“Schrödinger’s Cat”. Por Ragged Anarchist.

Adeus ao gato de Schrödinger

Sobre abrir a caixa e dar fim ao paradoxo brasileiro


A votação que aconteceu ontem (17) na Câmara dos Deputados me ensinou muito sobre mecânica quântica. Mais do que sobre política.

Política, aliás, é uma coisa que vem se tornando cada vez mais obscura pra mim, e digo isso por conta tanto dos discursos que aturei a cada voto dado quanto dos sons que explodiram nas casas dos meus vizinhos logo depois que o placar da disputa se consolidou.

Nesse sentido, começo a notar que o Brasil é o gato de Schrödinger.

Se você nunca ouviu falar no termo, eu ajudo: em 1935, o físico austríaco Erwin Schrödinger propôs um experimento mental sobre um gato que, colocado numa caixa fechada e ao lado de um frasco de veneno, encontra-se ao mesmo tempo vivo e morto, num paradoxo que se mantém até que um observador possa abrir o recipiente e constatar seu estado real. Em suma, o que o cientista queria demonstrar é que seria impossível testemunharmos mecanismos quânticos sem que a nossa interferência os arruinasse completamente.

Deixando de lado os motivos específicos de Erwin na criação de seu experimento, afirmo sem sombra de dúvidas que a transmissão de ontem me permitiu abrir a caixa e arruinar o paradoxo que definia boa parte da política do país, aquela que sempre me pareceu, simultaneamente, viva e morta.

E o cheiro que saiu de dentro dela quase me fez vomitar.

Pois a verdade é que nunca tive acesso tão direto à Câmara dos Deputados. Jamais pude ver e, sobretudo, ouvir todos aqueles que diariamente tomam muitas das principais decisões de minha vida. Sempre acobertada por notícias que flutuam como panfletos e pontos que são batidos como estratégia de camuflagem, a Câmara, no dia de ontem, se apresentou a mim como a caixa que durante muito tempo permaneceu lacrada.

E não digo isso porque compactuo com as escolhas feitas pelo governo atual durante sua fraca gestão ou por simpatizar com as absurdas opiniões de quem nem sequer cogita o povo ao defender “família” e “Deus”. Longe disso. Digo porque é desesperador saber que meus líderes representam aquilo que de mais baixo os votos que dei poderiam eleger.

De discursos exaltando torturadores a “homens de família” criticando a ausência de uma mulher em plena licença-maternidade, pouco se falou sobre as tais pedaladas fiscais de Dilma Rousseff. Ora, não era para isso que eu estava ali, atônito e petrificado pela pobre retórica de quem deveria articular como um professor? Aliás, testemunhar a oratória de grande parte dos votantes era me contorcer na cadeira por conta da inexperiência de quem nunca se preocupou muito em falar diretamente com o povo.

E aí a política brasileira, nosso gato de Schrödinger, se viu reduzida a justificativas motivadas por quem vê o mundo como um imenso umbigo que se projeta da própria barriga. “Pelo meu neto, voto SIM!”; “pela minha família, voto NÃO!”; “por um Estado que jamais será laico, voto FODA-SE!”.

Mas… e pelo povo?

Bom, a julgar pelo que vi ontem, não sobrou nem mesmo a incerteza envolvendo morte e vida — aquela ilusão que, apesar de errônea, me dava um pouco de esperança. Ao abrir os olhos e observar o bichano da dúvida, me vi acoado pela iminente garantia de um Brasil em decomposição. E creio não haver maneira melhor de falar sobre corpos e ideais perecíveis do que através da imagem abaixo, frequentemente esquecida por uma população fascinada por confetes, frases de efeito e ignorância.

Algumas das vítimas oficiais do Regime Militar no Brasil. Saiba mais aqui.
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