Izabel da Rosa
Jul 2 · 6 min read
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Ele era muito jovem quando percebeu seu problema de visão. E jovem ainda soube que era grave. As esperanças foram desaparecendo e o diagnóstico de que o problema tinha origem genética, selou o seu destino.

As coisas foram perdendo o contorno, já não conseguia calcular as distâncias, definir as cores. Depois já não conseguia se desviar dos objetos e das pessoas. Mas ele continuou com seu sorriso largo e a conversa solta, com seu dinamismo e sua vontade de sempre estar aprendendo. A doença não deu trégua e os contornos sumiram, as cores esmaeceram. Restou apenas aquele clarão que o guiava e o fazia adivinhar os caminhos. E foi muito triste quando tudo se apagou. O mundo continuava igual, apenas ele não o enxergava. Seus demais sentidos precisariam a trazer o mundo até ele.

Esta poderia ser simplesmente a descrição da vida de uma pessoa que ficou cega aos 30 anos. Mas não é. É a história de alguém que apesar de não enxergar, não desistiu de viver, de aprender, de ser feliz e principalmente de continuar a fazer diferença na sociedade.

Este texto é baseado em entrevista realizada com Nelson Expedito da Rosa, consultor de audiodescrição e titular do site https://www.somdavoz.com.br.


E u era representante de laboratórios e não podia mais exercer essa atividade. Para me reabilitar, precisei encontrar uma nova profissão. Fiz um concurso e entrei em um programa de treinamento de cegos em informática. Em 1989, no Paraná, nenhum cego trabalhava com computador. Uma pessoa que havia conhecido esse tipo de treinamento no exterior trouxe para o Brasil e o Governo do Paraná a implantou.

Éramos sete pioneiros. Despertamos muita atenção e curiosidade, do público e da imprensa. Mas, as ferramentas eram rudimentares e o braile ainda era a melhor forma de interação. Não existiam sintetizadores de voz.
Participei de todo o processo que abriu um horizonte novo para os deficientes visuais, desenvolvendo programas, repassando informações e formando profissionais.
A informática foi um divisor de águas entre um limitado conteúdo de livros em braile e a possibilidade de escolha pela internet, de cursos em diversas áreas, que permitem ao cego participar da sociedade como cidadão que desfruta de autonomia, obtém o próprio sustento e paga seus impostos. Mais e mais pessoas passaram a ter a chance de ter uma vida produtiva.

N o final da minha carreira surgiu uma vaga na Biblioteca Pública do Paraná.
O que vou fazer em uma biblioteca?

O trabalho era gravar livros em áudio para empréstimo para pessoas cegas e aproveitei da oportunidade. Melhorei a qualidade das vozes sintéticas usadas pela entidade e o acervo aumentou em muito.
Foi nessa época que tomei conhecimento da audiodescrição. Ela foi desenvolvida nos Estados Unidos em 1974 em um trabalho universitário.
Um cego poderá assistir filmes?
Em um primeiro momento soou como uma utopia. Com o tempo esse objetivo se mostrou viável e a técnica se espalhou não só nos Estados Unidos, como também na Europa.
Chegou ao Brasil em 2003 e descobri que no Brasil, já existiam leis que a apoiavam o seu uso, inclusive com a exigência de sua disponibilidade em um determinado número de horas diárias pelos canais de TV. (1)

Porém, em Curitiba não havia nenhuma iniciativa nesse sentido. Todo o material audiodescrito vinha de outras partes do país e era limitado.
Tenho um espírito pioneiro e iniciar esse processo me pareceu uma opção necessária. Eu desconhecia os detalhes da técnica, por isso comecei com uma profunda pesquisa sobre o assunto. Depois, fiz um projeto de audiodescrição para implementação pela Biblioteca.

Por diversas razões o projeto não foi implantado, mas, por meio do trabalho de voluntárias, consegui realizar a áudio descrição de alguns filmes. Não existiu uma divulgação, mas os cegos usuários da biblioteca que estavam habituados com os áudio-livros passaram a assistir aos filmes. Para isso foram adaptadas, em um auditório, dezesseis poltronas com fones onde a audiodescrição era transmitida. Porém, uma reestruturação no espaço interno desativou o sistema.

Não desisti de continuar com o trabalho. Fiz cursos. Consegui novas voluntárias e quando já tínhamos em torno de vinte filmes audiodescritos, percebi que precisávamos de um canal de divulgação.
O mundo do cego havia mudado. Com a internet, e a facilidade de acesso a bibliotecas virtuais eles já não se deslocavam para ouvir audiolivros ou assistir filmes. O nosso trabalho precisaria chegar até eles.
Tentei a criação de um site pela Biblioteca e não foi possível.

Precisei novamente apelar para a criatividade e abri um canal em meu nome no Youtube, disponibilizando os filmes de forma gratuita. Quando me aposentei, alguns filmes já estavam com mais de dez mil visualizações no meu canal particular.

E como funciona a audiodescrição? O som da voz tem o papel de revelar a imagem que antes estava inacessível.
O trabalho tem três etapas. Começa com frases descrevendo a obra, seja ela uma obra estática (pintura, escultura) ou dinâmica (vídeo, filme, show, teatro, ópera, etc…). A descrição expõe os detalhes, como a pessoa a vê. É um retrato falado. A interpretação deve ficar por conta do receptor do trabalho.

Depois existe o consultor que é uma pessoa cega com conhecimento de audiodescrição que vai analisar — com a ajuda de sintetizadores de voz — se a descrição realizada está adequada para o entendimento do cego. O consultor é a ponte entre a pessoa que enxerga e a pessoa que recebe o resultado do trabalho.
É o meu caso. Faço a análise de cada frase criada, validando ou questionando a sua eficácia para a clareza da cena dos filmes, até que esteja adequada ao público cego.
Depois dessa fase de validação, o trabalho segue para a locução. E é uma locução especializada que precisa adequar a entonação e a velocidade da fala ao clima do filme. A locução de um filme de suspense é diferente da locução de um filme romântico ou de ação, por exemplo.
Dessa forma, cada cena é detalhada e a narração mixada com o som original do filme ou vídeo.
E, novamente o consultor vai fazer o trabalho de validação do resultado final.

Ao assistir ao trabalho pronto, o cego vai montando imagens mentais. Não é a retina que vai lhe trazer a história, é o seu ouvido. São as falas do narrador, nos intervalos entre as conversas dos personagens que explicam o que ele não consegue ver.

Assim, um celular e um fone de ouvido permitem que o cego desfrute de conteúdos antes inacessíveis, de uma forma autônoma e independente, trazendo-lhe um mundo novo de informação e entretenimento.

Hoje, a áudio descrição já é uma profissão, com cursos preparatórios desde nível básico até doutorado. E, a audiodescrição está presente, nos museus, nos shows, no teatro, nos desfiles, no turismo. Diferentes sistemas possibilitam que os cegos ou pessoas com limitações de entendimento, como idosos, possam assistir eventos culturais audiodescritos junto com o público em geral.

Minha visão não era normal quando eu era jovem, por isso ir ao cinema não era um programa favorável já que eu tinha dificuldade com as legendas. Hoje a audiodescrição trouxe o mundo das imagens para o mundo dos cegos, fazendo uma inserção cultural eliminando uma lacuna que nos isolava e reduzia nossas opções de participação na vida em sociedade.

Criei um site que contém um projeto social, que relaciona a oito bibliotecas brasileiras conveniadas que recebem os filmes prontos. Também disponibiliza o canal de vídeos e filmes e faz o contato com o trabalho voluntário, necessário para a sua continuidade.

Na sociedade de hoje o volume de informações visuais é imenso. Depois da minha experiência de vida, participar desse processo de disponibilização da cultura, lazer e educação, é realmente gratificante.
Além de dar oportunidade de entendimento dessas obras, por meio da acessibilidade, estou impactando positivamente a vida de um grande número de pessoas que têm deficiência visual.


(1) A partir de 1º de julho de 2011 foi instituída no Brasil a obrigatoriedade de pelo menos duas horas semanais de conteúdo com audiodescrição para as emissoras com sinal aberto e transmissão digital, na condição de faixa de áudio adicional. (Wikipedia)

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Uma pessoa, muitos personagens, múltiplos interesses. Escrever é dividir o que vivo. Escrever me faz sentir viva.

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