Túlio Rivadávia
Sep 21, 2018 · 3 min read

Recentemente escrevi um breve parágrafo sobre “Viva — A Vida é uma festa”, uma animação sobre a memória dos nossos. O descrevi como um necessário filme que traz a importância da memória no tempo do instantâneo. À memória daqueles a qual temos laços sanguíneos e almáticos, àqueles que vierem antes de nós, aqueles que nos formam. Tocante e completamente necessário num tempo onde as fotografias perderam o dom de se amarelar pelo zelo da memória a ser preservada.

Hoje, neste dia, neste tempo, a memória não mais se amarela, diretamente se acinzenta. A tragédia com nosso Museu Nacional é muito além do descaso político com nosso patrimônio histórico material, é um reflexo do nosso próprio descaso com a durabilidade daquilo é memória, daquilo que nos forma. Há que se enxergar a tragédia como a grande tragédia humana do que David Harvey chama de pós modernidade.

Não mais nos importam os que vieram antes de nós. Perdemos nossos arquivos fotográficos que antes em álbuns ocupavam os armários da sala de casa, perdemos em um dispositivo móvel qualquer. A foto do aniversário de quatro anos atrás já não se sabe. Se o nosso já não nos importa, quanto mais um retrato qualquer da Família Imperial pintado à mão nas paredes de um museu. Família quem? Nomes qualquer perdidos em alguma aula de história oferecida pela nossa péssima educação.

O conceito de cultura é cunhado como identidade de um povo e identidade de um povo passa necessariamente por sua história. Em 06 horas de chamas perdemos grande parte de nossa identidade. Parte de uma identidade que foi-se sendo tirada, roubada e esquecida. Sem identidade não há processo de identificação nem qualquer noção de representatividade. Tanto é verdade que em pouco tempo seremos obrigados a escolher o menos pior e não aquele que nos representa de fato, como deveria ser de acordo com as regras do jogo.

Múmias não precisam ser representadas, múmias não votam, são silêncio de um passado distante demais. Tiveram sua cremação, seu momento simbólico de partida. Nem a personificação da morte resistiu à nossa indiferença. Os meteoritos não, ficaram ali, incólumes ao fogo do desprezo. Deram seu recado: somos de outro planeta, não pertencemos à isso. Nós sim, somos daqui, e se não estamos querendo nem saber de onde vimos, porém a mim preocupa-me muito para onde vamos.

Neste momento algum de nós certamente desembarcará em Paris, amanhã talvez o Louvre estará em suas redes sociais, afinal de contas a memória é um feed de notícias que meu dedo toca. Do mesmo modo que as galerias de arte moderna vem-se transformando em cenários interativos para fotos, ou seria o inverso? Vivemos o avesso, memória é somente o agora.

Adélia Prado escreveu que o que a memória ama fica eterno. Perdemos a capacidade de eternizar, criamos apenas dados, grandes arquivos virtuais sobre nós mesmos. No futuro não tão distante, talvez o ULTRA DATA sejam nossos museus com exposições constantes. Oxalá meus filhos que ainda não vieram possam se lembrar de mim!

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Túlio Rivadávia

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F.R.C. — Producer & Entertainment Business Specialist — Proprietário da Rivadávia Comunicação e Produtor Associado na Miniatura9 Produções. Buscador.

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