A verdade por trás do perigo das Fake News e sua relação com O Mecanismo, nova série da Netflix.

O que são, porque se propagam e porque estamos longe da solução.

Eden Wiedemann
Mar 26, 2018 · 10 min read

É curioso ver Fake News sendo tratada como novidade, algo “nascido e criado” nas redes sociais. Isso é bobagem. Fake News nada mais é que uma mentira propagada como verdade, algo que foi visto várias vezes na história, desde o “se não tem pão que comam brioches”, falsamente atribuído à Maria Antonieta, passando pela máquina de propaganda Nazista onde Goebbels tinha como uma de suas principais artimanhas transformar mentiras em verdades, até chegar ao século 20 destruindo as carreiras de Wilson Simonal, identificando-o como X9, e de Mario Gomes, cuja fake news faz ser conhecido como um sujeito agrossexual.

Convivemos com o Fake News desde sempre, de formas diversas. A mais comum, entretanto, deveria ser aquela cujo os autores consideravam inocentes, afinal não tinham o objetivo de prejudicar ninguém, que se dava ao se alterar ligeiramente uma história para adaptá-la a uma ideologia ou a uma necessidade estratégica. Um caso como esse é o do “apedrejamento da adultera”, encontrado na Bíblia. A história, onde Jesus ao ser questionado se uma adultera devia ou não ser apedrejada seguindo os preceitos da lei, teria respondido com um “quem nunca pecou que atire a primeira pedra”, é um enxerto. Ela não consta nas primeiras versões da Bíblia e suspeita-se que tenha sido incluída apenas para apresentar Jesus como alguém que não seguia cegamente as leis judaicas. Não acredita em mim? Você pode encontrar essa e muitas outras incongruências bíblicas em um romance chamado O último segredo, de José Rodrigues dos Santos. Aconselho. Todas as adaptações feitas na Bíblia pela igreja com o passar dos tempos, são, de certa maneira, fake news.

Pois é, podem ficar chateados mas… é fake news.

Mas, bom, meu objetivo aqui não é despertar o ódio dos que crêem — apesar de achar que agora é tarde — e sim mostrar a vocês que distorcer ou inventar histórias, com objetivos inocentes ou não, é algo com o que convivemos há milênios, não é algo novo ou fruto das redes sociais.

As redes sociais só deixaram o processo todo bem mais fácil, rápido e descentralizado. Se uma mudança na Bíblia efetuada no século VI levava anos e anos para se propagar e se tornar verdade ou se um boato sobre um galã global encontrando maneiras peculiares de usar uma cenoura precisava de revistas de fofoca e jornalecos pra se propagar, o cenário é outro. Em poucas horas uma mentira, escrita para se passar por verdade, pode se propagar a ponto de influenciar as eleições na maior potência mundial graças ao poder de viralização das redes sociais. Porém, esse é o ponto, esse não é um problema que tem seu cerne na tecnologia e não será, de forma alguma, resolvida por ela. Esse é um problema relacionado a cultura, falta de capacidade de interpretação de texto e, claro, total falta de caráter e ética da audiência.

Jogar a culpa da propagação das fake news no Facebook, Google ou qualquer outra rede é bobagem. Eles são o meio, não o motivo. Sim, investindo milhões em inteligência artificial e desenvolvendo algoritmos mais precisos eles podem reduzir o impacto das fake news, identificando mais rapidamente esse tipo de conteúdo, banindo suas origens e penalizando aqueles que tem o hábito de ampliar seu alcance. Mas, veja só, isso não é um tipo de censura? E não estaríamos retirando a responsabilidade de quem cria esse tipo de conteúdo e colocando nos veículos? “Ah, mas se os veículos faturam com a audiência e o alcance desse tipo de merda eles que se virem pra resolver”. Justo, mas não muito.

A verdade é que é mais fácil jogar a responsabilidade em uma companhia bilionária como o Facebook esperando que eles invistam tempo e dinheiro para solucionar o problema que assumir o óbvio: o problema geralmente está, como todo profissional de TI sabe, no usuário.

As fake news surgem com os mais diversos objetivos. Alguns produtores de conteúdo perceberam o óbvio, é muito mais fácil gerar audiência para seu site/blog quando o leitor encontra um conteúdo quer reforça aquilo que ele acredita ou defende, mesmo que isso seja mentira. As pessoas não querem a verdade, elas querem estar certas e encontrar um conteúdo que diga que ela está certa é ótimo para enviar para os amigos como uma forma de “eu te disse, eu te disse”. Modificar uma notícia ou fato, adicionando ou retirando algo que funcione para reforçar sua narrativa, performa bem, principalmente por se tratar de uma “quase verdade”. Uma fake news pode surgir como vídeo, áudio, texto ou imagem, ser propagada na imprensa tradicional ou no ambiente digital, não importa, mas há um princípio básico para que um conteúdo seja considerado uma fake news: ele tenta se vender como verdade, como fato.

Vejam só, na última sexta a Netflix lançou a série O Mecanismo, a série dirigida por Padilha (de Tropa de Elite, Tropa de Elite 2, Narcos e do remake de Robocop) tem Selton Melo como um dos protagonistas, no papel de um policial que tenta colocar um doleiro responsável por lavar bilhões oriundos de contratos superfaturados entre empreiteiras e o governo a mando de políticos que controlariam todo o esquema. Lembrou de algo? Sim, trata-se de uma adaptação da história da Lava-jato, o maior esquema de corrupção já desvendado. Adaptação é a palavra chave, acompanhem. Apesar de não perdoar ninguém, pintando Aécio como um corrupto que eleito barraria a Lava-jato, Moro como um egolátra, de bater em tudo que é partido, sem distinção, dó ou piedade, O Mecanismo está sendo duramente atacado por integrantes dos partidos que compunham a base petista, veículos e “formadores de opinião” ligados a eles. A ex-presidente Dilma, por exemplo, foi a público para chamar a série de “fake news”, alegando que ela “distorce fatos”. O que a ex-presidente parece ignorar é que essa é a tela de abertura de todos os capítulos da série:

Sim, trata-se de uma obra de ficção, livremente inspirada em fatos reais que assumidamente foram adaptados, logo em momento algum a série tenta se passar por um fato. Não há o compromisso de passar por um documentário. Ainda assim a obra poderia servir para defender determinada posição política? Claro, como diversas obras criadas na história, mas certamente não se trata de uma fake news.

Por sinal o que parece ter ofendido a militância do Partido dos Trabalhadores teria sido uma frase que na série foi colocada na boca de um personagem que representa o ex-presidente Lula mas que na verdade teria tido sua origem em uma gravação que deu origem a uma fake news de verdade. Em 2016 o ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, foi gravado em uma conversa telefônica cujo assunto seria um pacto para estancar a Lava-jato. O trecho de maior destaque viralizou, sendo citado milhares de vezes nas redes, mas há um curioso detalhe.

A militância petista e parte do universo digital progressista são muito engajados contra o atual governo a quem chamam de golpistas. Esse mesmo grupo vive de atacar a Lava-jato, Moro, a PF e todos os demais envolvidos. Alegam que tudo isso é perseguição ao PT, ao Lula e a esquerda, que trata-se de perseguição política e que a derrubada de Dilma foi pensada para parar a Lava-jato. É normal usarem a fala de Machado, retirada da gravação, para provar esse ponto. Repetem o trecho em todas as redes: “Eu acho o seguinte, a saída ou é licença ou é renúncia. Licença é mais suave. O Michel forma um governo de união nacional, faz um grande acordo, protege todo mundo. Esse país volta à calma”. Um grande acordo (o fim da Lava-jato), a proteção de todo mundo (dos corruptos que derrubaram Dilma e que são contra Lula). Faz sentido, não faz? Faz, se for alinhado com sua ideologia, afinal isso é fake news. Aqui está a frase completa, sem a edição que vemos nos canais de esquerda. “Eu acho o seguinte, a saída ou é licença ou é renúncia. Licença é mais suave. O Michel forma um governo de união nacional, faz um grande acordo, protege o Lula, protege todo mundo. Esse país volta à calma”. Pois é, protege o Lula. A retirada desse trecho mostra uma clara alteração de viés ideológico, o nascimento de uma fake news. Essa alteração foi criada por um grupo que finge ignorar sua existência, replicando a versão adulterada, que por sua vez é replicada por pessoas que mesmo não estando alinhadas com os objetivos deles viralizam o conteúdo indignados com a existência de um projeto de acordo para o fim da Lava-jato.

Recentemente vimos fake news que tentavam ligar Marielle Franco, a vereadora brutalmente assassinada no Rio, ao crime organizado. O conteúdo fake, inclusive propagado por gente do judiciário e até mesmo por um deputado, insinuava que Marielle teria engravidado aos 16 anos — essa parte eu não entendi, isso é demérito? — e seria ex-mulher de Marcinho VP, traficante ligado ao Comando Vermelho. O MBL não apenas comprou a narrativa, espalhando-a, como é acusado em matéria do O Globo de ser peça fundamental na divulgação das informações falsas, tomando como ponto de partida o blog Ceticismo Político que a matéria aponta estar ligada ao movimento. Um caso clássico de “não fui eu que disse, eu apenas repeti o que fulano disse, a culpa é dele” — um dos principais mecanismos para a criação e divulgação desse tipo de conteúdo difamatório. Antes de ser apagado o post do MBL já tinha 33 mil compartilhamentos, ou seja, 33 mil pessoas passaram adiante o conteúdo sem checar a fonte ou o fato, simplesmente porque concordavam com o que ele dizia ou ele reforçava a própria posição na discussão.

E aí que está o problema: cultura (consumir conteúdo apenas na TL do Facebook ou WhatsApp, muitas vezes apenas lendo o título), educação (incapacidade de interpretar o texto ou desenvolver critérios para julgar a veracidade de uma informação) e total falta de caráter (quando mesmo sabendo se tratar de uma mentira ou duvidando da sua veracidade a replicamos para reforçar sua própria narrativa). Há pouco tempo atrás vi a postagem de uma pessoa a quem sigo no Facebook replicar uma mentira. Deixei um comentário, “é fake, essa foto é de 2012”, a intenção era fazer a pessoa perceber o erro e apagar a postagem, evitando assim a propagação da notícias falsa. A resposta foi “ah, pode ser, mas poderia ser verdade, faz todo sentido, não vou apagar”. Falta de caráter.

Em 2010 apenas 5% dos usuários de redes sociais produziam conteúdo. A imensa maioria apenas propagava ou consumia. Hoje mais de 60% dos usuários produz algum tipo de conteúdo, todos temos um “computador nas mãos” e uma conexão ininterrupta com a internet. Para vocês terem ideia do volume de conteúdo, em 2011, trafegou na internet mais conteúdo do que a humanidade criou de 2008 para trás, em toda sua existência. E vai piorar. Mais gente conectada, mais velocidade nas conexões, mais facilidade para se receber, alterar, criar, propagar informações. A tecnologia nunca será um limitante, sempre será um facilitador. A médio prazo a única forma de combater as fake news é uma atuação conjunta que envolvam os meios (aqui a tecnologia entra), legislação (sim, fake news criadas com o objetivo de prejudicar alguém devem ser punidas), investimento em educação (saber interpretar um texto é base para qualquer conceito de educação bem sucedida) e na criação de uma cultura digital mais saudável.

A redução de acessos dos veículos de informação faz o rabo balançar o cachorro. Os usuários passam a consumir conteúdo de qualquer fonte, originário muitas vezes da curadoria de amigos e parentes (você nunca parou pra analisar qual a qualificação da sua vizinha passadora de corrente de WhatsApp como curadora de conteúdo?) — incentivado pelo Facebook com seu algoritmo medonho, deixando de visitar fontes mais confiáveis (que tem sua parcela de culpa com seus pay walls). Essas fontes, por sua vez, sem audiência e vendo a renda despencar, reduzem a qualidade da mão de obra, passam a produzir conteúdo click-bait, e vão perdendo força como fonte mesmo para aqueles que ainda tem o hábito de usá-las. Assim vemos manchetes como “Caetano estaciona seu carro no Leblon” na página principal do site de um grande jornal. O grande desafio é como fazer com que as fontes confiáveis tornem-se fontes mais uma vez? A forma mais simples seria dando a tais fontes (sites e blogs) mais alcance dentro das redes sociais, ou seja, os algoritmos do Facebook, por exemplo, darem mais alcance a uma fonte crível que a uma fonte de fake news, coisa que eles dizem estar trabalhando mas que está longe de ser algo real — tanto que o alcance reduzido de suas publicações fez a Folha abandonar as publicações em sua página na plataforma de Zuckerberg.

A curto prazo só existe uma maneira de se combater fake news, mobilização no sentido contrário, criação maciça de pauta positiva explicativa, em uma verdadeira guerrilha por share-of-voice que pode resultar na desconstrução de uma mentira — como aconteceu no caso de Marielle — e até mesmo para acuar quem, por falta de caráter, insiste em propagá-la. Essa é uma antiga técnica de PR, que era mais fácil de ser posta em prática quando o espaço disputado era limitado e se resumia a veículos, mas quase impossível quando todo e qualquer usuário nas redes sociais pode agir como veículo. E sabe quem ganha com isso? É, as redes, já que para combater um boato, para tentar anulá-lo — ênfase no tentar — se faz necessário investir milhares de Reais em mídia em tempos de alcance orgânico nulo. Eis que fica a dúvida: o que será mais relevante, os possíveis problemas jurídicos e de imagem do Facebook com o crescimento das fake news ou o ganho com mídia necessária para combatê-las? Isso vai determinar o quanto as redes vão se mobilizar de fato para mudar o cenário.

E, amigo, se você acha que fake news é um problema agora espere só até chegarmos mais perto das eleições.

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