A sacralização das pessoas que moram longe

Pessoas legais moram longe, você fez parte dessa comunidade no Orkut?

Uma foto ilustrativa e uma manifestação de LUTO pelas comunidades do Orkut que não existem mais

Por mais que você tenha notícias, gostar muito de alguém que deixa de fazer parte do seu espaço-rotina, ou um pessoa cujos momentos vividos foram intensos, implica em imaginar como ela está.

Traumas à parte, parece que, ainda bem, estamos programados a nos lembrarmos mais dos momentos bons do que qualquer outra coisa. Quanto mais o tempo passa, mais a nossa memória vai se transformando em um feed do Instagram. Tudo lindo, colorido e unicornizado.

O tempo vai se alargando à medida em que saudade e nostalgia se confundem, adicione uma pincelada de carência. O pano de fundo? Todas a lembranças incríveis e a dificuldade de estar com essa pessoa quando você bem entender. Surge então uma nova santíssima trindade em sua vida: as pessoas que moram longe.

O tempo delas para você foi congelado. Com quem você quer estar se confunde com o momento em que você gostaria de estar. E a magia de viajar no tempo é atribuída à sua senhora santimônia saudade.

Uma devoção aos seres que já não estão perto de você é uma promessa de viajar no tempo. Um milagre realizado por um ser humano.

A jornada é intensa. De fato, reencontrar o ser em questão é uma possibilidade de reviver a infância, os tempos de faculdade, as noites de paixão. A varinha de condão pode estar no toque, no sabor, no abraço.

Pode acontecer, acredite. Por alguns segundos você vai sentir que voltou no tempo e nem vai perceber que a vida também passou nesse outro território. Porque aquela história de que quando a pessoa fica longe nada muda no lugar de antes não é bem verdade, apesar de parecer.

A real é que essa sacralização tem mais caráter de droga da forte do que milagre santo. Se por alguns segundos você conseguiu voltar no tempo e se reencontrar com os sentimentos que tanto almejou na dimensão da distância, o barato dos próximos instantes será cortado pela potente anti-droga da realidade.

As coisas mudaram, sim. Só na sua cabeça que não. Você se lembra de como essa árvore era pequeninha? Sua mãe já reparou nos seus fios de cabelo branco?

Eu disse coisas, não sentimentos. E aí voltamos para o imaculado. Aquela velha conhecida história da idealização de quem mora longe é a superfície. É claro que a gente idealiza. Somos de carne osso, só que movidos por ideias.

O responsável pela sacralização das pessoas que moram longe são mais os sentimentos que elas nos proporcionam. Mais do que o fenômeno da viagem no tempo, é a dádiva do acalanto com a força do pensamento.

Pessoas legais moram longe, se intitulava a comunidade do Orkut. Parecem mais amáveis porque nem sabem quando têm o dom de tirar a gente do espaço e do momento de agora para nos levar a outros tempos. O passado que aconteceu, o futuro que é imaginado.

Canonizemos todos os que esteja onde estiverem e têm o vigor de nos fazer sentir bem pela simples, e só ela, bela, lembrança. É sempre sobre amor, talvez, com dor. E se as pessoas que moram longe conseguem nos fazer sentir assim, também é sobre ser grato por ter tido a sorte de cruzar o caminho delas.

Enalteçamos os que moram longe. Desfrutemos com os que podemos olhar nos olhos e abraçar, agora.

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