Acredite, Essa Dor Passa

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Dia 19 de dezembro foi o dia da minha última consulta na terapia do ano de 2018. Faço acompanhamento psicológico desde 2016, mas esse ano as consultas foram intensificadas devido a inserção de um tratamento psiquiátrico que teve inicio no começo do ano passado.

Nestas consultas na terapia, o roteiro comum é conversar sobre os fatos e acontecimentos mais recentes da minha vida e analisar como me senti de acordo com cada situação. Na última consulta antes das festas, porém, saímos um pouco do script, e a doutora me pediu para que fizesse uma retrospectiva sobre os acontecimentos desse ano.

No começo do ano passei por alguns episódios bem intensos. A ansiedade e depressão foram mais presentes do que nunca e devido a toda a pressão de relacionamentos, trabalho, faculdade, família e afins, eu cedi ao pânico. Minhas mãos não abriam, meu corpo era rígido como uma pedra e foi necessário uma injeção de calmante em dose cavalar para que eu conseguisse sair daquele estado. Após esse episódio, segui a recomendação que minha terapeuta vinha dando há algumas semanas e fui atrás de um tratamento medicinal para meus problemas.

A partir de então, passei praticamente todo o ano de 2018 seguindo duas terapias. Semanalmente eu frequentava a psicologa para refletir e compreender melhor as sensações e pensamentos que passavam pela minha cabeça durante minha rotina e, a cada dois meses, retornava para a psiquiatra onde, além de conversarmos sobre questões sociais (creio que a doutora siga uma vertente da psicologia social), eu recebia a receita dos meus medicamentos: um ansiolítico que custava R$190,00 e um antidepressivo manipulado.

Não foi fácil. No inicio do tratamento o pânico ainda me dominava muitas vezes. Minha namorada chegou a presenciar um episódio onde eu me espancava debaixo do chuveiro. Ela ficou dentro do banheiro até eu terminar o banho e me colocou para dormir. Além disso, houveram muitos episódios de profunda tristeza e choro. Minha produção literária na época se resumia a poemas pessimistas e depressivos sobre como sentia aquela dor. Em um deles, escrevi:

“E o dia não parece mais colorido
E a noite não parece mais provocante
E a tarde não parece mais sábia
E o crepúsculo não é mais tão grande
E a garota de sábado não liga mais pra ti
E os estudos não me ajudaram em nada até aqui
E a tristeza se instalou em meu redor
E a desesperança esqueceu o amor
Ela pegou esse lugar vazio então
Colocou, sobre o leito, o terror.”

A dor sempre me levava de volta para o mesmo lugar, o dia no qual fui parar no hospital. Me lembrava como eu tinha perdido as forças e me lembrava como meu corpo inteiro doía, mesmo sem machucado nenhum. Eram as lanças invisíveis que atravessavam meu corpo e me dilaceravam por dentro.

Mas aos poucos as coisas foram mudando. No processo, houveram três vias de ataque à depressão e ansiedade. Os medicamentos me ajudavam no sentido químico, equilibrando meus hormônios, regulando melhor meu sono e controlando um pouco mais as substâncias que alteram o humor no nosso cérebro; As conversas na psiquiatra me ajudavam no âmbito social, faziam eu me enxergar como um ser que vive em sociedade e, ao contrário de me deixar em um estado neutro e sem preocupações, me transformaram em um ser crítico; E, continuando o tratamento com a psicóloga, analisávamos como o medicamento me ajudava no dia-a-dia enquanto a doutora me oferecia técnicas para manter o meu autocontrole diante as situações.

Enquanto eu começava a lidar com minha depressão e ansiedade, vendo-as através de uma perspectiva diferente, não como uma doença incurável mas como algo passageiro, comecei a refletir sobre minha própria mente. Senti-me confiante como não me sentia há anos e tal confiança me levou a voltar a escrever textos mais longos e críticos. Assim, enquanto tratava minha mente, relatava de forma metafórica o processo. O resultado foi um livro.

Cada vez que eu melhorava, ficando mais confiante e seguro, mais acreditava que precisava compartilhar esse relato com pessoas que estivessem passando pelo mesmo. Comecei a me enxergar de forma diferente, comecei a transformar o hobby da escrita em uma carreira profissional. Consegui entrar em contato com uma editora que se interessou pela minha história. O livro será publicado em 2019 e isso é um passo enorme para um escritor iniciante.

A maré na qual os tratamentos me ajudaram a entrar me impulsionou para correr atrás dos meus sonhos. Foi assim que, com confiança e segurança, me candidatei para várias oportunidades. A New Order, por exemplo, foi algo que só tive coragem de ir atrás devido a todo o acompanhamento pelo qual passava. Talvez, se eu não tivesse buscado ajuda, jamais estaria aqui, relatando meu 2018 para vocês.

Claro que não foi apenas um mar de rosas. Principalmente no final do ano, devido a pressão do final da faculdade, com provas e TCC, passei por momentos de extremo nervosismo que chegaram a brincar com o pânico, igualzinho ao começo de 2018. Porém, devido a tudo que tinha aprendido com o passar do ano, não fui parar no hospital dessa vez. Isso foi uma vitória enorme, pois fez eu reconhecer que estava no controle dessa vez. Minha mente, meus sentimentos, me pertenciam novamente.

Na minha última consulta com a psiquiatra, chegamos a conclusão de cortar o ansiolítico, deixando apenas o antidepressivo no tratamento. Isso foi mais do que apenas um corte nos meus gastos, foi ganhar uma batalha na qual lutei o ano inteiro. Tanto a psiquiatra quanto a psicóloga preveem uma conclusão nos tratamentos durante o ano de 2019. Pensar nessa possibilidade faz com que lágrimas venham ao meu rosto só de pensar que consegui vencer o maior inimigo da minha vida: eu mesmo.

Depressão. Ansiedade. Pânico. Tabus em nossa sociedade que devem ser tratados com maior atenção. Minha visão dessas questões mudou muito no decorrer de um ano. Algo que em janeiro parecia para mim tão incurável, hoje parece tão tratável quanto uma gripe: algo que podemos resolver tomando as medidas certas, as vezes recorrendo a medicamentos, mas que tem cura.

Dentro de alguns minutos vou para a minha primeira consulta desse ano. Se ano passado eu estava chorando ao entrar naquela sala, hoje entro de cabeça erguida e sorriso no rosto. Entro com esperanças de uma vida melhor, de um futuro melhor apesar das diversidades. Entro como um homem que sarou da gripe e que está pronto para viajar novamente.

Se você está passando por isso, eu estou aqui para te dizer: você consegue. Você tem solução. Você é amado. Você tem valor e talentos. Você é importante para a sociedade. Você é importante para mim, pois quanto mais pessoas superarem isso, melhor nossa sociedade como um todo será.

Acredite, essa dor passa. O sol brilha no céu todo dia.

Assim como nós.