Abandono

Foto: Rafael Fernandes

Desde que se mudara para Copacabana, ela gostava de flanar. Havia lido esse verbo em um livro do João do Rio. Na verdade, ela já tinha o hábito de andar sem rumo pelas ruas há tempos, mas foi só depois de se mudar que passou a nomear o ato. Gostava de ver a dinâmica do bairro e fazer caminhos diferentes para enganar a rotina. Gostava também de observar varandas. Não tinha uma em seu diminuto apartamento, mas alimentava o sonho de ostentar uma sacada com rede e plantas. Tinha até mesmo o hábito de trocar fotos de varandas com um amigo. Se negava a apagá-las mesmo quando o celular pedia para liberar espaço.

Com esse mesmo amigo dividia a afeição por objetos inusitados no lixo. Também trocavam fotos disso e ela sempre se perguntava o que os levava a ir parar ali. No começo apenas se intrigava, mas o encontro com móveis e objetos descartados se tornou tão frequente que cresceu nela o desejo de adotar um. Seu apartamento era pequeno, mas menor ainda era o número de móveis e objetos de decoração. A saída da casa do ex não rendera muitas heranças.

O primeiro resgate foi de um quadro com uma foto das escadas do bairro de Montmartre, em Paris. A moldura apresentava algumas lascas que deixavam o preto falhado. Uma pequena demão de esmalte da mesma cor foi o suficiente para deixar as falhas imperceptíveis. Ela imaginava que antes de ir parar no lixo, o pequeno quadro tinha enfeitado o quarto de uma jovem apaixonada por francês e que o jogara fora quando passou a preferir o castelhano depois de conhecer um hermano em um bloco de carnaval.

O resgate seguinte foi mais ousado. Ela precisou da ajuda do porteiro para conseguir carregar a pequena mesa por duas quadras. Com pernas de inox retrô, a mesa de madeira tinha sido a primeira compra de um casal moderninho para a quitinete alugada. O relacionamento não durou o tempo do contrato de aluguel e na divisão dos móveis, ninguém quis a guarda da mesa que foi pra calçada. Agora ela servia de mesa e apoio de alimentos na sua pequena cozinha.

A poltrona branca tinha uma história mais próspera. Da loja chique tinha ido para uma varanda em frente à praia e lá ficou por anos, até que a arquiteta da reforma achou que móveis de madeira eram a melhor opção para aquele ambiente. Vendo que ainda estava em bom estado, os antigos donos a venderam para uma italiana que vivia em Santa Teresa e que a usava de apoio de roupas usadas em seu quarto. Quando voltou para a Itália, a doou para uma amiga com filhos que a customizaram com hidrocor vermelho no encosto. Terminou na rua com a mudança da família para um bairro mais próspero. Agora vestia uma manta estampada de verde e vermelho que escondia suas manchas e era o lugar favorito das visitas.

Ela se sentia bem levando aqueles objetos para casa e dando uma nova chance para eles. Era barato e sustentável. Por isso, se sentiu tão mal quando chegou a sua vez de abandonar um objeto na rua. Há tempos sua velha máquina de lavar apresentava sinais do fim. Ela gostava de lavar roupa e usava o eletrodoméstico mais de uma vez por semana, uma frequência altíssima para quem mora sozinha. Mas ficava feliz com o cheiro de amaciante e roupas secando no varal de teto. Sem dúvida era sua tarefa doméstica favorita. Por isso, ficava especialmente incomodada com os pequenos problemas da sua máquina.

Por apego e sustentabilidade ela tentou o conserto por mais vezes que a maioria tentaria. Até que o próprio técnico indicou a troca. Se rendeu e foi em busca de uma nova. Chegou a olhar alguns modelos mais simples e compactos, mas foi mesmo o de porta frontal e doze quilos que chamou sua atenção. Justificou o tamanho exagerado e o modelo mais caro com o argumento de que assim poderia lavar suas colchas em casa e que essas máquinas gastam menos água. Vinte minutos e doze parcelas depois ela saia da loja.

A primeira batida de roupas foi no mesmo dia em que a máquina chegou e ela apreciou a música que tocava quando o ciclo terminava. Estava apaixonada. Mas também estava de coração partido e ele se partia ainda mais quando encarava sua máquina antiga de guerra na sala. Ela havia tentado doá-la, mas os poucos interessados se desanimaram ao saber que teriam que arcar com alguns consertos.

Por semanas a máquina permaneceu na sala, a lembrando de seu iminente abandono. Foi flanando que encontrou a solução: um fogão abandonado a cinco quadras de sua casa. Voltou apressada para casa e desceu sozinha com a máquina. Chamou um táxi dos grandes e com facilidade a colocaram no bagageiro. Ela indicou o endereço. Desceu dizendo que iria entregar o eletrodoméstico para uma amiga que vivia por ali. Não queria testemunhas do seu abandono. Ajeitou-a próximo ao fogão e perto de uma placa com um adesivo de consertos de máquinas. “Que melhor lugar para deixá-la?”, pensou.

Atenta para ver se ninguém havia testemunhado a cena, ela pegou o rumo de casa, com um misto de angústia, saudade e um sentimento de traição com sua velha amiga. Deu uma última olhada para trás e se foi de vez. Mas não sem antes imaginar que agora sua máquina iria morar com um jovem gay tão apaixonado por lavar roupa quanto ela.