A visão de um homem cis hétero sobre participação no movimento LGBT

Nota: o público desse texto é o espelho do autor. Homens cis héteros, buscando formas de se encaixar de maneira positiva ao universo LGBT. Se você não faz parte desse público, fica o convite para trazer insights e correções, com o reconhecimento de que jamais alcançarei o seu lugar de fala.
Há um ano, recebi da minha amiga Jéssica Leite Moreira a missão de tratar o tema que toma o título. Nesse tempo fui guardando links, acumulando argumentos de textos em mente, estudando as histórias de conceitos como a homossexualidade — e a heterossexualidade — para chegar a uma resposta. Mas só entendi por onde começar enquanto jogava FIFA.
O jogo de futebol detém um modo “Carreira”, onde devemos criar um jogador próprio e tentar o sucesso controlando apenas ele.
Yann era um atacante (jura?) jogando pela Chapecoense, vestindo a camisa 7. Após algum desenvolvimento e idas para a seleção, a grande contratação chegou. O Bayern de Munique, maior clube alemão.
Contratação efetivada, o FIFA configura a mudança de time, preparando o calendário da temporada e o visual do jogador com o novo uniforme. É nesse momento que, dependendo dos números de camisas já tomados no time, um número livre é designado ao recém-chegado.
O número foi o 24.
Sempre apreciei jogar com as camisas 7 e 16 (não me pergunte por que), então meu instinto foi acessar o menu para alterar o número.
Mas será que meu ímpeto de mudar seria o mesmo, não fosse justamente o número associado a homens homossexuais para ofensa? Talvez eu só deixasse passar, viesse um 15 ou um 9.
Feito o questionamento, só havia um caminho a seguir.
Hoje, Yann tem 37 gols em 38 jogos pelo Bayern, expondo o número 24 na camisa.
A maior participação é interna
Não faz sentido eu falar em participar de um movimento cujas pessoas ativistas, coletivos e milhões de outras interessadas sequer sabem quem sou, se nem dentro da minha vida eu ajo de acordo.
A maior forma de contribuir para essa gente que me desconhece é não ser, no meu dia-a-dia, o babaca contra quem elas tanto precisam lutar para existir. O que inclui não ficar de “mimimi” com um mero número de camisa.
Por sorte, a torcida de futebol no Fifa não dá opiniões. O simulacro superando a realidade.
Quando fico atento ao meu agir cotidiano, começo a perceber uma série de pequenos preconceitos que, isoladamente, parecem nada. No acumulado, no entanto, formam e revelam visões de mundo.
São as famosas microagressões se tornando problemas do tamanho de porta-aviões. A brilhante Kaol Porfírio traduziu o vídeo do site americano Fusion que faz a analogia entre preconceito, microagressões e picadas de mosquitos. As duas versões viralizaram e o vídeo permanece o melhor resumo sobre o efeito desse acúmulo que você pode ver.
A atenção às ações diárias gera a oportunidade de corrigir essas microagressões.
É quando “viado” deixa de ser um termo que eu deva usar, porque no fundo ele só era usado nos meus contextos baseado em uma visão de inferioridade de quem é homossexual. Uma visão com a qual eu não concordava conscientemente, mas que acabava reproduzida toda vez.
Quanto mais correções faço no meu vocabulário, menos desagradável fica para uma pessoa LGBT estar no mesmo lugar que eu.
Como efeito colateral, quanto mais correções faço em mim, mais fácil será direcionar valores interessantes na educação das crianças que surgirem em minha vida. Sem doutrina, apenas sendo quem acredito que deva ser. Formando a visão de mundo delas, já a partir de um paradigma de menos preconceito, de mais igualdade.
Poucos impactos podem ser maiores do que o desenvolvimento de uma pessoa melhor para o mundo.
A participação interna só é completa se houver interpessoalidade
Interpessoalidade, que bonito. Então vamos no popular, quantas pessoas LGBT você conhece? Com quantas você convive?
Conheço algumas pessoas homossexuais. Mais homens do que mulheres. Algumas com bastante convivência. Conheço poucas pessoas trans, não tenho convivência alguma.
Imagine que eu queira ser capaz de nunca reproduzir preconceitos contra essas pessoas. Como consigo?
A participação interna, por si só, não é capaz de solucionar essa questão. Caso seja capaz, certamente não é a forma mais inteligente.
A cada reflexão sobre o que ofende, o que não ofende, causas importantes, sobre minhas ações diárias, preciso percorrer um longo caminho de desconstrução. Um caminho de identificação de valores e ideais arraigados, de ideias aprendidas desde a alfabetização e nunca questionadas. Uma busca por respostas melhores a cada dilema, questionamento.
Talvez eu consiga algumas, mas todas?
Fica mais fácil se eu aprender direto da fonte. Aprender de pessoas que vivem essas questões e já as pensam, refletem, há décadas.
Não faz sentido querer reinventar a roda.
Não quer dizer que vou conviver com essas pessoas apenas para atingir um estágio de conhecimento avançado. Convivo com elas porque, bem, são pessoas né. Pessoas que me interessam, minhas amigas, por exemplo. Não tô afim de machucar minhas amigas.
Nessa participação de aluno, o que absorvo me ajuda a conviver melhor também com qualquer ativista, coletivo ou pessoa LGBT seguindo a vida dela, pessoa que não me conhece e a quem não conheço.
O que absorvo me ajuda a rever meus valores, passar melhores valores, me desenvolver internamente. Além de me ajudar a não ser babaca com elas, lembra?
É um ganha-ganha.
Participação no movimento
Para valer agora. Como posso participar de uma organização que luta contra a LGBTfobia?
Você pode pensar que, talvez, em algum momento histórico, tenha sido necessário um homem cis heterossexual empático, com liberdade de ação e maior alcance, criar organização e promover ações pela causa LGBT.
Não é bem o caso, como você pode perceber se aprofundando nas histórias de alguns dos conceitos e de algumas das lutas. Por exemplo, conhecendo o caminho das definições de homossexualidade e heterossexualidade.
Bem, se não era verdade antes, muito menos é agora. A causa LGBT não precisa que eu inicie um movimento, uma organização. Já tem muita gente foda, com organizações fodas, batalhando para melhorar as vidas de muitas minorias.
Não quer dizer que essa galera não precise de braços ajudando, bocas e perfis de redes divulgando, mentes pensando em como expandir alcances para públicos mais fechados ou distantes das discussões.
Como você buscaria ajudar uma causa que lhe mova? Digamos que seja a luta contra a fome.
O primeiro passo seria se colocar à disposição. Doar seu tempo, sua atenção, seu corpo para o trabalho, entrando nos prédios que recolhem alimentos, conhecendo pessoas necessitadas, divulgando o trabalho.
Hoje queremos muitas vezes pular esse passo e achar a ideia de aplicativo ideal para resolver o problema.
Mas qual é o problema? Sem um mergulho no mundo da causa, não sabemos.
Então, sendo a causa a LGBT, o passo é o mesmo. Mergulhar no mundo, entender melhor o problema e aí sim ajudar.
Não dá para esperar ser 100% livre de preconceitos para agir. Senão ninguém conseguiria ajudar. O aprendizado é vivo, ocorre durante.
Participar é conflito
Personagens de grandes histórias apresentam conflitos em esferas internas, pessoais e extrapessoais. Não é à toa que falei de participação interna, pessoal e institucional.
Um homem heterossexual jamais terá visão do (ou participação no) movimento LGBT sem estar em conflito.
A estabilidade está nos privilégios, não na quebra deles.
Como construímos aquelas naves ou carros incríveis de Lego? Começamos com uma peça extensa, quadrada ou retangular. Ela permite nossas primeiras conexões, dá forma a nossa criatividade.
Contudo, o formato da peça ou o número de pinos de encaixe são fatores que também limitam nosso crescimento, reduzindo as possibilidades de combinações e resultados. É por isso que desconstruímos. Para construir de novo e de novo.
Quando ajustamos essas peças basilares, nossos valores, novos modelos de Lego podem ser montados. Conseguimos encaixar novas relações, assim como novas peças.
A participação sempre começa de dentro. Ela começa interna e, para um homem heterossexual, deve sempre ser mais interna do que externa. Por mais que estejamos dispostos a outras camadas de conflitos, o principal é lembrarmos o tempo todo: dessa história, somos meros coadjuvantes.
Melhor do que ser figurante ou vilão, não é?

