In My Life, dos Beatles e a grande pintura da vida

Continuando a série “A Trilha Sonora da Minha Vida”.

Vamos começar esse texto de um jeito diferente. Nem é sábio iniciar qualquer ato artístico com algo tão bonito, sob o risco de tudo que eu disser parecer pálido perto do que vou mostrar. Mas para que você consiga estar no mesmo estado mental que eu estou enquanto escrevo, vou te pedir um favor. Pare 2 minutinhos, coloque o fone de ouvido, e ouça esse áudio aqui embaixo. Depois disso, com os acordes ressoando em sua memória, a gente continua. Pronto? Lá vai:

Sean Connery declama. George Martin conduz a orquestra. É de matar.

Por volta de 1985 meus pais me colocaram numa aulinha de pintura. Eu tinha clara aptidão pro desenho, e estava claro para qualquer um que dali não sairia nenhum jogador de futebol. Ou de vôlei. Ou de basquete. Ou de qualquer coisa.

Do lado da minha professora, Dona Iredi, eu tive uma curta e explosiva entrada no mundo das artes. Pintei uma boa dúzia de quadros. A quase totalidade da minha produção era focada em paisagens. Cenas rurais, montanhas com neve, garças e praias. Eu adorava, e não fosse a imaturidade dos meus 13 anos, eu talvez pudesse ter seguido carreira.

Meus pais fizeram da nossa casa a minha galeria de arte particular. A tal ponto que em determinado momento não havia parede que comportasse mais quadros. E, então, à medida que quadros novos (e melhores) chegavam, os mais velhos iam para o sótão ou eram dados de presente, geralmente à alguém da família. Alguns desses quadros estão comigo até hoje. Outros eu vejo de vez em quando nas casas dos que os ganharam. É sempre um reencontro emocionante, ver as pinceladas vacilantes do Rodrigo moleque.

Mas em 1987 nossa família foi visitada pela tragédia. A linda casa, localizada no alto de um morro penoso de subir, ficou grande, sem brilho, e assombrada. Sem nenhuma vontade permanecer ali, nos mudamos para um apartamento no centro, bem menor. E de lá pra outra cidade, bem maior.

No meio da pressa e da falta de jeito, meus quadros ficaram no sótão.

Nunca soube quem comprou a casa. Nem que destino eles tiveram. Mas gosto de pensar que alguém os encontrou, os achou bonitos e mesmo sem saber quem era o artista, os colocou na parede. Afinal, ali estava, impresso em tintas a óleo, pedacinho do início da minha juventude. Do período mais feliz que todos nós temos.

Lembrar disso, e com os versos dos Beatles dançando em minha mente, eu fico pensando no quanto de nós deixamos para trás em cada interação que temos com outros no mundo.

Não digo das grandes relações. De nossa família, amigos próximos, dos nossos grandes amores. Nesses, a gente sabe (ou acha que sabe) o impacto que deixa.

Mas e daquelas pequenas participações? As amizades bobas, os colegas dos vários trabalhos, os namoros que nunca aconteceram, aqueles que poderiam ter sido mas não foram. Aqueles que foram e deixaram de ser. Aqueles que, como quadros que perdem suas paredes, deixamos para trás, querendo ou não.

Por algum motivo que me escapa, fui agraciado com uma memória de elefante. De forma que, de uma maneira estranha e fora de ordem, eu lembro de tudo. Pessoas e situações que para qualquer um são corriqueiras e efêmeras, para mim estão vivas e acontecendo novamente, num looping infinito, um fractal de tempo, um prisma que muda de cor conforme a luz dos momentos em que estou.

Eu rio de novo com momentos engraçados. Passo vergonhas solitárias relembrando as cagadas que fiz. Experimento o gosto do arrependimento de não ter feito várias coisas. Sinto novamente o orgulho dos acertos da minha vida. Algumas memórias trazem cores, outras vêm com cheiros, muitas com sensações.

De certa forma, eu revisito esse povo todo que vive dentro de mim. Os companheiros que na minha cabeça nunca envelheceram. As promessas de amor adolescente não correspondido que (oh, meu Deus) eu tive tantas. Os lugares onde estive, como se fossem fotos vivas, que carregam certos sons, certas luzes, certos aromas, que foram únicos e jamais se repetirão.

Se eu passar todas essas memórias num grande filtro, como aqueles de café em formato de funil, qual será o sabor do sumo que chega ao copo? O que fica parado do lado de cima do papel? Será que aquilo que eu sou é o resultado de toda essa gente somada, cada uma dando um pequeno ou grande esbarrão na minha alma e talvez, com um grande fiorde à beira do mar, esculpindo-a naquilo que ela é hoje?

A versão da Rita Lee, que é uma coisa linda.

Alguns papeis principais da nossa vida são escolhidos por nós. Nossos grandes amores, grandes amigos, grandes lugares. Outros já vem no pacote, como nossa família. Outros são coadjuvantes. Passam num trecho dessa peça e vão participar de outras produções, e das suas próprias.

Muitas vezes eu me pego pensando no tipo de memória ou sensação deixei para aqueles que nunca mais vi. Será que sobrou algo perene? Será que aquele camarada da quinta série que nunca mais vi vai ter um pequeno rasgo de memória ao ver um filme que comentei, ouvir uma piada que contei, ou numa frase que disse?

Será que meus ex-patrões vão encontrar um trabalho pela frente e pensarão “Tinha um rapaz aqui que faria isso direitinho”?

Será que meus (poucos, graças a Deus) desafetos já me perdoaram por qualquer coisa, ou ainda sentem raiva quando lembram de nossas brigas? Ou nem lembram mais?

Será que minhas paixonites juvenis, às quais eu dediquei tantos momentos de angústia, músicas melosas e poemas ruins rabiscados em folhas de caderno se lembram do moleque magrelo e desajeitado ficando vermelho cada vez que elas passavam? Será que carregam algum carinho da experiência? Será uma memória doce? Será que alguma delas me lê e nem sabe?

Para muitos, a metáfora definitiva da vida é uma estrada. Cada pessoa, lugar e situação que passamos é uma paragem. Por algumas, passamos rápido, olhamos de longe. Em outras, paramos, montamos acampamentos, construímos casas. Muitas estradas se cruzam. O fim da estrada ninguém sabe onde é.

Mas talvez essa não seja a melhor imagem. Acho que vida é um grande quadro, que a gente pinta até o fim dos nossos dias. Cada movimento da vida é uma pincelada. Cada gesto, cada olhar, cada aperto de mão, cada beijo, cada dia e cada noite, cada escolha, cada amor feito. Tem pinceladas longas e importantes, e existem as pequenas e breves, mas todas vão pro mesmo quadro. Uma regra apenas: não tem como apagar nenhuma.

Se esse quadro vai ficando bonito ou feio, alegre ou triste, a gente só vai saber no final. Mas é alentador saber que o pincel está nas nossas mãos. Se a gente não sabe quando e como cada pincelada vai ser, pelo menos cada um de nós vai escolhendo a paleta de cores que deixa na tela.

No fim de tudo, resta saber se essa tela vai ser algo digno de ser exibido nas paredes dos que vêm depois de nós, ou se vai ser esquecida nos sótãos deles. Tem quem não veja sentido na vida. Talvez esses sejam abstracionistas. Há os muito bem humorados, que farão grandes charges. Os depressivos entregarão paisagens soturnas. Eu acho que só o fato de poder pintar essa tela já faz de todos nós, grandes artistas.

Os donos da bola. In My Life pelos pais dela
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