As estratégias de silenciamento do machismo contemporâneo

Fernanda Turino
Jul 19 · 3 min read
Descrição da imagem: Uma foto em preto e branco mostra uma mulher branca fazendo o gesto de silêncio com o dedo indicador na boca e com a boca coberta por dois esparadrapos em X. Foto de Kat Jayne Pexels

Existe um espécime muito comum da fauna masculina contemporânea, quiçá talvez o mais comum de todos: o homem-que-odeia-generalizações-e-quer-tirar-o-dele-da-reta. Quase toda mulher que escreve ou acompanha textos feministas na internet já esbarrou com um desses por ai na rede — ou até mesmo na vida real, mas eles são mais encontrados mesmo no mundo virtual— ao ler comentários em algum post ou texto que de alguma forma generalize o comportamento masculino machista.

Esse é o ambiente que favorece o aparecimento do homem-que-odeia-generalizações-e-quer-tirar-o-dele-da-reta e em geral ele pode ser reconhecido pelo seu comportamento quase sempre previsível e padronizado ao comentar: Ah, mas nem todo homem! Algo que representa muito bem o machista contemporâneo, que finge ser a favor da igualdade de gênero, mas que na verdade está mais interessado em mostrar que não é machista do que em verdadeiramente não sê-lo ou que não está realmente disposto a dar voz para as mulheres.

A verdade é que o homem que revê seus comportamentos machistas e que coloca em prática mudanças que favoreçam a igualdade de gênero não está fazendo nada mais do que sua obrigação e não merece biscoito. Se um cara está realmente interessado em lutar contra o machismo e as formas de opressão contra a mulher, não vai se preocupar em dizer que não repete comportamentos que diminuem ou violentam as mulheres, vai estar mais preocupado mesmo em fazer e não vai ficar buscando os louros da vitória por algo que não é nada mais que sua obrigação como ser humano que acredita na igualdade de gênero.

Esse tipo de reclamação não é nada mais que uma forma de silenciar o discurso feminista ao desviar a atenção do que realmente importa: a mensagem. Uma tática muito mais sutil do machismo contemporâneo, que só por não falar mais que “lugar de mulher é na cozinha” se acha super desconstruidão. É como matar o mensageiro porque não gosta da mensagem e assim silenciar e deslegitimar toda e qualquer mulher que o incomode sem ao menos dizer nenhuma ofensa a ela. Uma tática perigosa justamente pela sua sutileza.

Além disso, muitos reclamam da generalização que mulheres fazem quando colocam todos os homens no mesmo saco: desde os machistas escrotos até aqueles que estão tentando se desconstruir. Mas há de se levar em conta que homens não têm medo das mulheres assim como mulheres têm de homens. Eles não temem violência sexual cotidianamente, por exemplo. Pois nestes casos, a maioria esmagadora das vítimas é mulher e de algozes é homem. Assim, é fácil ver o motivo porque, ao andar na rua a noite, homens têm medo de assalto e mulheres de estupro.

Então não é difícil entender que, diante do medo cotidiano e das experiências já vividas, nós generalizemos os homens. Pois como vou saber que o cara que sentou ao meu lado no ônibus vazio é incapaz de matar uma planta? Ou que o homem que tá andando atrás de mim na calçada está apenas seguindo seu caminho de sempre? Vivemos em constante estado de alerta diante de homens desconhecidos, então é bem mais fácil generalizar quando queremos pontuar comportamentos machistas ou que nos oprimem do que olhar com calma e separar o joio do trigo. É uma tática de proteção.

Pensem em um quintal em que há dez cães, oito deles são bravos e irão te morder na primeira oportunidade. Já os outros dois são bonzinhos e provavelmente vão abanar o rabo e fazer festinha para os desconhecidos. Você arriscaria entrar nessa casa? Ou acharia mais sensato ter medo de todos eles e considerar todos os cães como potenciais mordedores?

Então, homem, em vez de dizer que você não tem tal atitude machista para a mulher que generaliza homens, que tal falar com seus amigos homens que têm tais atitudes que fazer essas coisas não é nada legal? Em vez de tentar silenciar a mensageira, que tal ter ouvidos atentos e dispostos a escutar o que importa: a mensagem? E também por que não canalizar sua energia para quem precisa ouvir tais mensagens? Ah, e não espere biscoito por não ser machista, ok?

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