e outros apêndices. A história principal — a facção — tentou pegar carona no ritmo seriado, e escorregou feio em algumas ações cambaleantes, policiais burros, líderes que caem em armadilhas fáceis, entre outros. O público, cansado de uma realidade tão alucinante quanto a ficção, debandou-se para os lisérgicos efeitos especiais de Os Dez Mandamentos, em um primeiro momento e, depois, entregou-se à trama pois ali havia uma história sensacional (ainda que cheia de incoerências) e por pura falta de opção.

Para novela, não serviu. Se transformado em seriado, seria trágico. A trama policial de A Regra do Jogo, apesar de intensa e com atuações memoráveis, pecou nos furos (mortos sem investigação, por exemplo), e afastaram tanto o telespectador comum já cansado de violência urbano-política na vida real; e aquele mais antenado acostumado a séries policiais, por exemplo.

Erro feio, erro rude.

P.S.: O fato de nomear os capítulos, ao contrário do que notícias querem enfiar goela abaixo (nomes remetem às séries), é o de menos. Livros, romances, folhetins, tem capítulos nomeados. Foi apenas um recurso diferente — expandido pela mídia — e é tão velho quanto o próprio o gênero. Só não era usado. E, para piorar, chegamos à alcunha reducionista e simplória de “Novelérie ou Serinovela”:


O recurso cinematográfico em novelas começou em A Favorita — em um 2008 já próximo da introdução da TV digital no Brasil — e, daí em diante, a Globo nos ofereceu experiências folhetinescas dos já conhecidos Glória Perez, Manoel Carlos, Aguinaldo Silva, Walcyr Carrasco e Gilberto Braga. A trama de Flora e Donatela certamente está no panteão da TV ao subverter o jogo protagonista/antagonista, artifício inusual e que, no início, afugentou o telespectador. Depois, só Beijinho Doce e elogios rasgados àquele novo autor.

Em 2012, Avenida Brasil abalou definitivamente as estruturas, iludindo-nos a respeito de um novo jeito de fazer novelas “com cara de série”. A técnica “apurada” se espalhou pela programação novelística da emissora em outros horários: Além do Horizonte (2013) e Geração Brasil (2014), ambas das 19h, foram boas experiências, mas deram as mostras iniciais de que novela é uma coisa, série é outra. E que as duas acima deveriam ser séries, afim de reconquistar um público — jovem — perdido para streamings, downloads e TV paga. Essas duas novelas (um Lost tupiniquim e um Vale do Silício brasuca, respectivamente) não seriam, mesmo, bem sucedidas no formato telenovela.

Às 21h, Amor à Vida (Walcyr Carrasco, 2013) começou arrasadora, e terminou marcada apenas pelo beijo dos personagens de Mateus Solano e Thiago Fragoso e pelos exageros do autor. Em Família (Manoel Carlos, 2014), nada mudou: lá estavam a Helena e o suposto naturalismo do autor. Império (Aguinaldo Silva, 2014) e Babilônia (Gilberto Braga, 2015), inauguraram a tríade das “novelas que retratam a realidade”, além da derrocada do horário até então mais nobre da TV aberta brasileira. O panteão desmoronou e o Mar Vermelho abriu-se.

O telespectador não quer tramas realistas. Nunca quis. O Brasil — eu, os críticos de TV, você que chegou até aqui certamente por gostar dessa aventura insana que é a TV aberta brasileira — fomos enganados e iludidos por uma “avenida”. Império até flertou com o fantástico, Babilônia esqueceu que o país é um antro de reacionarismo barato, e A Regra do Jogo foi engolida por um mar que bebeu da mais pura fonte da teledramaturgia (e não falo aqui somente da bíblia, esse livro fantástico e repleto de aventuras).

O público de telenovela é à moda antiga, e sempre será. Quem já saiu desse balaio, vê por mera curiosidade. Uma trama policial bem costurada, mas cheia de furos, não foi capaz de atrair o espectador mais atento e afugentou o mais inocente. O sucesso de Os Dez Mandamentos — que logo logo chega com sua segunda parte (recuso-me a falar temporada para um produto essencialmente folhetinesco) — se dá por sua simplicidade e histórias que estão no âmago do ser humano ocidental desde que o mundo é mundo (apesar de este discordar de muitas coisas e sequer acreditar no livro sagrado, com todo respeito). Uma novela, por sua extensão, não pede as complexidades que A Regra do Jogo — por ser uma trama policial — exige. Mas, é uma novela, lembremos sempre.

Disse JEC, em entrevista à Folha, antes da estreia:

“As minhas novelas têm a volta para uma estrutura de narrativa mais antiga, mas com personagens contraditórios. Inovar não tem que ser uma preocupação.”

E olha que é uma trama policial um tanto capenga: mortes não esclarecidas, algumas barrigas e situações repetidas, fugas e vindas inexplicáveis, policiais com alto grau de burrice (Dante/Marco Pigossi, que segurou a onda de ser um personagem tapado), facção mambembe em alguns momentos… Um bêbado (Ascânio, um personagem irretocável de Tonico Pereira) descobriu a fugitiva Atena (Giovanna Antonelli, de uma deliciosa risada e catalisadora de qualquer humor proposto na novela) e um morto vivo (Romero, de um Alexandre Nero louco) antes da polícia — e do tapado policial nos derradeiros capítulos.

Um gângster à brasileira carinhosamente chamado de Pai foi uma grata surpresa. O personagem de José de Abreu caiu como uma luva. Abreu deitou e rolou, e o personagem é uma crítica evidente — e saborosa — ao alto empresariado (e políticos, e poderosos, e por aí vai) e um deboche dedicado especialmente ao ator. Zé de Abreu e João Emanuel Carneiro não poderiam ter criado algo melhor.

Mesma situação (com exceção da posição política na vida real) de Romero Rômulo, um esquerdista — que lia Marx, tinha retrato de Che Guevara, usou camisetas motivacionais e “defendia” presos — se mostrou o mais canalha. Romero foi um personagem tenso e com muitas nuances (diante de uma doença pouco explorada, mas aceitável), porém pouco cativante — ao contrário da comparsa Atena. RR não encampou o proposto antiherói: um personagem errático, mas com justificativa coerente para suas ações — e que podem fazer o telespectador vibrar com cada passo, ainda que este seja um passo cruel ou criminoso. Serviu apenas para enganar o telespectador, tornando-se louco, sádico, sob o capuz do amor sentido por Toia (Vanessa Giácomo). No entanto, suas ações não despertaram sentimento de “preciso torcer pra esse cara, mesmo que ele faça merda!”.

Já Atena, ora caricata, ora sensual, ora debochada, ora romântica, capitalizou esse sentimento. A paixão por Romero sempre foi verdadeira, ainda que para isso ela recorresse a métodos criminosos. Ainda que bandida, Atena sofre por amor. Ainda que romântica, Atena não hesita em tripudiar e enganar. E, ainda assim, foi o casal (essas alcunhas que juntam nomes são imbecis) que mais mobilizou e movimentou a trama — ao contrário dos insossos Toia e Juliano (Cauã Reymond conseguiu unir Jorginho de Avenida Brasil e o vingativo André da problemática série O Caçador) e dos momentâneos casais formados por Toia/Romero e Juliano/Belisa (Bruna Linzmeyer). Até Dante e Lara (Carolina Dieckmann, em breve, mas encantadora participação) tiveram mais química que Toia e Juliano (digo que até Atena e Ascânio foram mais empolgantes, mas pode incorrer exagero…).

Já Tony Ramos, de talento habitual, mostrou que ser um profissional de apenas um tipo caiu no esquecimento. O início da trama até fez lembrar um tipo incomum na carreira do ator: Clementino, de Torre de Babel. No entanto, um personagem cheio de nuances como Zé Maria não tinha como ser simplório. É mais um entre tantos outros grandes trabalhos do ator, que encontrou no texto e na história de João Emanuel Carneiro uma união certeira.

Mas, voltando: A Regra do Jogo é, quer queira, quer não, uma novela. Seus problemas foram contornados pelo texto de JEC e pela direção de Amora Mautner.

Aliás, Mautner — da tão falada “caixa-cênica” — mostrou-se seguríssima de um trabalho técnico avançado. Os atores realmente apareceram mais livres em cena, ainda que precisasse de atenção para perceber as câmeras escondidas. A caixa-cênica, com cenários construídos de maneira mais realista e disposição de câmeras que permitem movimentos naturais dos atores deram outra dinâmica ao produto, e certamente contribuiu para o apuro técnico que queria ser — e foi — alcançado. Na tela, as cores remetem ao último trabalho da diretora (Joia Raia, às 18h), uma paleta de cores mais amarela, contrastante. Aliás, Joia Rara também trouxe um mesmo José de Abreu sádico (o vilão Ernest Hauser) e uma mesma Carolina Dieckmann sofredora (Iolanda) e um mesmo Marcos Caruso cômico (o Feliciano de A Regra do Jogo, apesar de todo talento, estava em um núcleo que tentou emular traços de Avenida Brasil; Caruso também tinha o mesmo tom em Joia Rara, com Arlindo).

Falando em direção, abro um parênteses e lanço uma pergunta: A Regra do Jogo vai terminar tecnicamente quase perfeita, mas sem nenhuma cena tecnicamente memorável?

Não temos aqui a encenação de Flora ensanguentada/fantasmagórica para matar Gonçalo (Mauro Mendonça) em A Favorita. Não temos aqui Nina (Débora Falabella) enterrada viva em Avenida Brasil.

Talvez, em A Regra do Jogo, a única cena memorável é em um flashback: o impecável Tony Ramos no massacre de Seropédica. De resto, nada marcante. Ou será que a direção de Amora Mautner e sua caixa cênica foi tão boa, regular e linear, que estes momentos ficaram para o texto preciso (e precioso) de JEC e e atuações de Cássia Kis Magro (Djanira), Tony Ramos, Alexandre Nero, Susana Vieira (até ela!), Giovanna Antonelli, Renata Sorrah, Deborah Evelyn, Tonico Pereira e José de Abreu? Ou a dinâmica da trama não se permitiu esse tipo de momento? Resta esperar pela derradeira semana.

P.S.: É curiosa a obsessão de JEC por portas, entradas, janelas e frestas. Desde A Favorita, o recurso de imagem é usado. Em A Regra do Jogo, ficou mais evidente nas cenas em que personagens eram presos ou soltos. Por instantes achei que a cena era um cinemascope, já que o enquadramento enganava:


Em A Regra do Jogo, são 50 minutos, em média, de arte. Arte esta que poderia ser reduzida a 30. Os núcleos cômicos — o “recheio”, como o próprio autor diz na bíblia dos autores (o livro Autores — Histórias da Teledramaturgia/Editora Globo) não funcionaram devido à força da trama policial principal. Esta, por sua vez, garantiu momentos de tensão e aflição. Aflição ora pelo grau de convencimento, ora pelo grau de descrença. Esqueci, de novo: A Regra do Jogo é uma novela.

Acompanhei, provavelmente 90% da trama pela internet, com maratonas de até 10 capítulos por dia. O recheio cômico, graças à tecnologia, foi devorado pelo avanço na linha do tempo. Não fez falta, ainda que em alguns momentos retrocedi à cobertura dos Stwart ou ao Morro da Macaca para ver o talento de figurões como Marcos Caruso (Feliciano) ou Susana Vieira (ela mesma, ou Adisabeba, como é conhecida). O núcleo da cobertura foi uma tentativa frustrada de emular a mansão da família Tufão ou o bairro do Divino de Avenida Brasil.

Já no núcleo cômico do Morro da Macaca — este, sim, dispensável — a situação era pior. Pouco riso, troca de casais… Ainda no Morro, as dançarinas Ninfa (Roberta Rodrigues) e Alisson (Letícia Lima; diretamente da Porta dos Fundos, assim como Júlia Rabello/Úrsula na cobertura) arrancaram situações divertidas no início, mas aconteceu o esperado: a trama inteira em confusões para conquistar MC Merlô (um Juliano Cazarré menos infantilóide, mas ainda imbecil, que o Adauto “Chupetinha” de… Um doce para quem adivinhar de qual trama anterior).

Enfim, é o recheio. E ele pode ser um saboroso hambúrguer ou um industrializado recheio de bolacha. Este último, caso de todos os núcleos cômicos da novela.

O recheio também teve drama: o retorno da violência doméstica, já visto em A Favorita. Domingas (Maeve Jenkings) sofreu nas mãos de Juca (Oswaldo Mil), mas o tema poderia ser mais explorado — além de ser um reboot do mesmo tema abordado em A Favorita. A subtrama tinha potencial, mas não foi muito além. Foi o tipo do recheio que a embalagem mostra uma coisa, mas a realidade é outra.


Na derradeira semana, A Regra do Jogo está — como toda trama — revelando segredos. Uns, já conhecidos do público e desconhecidos de alguns personagens; outros, ainda um mistério: o fim dos personagens que estavam na tela por 167 capítulos — a menor quantidade de capítulos de uma novela de João Emanuel Carneiro. Sinal dos tempos? Sinal de que o público cansou de tramas pseudo-realistas? Sinal de que uma boa novela precisa de menos capítulos?

No mais, um final digno seria Romero Rômulo, doente, em uma cama de hospital. Vivo? Morto? Ninguém sabe. O personagem que JEC criou com afã mitológico precisa de um final que fuja do “fim” tradicional. O público deveria se acostumar com novelas sem final. Mas, esqueci de novo: é uma novela.

O melhor do jogo proposto por João Emanuel Carneiro foi confundir o telespectador a respeito do que é real e ficção. Esperto, soube aproveitar o farto material que a realidade produz (cada vez mais ilógica) para apresentar um produto de forte crítica política e social.

Usar um ator militante de esquerda para um personagem completamente oposto é uma crítica à miséria que permeia a política e o alto escalão e, usando a dúvida que permeou A Regra do Jogo, tanto pode servir como crítica ao partido no poder (o caminho mais óbvio por usar Abreu) como ataque sutil a outros poderosos inalcançáveis. A crítica pôde ser vista tanto no amplo quanto no detalhe: o bigode de Gibson que remete a Hitler, o uso de vermelho por personagens de caráter duvidoso, o discurso reacionário de um empresário (e bandido), a favela idealizada (com poucos negros, uma afronta ao bom senso), e muitos outros.

A Regra do Jogo foi, acima de tudo (e talvez um mero devaneio deste que vos escreve), uma trama de duelos familiares entre pais e filhos. Zé Maria e Juliano. Gibson e Kiki/Nelita. Ascânio e Romero. Djanira e Romero. Dante e Romero. Adisabeba e Merlô. Feliciano e todos os seus. Um detalhe curioso é que apenas Toia, apesar de alguns poucos embates com Djanira no início da trama, e Atena, não tiveram esse tipo de conflito: uma apoiou-se na outra.

Que fique registrado, até o momento em que esse texto é concluído, que a cena de Gibson emulando Hitler perante seus comandados, foi o ápice da crítica que Carneiro sempre buscou. Novamente, não uma cena marcada pelo rigor técnico, mas sim pelo rigor textual. Um discurso exemplar de um desesperado frente à derrocada iminente. (Uma pena que tenha usado a mesma trilha incidental de suspense também presente em Avenida Brasil).

E, certamente, fez o telespectador — do mais astuto ao mais inocente — pensar: “e se for assim mesmo?”


Não se enganem: A Regra do Jogo é o fim de um ciclo de ilusão — nos outros horários, terminou faz tempo. Prepare-se para uma TV aberta aos moldes tradicionais: vem aí Velho Chico, o seu novo romance das nove. Vem aí Os Dez Mandamentos parte 2, a saga bíblica. Vem aí Liberdade, Liberdade, a história de Tiradentes. Vem aí Terra Prometida, a sequência bíblica tal qual os filmes e séries da Marvel. Abaixo, imperdível coluna do Maurício Stycer na Folha:

A TV aberta brasileira, com seu (ainda) principal produto, vai cheirar a naftalina nos próximos meses.

E quem disso que isso é necessariamente ruim?


P.S.: Para escrever essa análise, foi um desafio. Permaneci todo o período da novela sem ler os sempre precisos — e às vezes divertidos — textos de Maurício Stycer (UOL) e as análises firmes do Notícias da TV. Ao terminar esse texto, acessei todos os arquivos dos dois sites citados — muitos deles concordantes — , e acrescentei aqui aqueles que se encaixavam na análise deste mero escrevinhador. Obrigado a todos que — ufa! — chegaram até aqui!


Atualização em 11/03/2016, às 23:20: Com o capítulo final de A Regra do Jogo — “Juízo Final”, o primeiro nome da trama — , o produto escancarou os problemas que permearam toda a novela. Furos, inconsistências, revelações da morte de Gibson 3 anos depois (Kiki foi a assassina do assassino, um “quem matou?” fraco, já que era o vilão da história), um policial (Dante) que continuou sendo enganado pela própria família (vó — Nora; mãe — Kiki; tia — Nelita; estavam envolvidas na cena do crime), e mais alguns, fizeram de A Regra do Jogo uma eterna promessa. Não é exagero dizer que é a trama mais fraca de João Emanuel Carneiro. Uma pena.

No mais, A Regra do Jogo pode marcar o fim de um ciclo iniciado com Avenida Brasil: novelas com cara de série. Fomos enganados e iludidos — eu, inclusive — de que esse tipo de narrativa seriada (ou conteúdo; uma história policial) poderia recuperar um público perdido. Ledo engano.

É um desafio saber o que o público quer. A conjunção crise brasileira e trama pesada não deu certo, ainda que A Regra do Jogo tivesse lá algumas qualidades.

Se antes questionei a falta de uma cena memorável, esta, pelo menos, chegou no derradeiro Juízo Final: a morte de Romero (ao som de Elvis, ponto alto da cena), Zé Maria e o capanga da facção foi uma clara referência ao clássico Cães de Aluguel, do diretor Quentin Tarantino. Não causa surpresa, já que é uma novela que sugou várias referências das obras anteriores de João Emanuel Carneiro e a direção de Amora Mautner — sem falar da cena de Gibson emulando Hitler.

A Regra do Jogo foi emulação pura. JEC esgotou-se, talvez. Seria ótimo se o autor voltasse em produtos menores — como a minissérie A Cura — e apresentasse um produto mais refinado. Como Nilson Xavier comentou, A Regra do Jogo poderia ser uma novela curta ou série (e antes disso, precisaria começar do zero, pois uma trama policial capenga não sustenta uma série decente):

A cena final brindou aqueles que carregaram boa parte da trama nas costas: Atena (Giovanna Antonelli) e Ascânio (Tonico Pereira). Ela tornou-se uma golpista (italiana) que contribuiu para o hospital que Toia (Vanessa Giácomo) abriu no Morro da Macaca (mais uma incongruência). Ele, o fiel escudeiro. Ela, com o filho de Romero. Fim.

Um final interessante, já que repetiu cena com Romero quando vivo. No frame final, tela branca — o oposto do início dos capítulos, preto.

A mensagem foi passada: os personagens não eram bons ou maus, Atena tem lá seu resquício de amor, ainda que golpista — e mamãe.

Repito: uma pena que A Regra do Jogo não vingou. Ou melhor: uma pena que não foi apresentada como deveria. É mais um exemplo de história que seria melhor aproveitada em produto curto. Porém, é uma esperança: é o fim de um ciclo de novelas que tentam emular séries. Isso não existe. Jamais existiu.

Continuemos com os devaneios comuns às novelas. Até quando suportarem.