A vaca sagrada dos evangélicos se chama SEXO

Um texto sobre o tabu sexual dos cristãos.

Toda cristandade pós primeira geração de discípulos encontraram trincheiras surpreendentemente fortes para dissertar e regulamentar a ética sexual cristã. Inegavelmente presenciamos grandes impulsos de aceitação cultural de boa parte dos evangélicos brasileiros na última década. Basta pensar na caricatura do “crente” da década de 90; raramente possuía televisão, não se envolvia em política, tinha divórcio como tabu absoluto e jamais cogitavam romper cartilhas de sistemas religiosos ditatoriais. Sensivelmente foi possível introduzir novos conceitos e assim surgiram as igrejas evangélicas com maior aclimatação cultural, porém com uma batalha intocável sobre a sexualidade de maneira geral.

O evangélico pós moderno é doutrinado com uma aceitação pacífica sobre muitos aspectos bíblicos no que tange a temas como dízimos e ofertas, porém não encontra a mesma acentuação cultural sobre o exercício pleno e livre da sua sexualidade, e se vê obrigado a seguir regras restritas sem variação cultural sobre o modo correto do exercício sadio da sua vida sexual.

Em linhas gerais encontra-se complacência infinita nos bastidores evangélicos sobre a corrupção praticada por pastores, abuso de menores, extorsão e todo circo midiático que cerca o meio neo-pentecostal no programa de TV mais perto de você, mas estranhamente não é com o mesmo ímpeto da acusação da união homossexual que estes assuntos são combatidos. A igreja não tem nada a dizer sobre as apropriações indevidas de dinheiro, mas em contrapartida detém uma cartilha extremamente alinhada de como utilizar corretamente as genitais — discurso ensaiado na ponta da língua pelos principais líderes evangélicos do Brasil, misturando virtudes, valores e uma boa dose da falsa moralidade denunciada por Jesus.

A exaltação exagerada da pureza sexual pregada pelos clérigos tupiniquins é no mínimo curiosa para não dizer vergonhosa. A posição adotada pelo movimento evangélico sequer é defendida ou clara em todo Novo Testamento, pois a Bíblia nunca se propôs a ser um código de conduta sexual nem sequer legislador de comportamento sexual, e mais grave ainda é encontrar a negação de Cristo na tratativa deste assunto, ao modo que preferiu desmascarar a hipocrisia e a canalhice religiosa do que regrar a conduta sexual e amorosa das pessoas. O que faria Jesus diante da Parada Gay? Absolutamente nada, pois era assim que ele tratava as coisas e isso era lindamente irritante aos olhos dos fariseus (os “evangélicos” de sua época).

Alguém poderá questionar sobre o caráter legislativo do Pentateuco e em especial sobre as impurezas sexuais denunciadas ao povo de Israel, porém se o Novo Testamento é o véu rasgado de cima abaixo com o sinal reluzente da substituição de valores — o juízo sobre a graça — podemos aplicar a desconstrução regulatória de todo Antigo Testamento, assim inaugurando novos mandamentos ditados por Jesus — vide a omissão da guarda do sábado. O convite de Jesus sem dúvida alguma paira sobre a graça e misericórdia, sobre o perdão de todos os pecados; ademais os de ordem sexual sem a necessidade de classificação sexual adequada.

A postura de Jesus perante o sexo jamais foi regulatória ou propulsora de uma nova moral, aliás Cristo não é o inaugurador de uma nova moral, mas sim o anunciador que o amor chegou aos homens. No Novo Testamento o fiel da balança sempre deverá ser a misericórdia, a piedade e a assustadora postura de relativização da Lei. Como diz Brabo, mal o túmulo havia esfriado e os cristãos da Judeia e Samaria já discutiam fórmulas de regulamentação para a tradição cristã sexual, bem como a promulgação de regras celibatárias universais sem a devida adequação cultural, fizeram da conduta sexual tronco principal da mensagem cristã e legislavam sobre a conduta sexual de todos os conversos.

Curiosamente não encontra-se tantas regras morais na literatura judaica do Antigo Testamento, ficando a mercê dos novos cristãos a cartilha pessimista da conduta sexual assertiva de cada pessoa, sendo inimaginável a leitura pura e livre de Cantares de Salomão — aproveito para denunciar o descaso que este livro sofre nos púlpitos e nas salas de teologia. Inimaginável é para alguns religiosos pensar que Salomão tinham fantasias sexuais e as praticava com voracidade.

Obviamente que tendemos a pensar sobre a influência estoica de filósofos como Sêneca que encarava o sexo como um mal necessário ao homem, devendo este se abster ao máximo afim de encontrar a pureza sexual como a raiz de toda sabedoria e plenitude existencial. Debaixo das luzes desse conceito se ergueram pilares demoníacos sobre toda atividade sexual, chegando ao cúmulo da dúvida contemporânea de muitos cristãos sobre a legalidade do sexo anal, oral e etc. E foi assim que nasceram figuras como o Pastor Claúdio Duarte (clique aqui e veja com seus próprios olhos) para explicar aos evangélicos a forma correta de transar, como se os evangélicos fossem seres de outra natureza que precisam se descobrir sexualmente ativos depois de velhos (é nessa hora que tenho vergonha de ser evangélico ou coisa que o valha).

Teorias são infinitas para uma convincente explicação da construção do tabu sexual entre evangélicos. A dedução mais aceita são as cartas paulinas com várias regras do correto funcionamento das primeiras instituições religiosas sob o telhado do cristianismo. Paulo que era homem como qualquer outro, ficou tentado a escrever uma cartilha da conduta sexual, coisa que Jesus resistiu de forma sensivelmente estarrecedora. Acontece que Paulo falhou na previsão de como suas cartas seriam interpretadas quase vinte séculos depois, pois é claro que suas recomendações sexuais tomaram proporções proféticas e reguladoras de salvação, colocando de lado todo discurso anti legalista e alienante, e exaltando a submissão do gênero feminino bem como a demonização da orientação sexual. Sistematicamente os evangélicos usam o santo esquecimento das palavras do próprio Paulo que deixou bem claro em outra carta a não existência da classificação sequer de gêneros: “nem macho nem fêmea, porém existe o amor diante de Cristo.”

Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.

Estranhamente os cristãos suprimiram a igualdade de gêneros e se apequenaram na discussão da configuração correta da utilização dos membros sexuais. Hilariante é pensar Paulo como legislador sexual e sistematizador de teologias institucionalizadoras, quando na verdade seu mote de missão deveria ser a quebra completa de regras e paradigmas instrumentalizadores da culpa.

Enquanto não encontramos a equação exata da conduta sexual evangélica, vamos preferir a legalidade paulina do que a liberdade pregada e enfatizada por Jesus de Nazaré, o subversivo.

Paulo Sales ©