A verdadeira medida de sucesso de uma empresa não é o lucro, é o sonho.

Em outubro do ano passado comecei do zero pela 9ª vez. A gente acha chique chamar de ‘startup’, mas começo de empresa é começo de empresa. Muito parecido se não for igual a como começam milhares de empresas no Brasil todos os anos. Ralação, insegurança, incerteza, muito trabalho, mas acima de tudo, muito sonho.

No meu aniversário de 28 anos abri minha primeira empresa, a 10’Minutos, uma produtora de internet. Fechamos ela 1 ano e meio depois. Fizemos o site do Ronaldo Fenômeno, Romário, Ivan Lins, redesenhamos o site de O Globo, projetos pra Shell, IBM. Foi um sucesso de crítica e um fracasso de grana. Produtora de internet em 1996, imagina. Fechei a 10’Minutos e abri um departamento de internet dentro de uma multinacional grande, a Bowne. Levei o time que estava comigo na 10’Minutos para a Bowne. Montamos um departamento, uma empresa dentro da empresa do zero. Clientes, projetos. Deu certo. Pouco menos de dois anos depois, fui chamado pra ajudar a abrir outra empresa, a Globo.com. Eram meados de 1999. Fomos para o prédio do InfoGlobo no centro do Rio e começamos a montar o que seria o primeiro time da Globo.com. A primeira versão do portal foi ao ar em março de 2000. Eu sai da Globo.com em fevereiro, rumo à DM9 DDB, em São Paulo, para estruturar a área de internet. Novamente praticamente do zero, no boom das pontocom. Piscou e tínhamos 25 pessoas atendendo várias empresas digitais. A bolha estourou, e a área de internet foi junto. Resolvi começar de novo. Novamente a 10’Minutos, agora em SP. Outra vez praticamente do zero. Primeiro funcionário, primeiro cliente. Foram 7 anos até que a empresa foi incorporada pela Ogilvy Brasil, para onde fomos com a missão de organizar a empresa e disseminar o digital dentro da agência. Somando nossa turma e a que já estava lá, tínhamos um time de 110 pessoas quando chegamos. Dois anos depois o processo estava concluído. Saí novamente e me juntei à Pontomobi, então com 40 pessoas. Fiquei novamente dois anos e participei do processo de aquisição de outras empresas e crescimento do time para 220 pessoas, 5 escritórios. Sai para uma nova startup. Desta vez o projeto da Pereira & O’Dell no Brasil. Mais uma vez do zero. Uma mesa e um computador. A primeira pessoa, segunda. Comprei a primeira máquina de café. Em 3 anos éramos 60 funcionários, 2 escritórios, 11 marcas. Deixei a Pereira & O’Dell em julho de 2015 e em outubro lá estava de novo, abrindo outra startup, agora a Lent/AG. Eu e minha sócia, as primeiras pessoas, a máquina de café, o co-working. Se contar os departamentos que iniciei dentro das empresas, foi meu 9º processo de startup em pouco menos de 20 anos.

Não cansa? Cansa. É legal? Não tem coisa mais legal.

Não cansa? Cansa. É legal? 
Não tem coisa mais legal.

Olhando pro meu histórico profissional, nomes de cargos à parte, percebi um dia que a minha especialidade havia se transformado em abrir empresas. Montar times, estruturar processos, cuidar da gestão e do produto. Faço questão de comprar a primeira máquina de café, os primeiros computadores, fazer o site, setup do email, branding corporativo, papelaria. Contratar as primeiras pessoas, que alegria.

O desenrolar nem sempre é fácil. As empresas crescem e o desafio de longo prazo é muito difícil. Nessas 9 rodadas, já tive de tudo. Empresa que quebrou, que não durou nada, que durou à beça e foi vendida, que incorporou, que está ai até hoje.

As empresas precisam ser pensadas pra dar lucro, é a regra básica. Mas pra mim, a regra fundamental é que as empresas precisam ser pensadas para gerar empregos, dar oportunidade para as pessoas e para criar ambientes em que as pessoas tenham prazer de estar. As empresas precisam ser bem administradas não pelo dinheiro em si, mas para garantir que elas continuem a existir, pelo bem de todos que se somam ao projeto e que embarcam junto no sonho, não querendo que ele acabe.

As empresas só sobrevivem ao tempo se bem administradas, mas o verdadeiro sinal de sucesso pra mim nunca foi o resultado superavitário.

Pra mim, o verdadeiro indicador de sucesso de uma empresa é quando ela deixa de ser o sonho de seus fundadores e se transforma num projeto coletivo em que o sonho de uns se torna o sonho de todos.

Pra mim, o verdadeiro indicador de sucesso de uma empresa é quando ela deixa de ser o sonho de seus fundadores e se transforma num projeto coletivo em que o sonho de uns se torna o sonho de todos.

Quando você consegue perceber nos olhos da turma o entusiasmo e a doação para o projeto, aí sim, me parece que a mágica aconteceu e estamos diante de um extraordinário sucesso.

Empreender não é nada fácil e não é pra qualquer um não. Posso dizer isso com toda a credencial de quem já passou por isso muitas vezes. Mas quando o projeto engrena e você se vê rodeado de uma turma que veio sonhar junto e fazer junto, não tem coisa mais prazerosa pra mim na vida profissional.

Dure o quanto durar.

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Obrigado pela leitura. Você pode encontrar todos os meus outros artigos para o Medium aqui e também pode também pode se conectar comigo via meu Twitter: @Lent.

Michel Lent, sócio e CPO da Lent/AG, é bacharel em Desenho Industrial e mestre em Telecomunicações interativas pela New York University. Pioneiro do mercado digital desde seus primórdios, sempre buscou ajudar na construção da cultura da comunicação digital brasileira através da publicação de artigos, aulas e palestras. Como empreendedor e executivo, teve atuações importantes em empresas como Globo.com, DM9DDB, Ogilvy e Pereira & O’Dell. Como líder criativo, foi premiado nos principais festivais de publicidade como Clio, One Show e Cannes Lions, do qual também foi jurado. Eleito um dos 50 profissionais mais inovadores do mercado digital pela Revista ProXXIma e profissional de comunicação digital do ano pela Associação de Agências de Propaganda, é membro da Academia Internacional de Artes e Ciências Digitais (IADAS).


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