Aborto: uma questão de sororidade, não de opinião

Você conhece uma mulher que abortou. Pode ser que você não saiba, mas ela sabe e carrega esse segredo. Eu conheço mulheres que abortaram. Algumas, optaram por nunca serem mães. Outras, hoje, são mães felizes com essa decisão. São escolhas de vida e cada uma deve fazer a sua.

A decisão do Supremo Tribunal Federal desta semana reacendeu o debate sobre a legalização do aborto, que há tempos não aparecia com tanta força. Neste momento, precisamos deixar de lado tudo o que líderes religiosos, moralistas e leis feitas dentro de lógicas patriarcais nos falam e entender que não legalizar a interrupção da gravidez é uma afronta para toda e qualquer mulher. Não só porque procedimentos clandestinos matam ou deixam doentes mais de 150 mil mulheres brasileiras por ano, mas também porque diz que não somos donas de nós mesmas e precisamos viver sob a tutela do governo.

Quando o Estado te olha e fala: "você não tem o direito de decidir se quer esse filho, ele tem que nascer e pronto", ele está sendo autoritário. Está cerceando uma das liberdades individuais mais básicas que existem e das mais sérias, porque um filho é um compromisso e uma marca para a toda a vida. Eu não consigo me lembrar do Estado fazer algo parecido com os homens. Não há nenhum direito sobre o próprio corpo que o homem tenha cerceado.

Essa escolha, para nós, é parcialmente dada pelos métodos contraceptivos, mas eles não são tão acessíveis assim. Às vezes, a classe média se fecha em um círculo tão alienado que acha que qualquer mulher desse país pode ir em um pronto socorro, pedir uma cartela de anticoncepcional e sair tomando. Que, se ela não faz isso, ela é uma tremenda irresponsável. Você é uma mulher privilegiada se tem acesso a métodos contraceptivos seguros e que não prejudicam o seu corpo. No mundo, milhares de mulheres não têm, e outras tantas têm o acesso a eles negado pelos homens. Outras, ainda, são obrigadas a engravidarem dos maridos. E muitas outras são violentadas — e, mesmo nesses casos, conseguir um aborto no Brasil não é a coisa mais fácil do mundo, porque a polícia e o sistema de saúde não colaboram (e se o Estatuto do Nascituro for aprovado, até isso será impossível).

Quando uma mulher deixa de olhar tudo isso e chama a outra de puta ou assassina, ela deixou de lado a sororidade. Derivada da palavra latina soror, que quer dizer irmã, a sororidade é o sentimento de empatia, companheirismo e solidariedade entre mulheres. É ver que aquela moça que quer abortar é tão segundo sexo quanto você e ambas estão na mesma canoa furada de uma misoginia que dura mais de quatro mil anos.

O que nos cabe, então, como mulheres? Apoiar essas decisões. Entender que a escolha da outra pode não ser a nossa e lembrar que, como gênero, precisamos estar juntas.

Para discutir o aborto, temos que deixar de lado valores religiosos e morais individuais e ver que nem tudo aquilo que acreditamos e seguimos serve para a vida das outras. Precisamos olhar para as mulheres à nossa volta com mais empatia e para o Estado com mais raiva.