Ainda que exaustos, resistimos

Daniel Soares
Feb 24, 2017 · 9 min read

As maiores mudanças ocorridas em todas as sociedades e em todas as épocas da humanidade são normalmente marcadas pela ação intensa de intelectuais, poetas, escritores(as), atores e atrizes, cientistas, pintores, inventores, etc., no meio em que viviam. Gênios hiperativos que, ao observarem a realidade ao seu redor, não viam outra escolha senão buscar alterá-la, cada um à sua maneira. Jamais elegiam desculpas para deixar de agir. Criar e mudar o mundo eram seu alimento. Não podiam viver sem isso.

Aproveitavam ao máximo cada momento de que dispunham. Enquanto o Sol estivesse no céu, eles, incessantemente, pesquisavam, angariavam novos conhecimentos, criticavam as noções estabelecidas, formulavam inúmeras hipóteses sobre as conclusões feitas e, em seguida, sem pudor algum, punham-se a criar, escrever, inventar, experimentar, sempre moldando as percepções de mundo de toda uma geração sem sair do quarto. Ao anoitecer — sim, ainda havia energia de sobra. Eram hiperativos, lembra? — partiam para o lado empírico da vida. Se de dia teorizavam sobre ela, à noite iam vivê-la. Afinal, o trabalho intelectual que exerciam, além de demandar bastante energia mental, tinha como condição a solidão por um período muito grande de tempo. Sendo assim, a noite era para eles um desafogo.

Interagiam com o maior número de pessoas possível para compensar a falta de contato humano à qual seus trabalhos os submetiam, trocando experiências, contando casos engraçados, relacionando-se amorosamente, etc. Neste momento evitavam falar sobre os projetos nos quais estavam trabalhando. Salvo exceções em que se conversava com alguém que poderia agregar uma ideia nova para a continuidade do trabalho, na grande maioria das vezes estes gênios hiperativos queriam apenas espairecer e falar sobre banalidades desimportantes. Podiam virar a noite apenas jogando conversa fora e ainda teriam energia suficiente para voltar a seus quartos ao amanhecer para reiniciar sua jornada.

Entretanto, se compararmos o Espírito dos artistas e intelectuais de dois séculos atrás, por exemplo, com o dos atuais, perceberemos uma diferença abismal de personalidade. Estilo de vida e ritmo de criação. Toda esta energia que os caracterizava e os estimulava a produzir incessantemente parece ter desaparecido quase que completamente. E não estou falando apenas de uma vontade qualquer— as motivações para criar e a disposição para tal ainda existem — mas daquela força irresistível que lhes deixava sem dormir, que lhes transbordava de ideias brilhantes, e que os levava a cativar a todos ao seu redor, tamanha a empolgação que demonstravam com cada projeto. Aquela energia que vemos nos filmes biográficos de artistas e intelectuais do passado, que os fazia escrever dez mil palavras, namorar três garotas diferentes (por mais que isso seja uma tremenda canalhice) e ainda sair pra dançar, tudo no mesmo dia. Isso não existe mais. Pelo menos não para todas as camadas da sociedade.

O Espírito desta geração de fazedores de arte e/ou de ciência se encontra imensamente desgastado. Quase todos eles — e quando eu digo quase, excluo desta soma a elite, que vive em mundo à parte — estão exaustos, acabados, meio deprimidos, colecionam sequentes crises existenciais, indagam-se constantemente sobre o real valor daquilo que produzem, têm dificuldades para se relacionar, entre outros problemas. O primeiro fator que podemos apontar para explicar a razão deste cansaço é a enorme diferença entre as formas com que cada geração se relacionava com o mundo e com os outros. Ou seja, o avanço da técnica promove facilidades que, além de comodidade, geram também novas cobranças e responsabilidades. Além disso, a adaptação das dinâmicas sociais e trabalhistas ao padrão de acumulação capitalista acelera, aproxima ou destrói algumas relações ao mesmo tempo em que faculta um controle maior pelo poder estabelecido sobre as pessoas comuns, seja no âmbito empresarial, seja no estatal.

O dia-a-dia do artista/intelectual do início do século XIX era relativamente tranquilo; após o despertar, tomava café, trabalhava em seus projetos por algumas horas, saía para almoçar e resolver qualquer coisa, voltava para casa, continuava seu trabalho por mais um dado período de tempo, saía para jantar e, de volta ao lar, dedicava-se a algum serviço que, porventura, lhe tivesse sido encomendado para só então, após a meia-noite, iniciar sua vida noturna. As dinâmicas sociais daquela época nem lhes permitia que fosse muito diferente. Até mesmo uma distância entre dois bairros próximos — para os parâmetros atuais — levava um longo tempo para ser percorrida. Caso precisassem se locomover para fora de seus respectivos bairros ou distritos, provavelmente, levariam um dia inteiro, e, justamente por isso, tal empreendimento era raro de se realizar.

Enquanto ainda não tivesse condições de viver às custas de sua arte ou ciência, eles buscavam ofícios simples e não muito trabalhosos, tais como traduções de textos, reportagens freelancer, revisões de relatórios, etc., apenas para que pudessem prover suas necessidades mais básicas. Tratavam-se de trabalhos fáceis e rápidos para eles, e lhes rendiam grana suficiente para café, almoço e janta, além de uns trocados para as taças de vinho noite a dentro. Isso significa que não tinham, necessariamente, de se submeter a empregos fixos em jornadas de quarenta e quatro horas semanais.

A geração atual, por outro lado, artista ou não, está impregnada do ranço meritocrático, por mais que tente se livrar dele. A pressão para que encontre um emprego “decente” é sempre muito grande, e isso envolve trabalhar por salários cada vez menores e condições progressivamente precárias. A acumulação tornou-se flexível, o que significa que o capitalismo sempre encontrará uma maneira de se moldar ao gosto do público e de absorver os valores da moda, fazendo com que todos queiram fazer parte deste grande oásis do consumo. Logo, o destaque através da preparação assume uma importância crucial para o sucesso neste sistema. Para tanto, precisam estudar, e, como a maioria não possui renda proveniente dos pais, resta-lhes trabalhar enquanto cursam a faculdade. A jornada diária desta correria facilmente ultrapassa as sessenta horas semanais, contando com o tempo gasto dentro do transporte público.

Hoje em dia percorremos mais quilômetros em um dia do que o fazíamos durante todo o mês há um ou dois séculos atrás. Porém, essa interação fugaz com o tempo e o espaço nos esmaga diariamente. A paisagem ao redor não pode ser observada pois está sempre em movimento. Não há identificação com lugar algum, pois não se passa tempo suficiente em qualquer local para isso. O tempo urge e não nos pertence mais; precisa ser utilizado pelas metas da empresa ou pela qualificação profissional, da qual só colheremos os frutos num futuro incerto. Resta-nos duas ou três horas, quando muito, para trabalharmos no que quisermos. Mas estas acabam nos servindo apenas para uma tentativa frustrada de repouso antes do reinício do processo.

A realidade é que o neoliberalismo nos abateu. Ele nos conduziu a um estilo de vida extremamente desgastante e diminuiu nossa possibilidade e/ou a nossa disposição para criar algo que desafie este sistema. Sentimo-nos derrotados justamente porque, além de sermos coagidos a viver na alienação, perdemos a voz para criticá-lo. Aquele que se atreve torna-se apenas uma gota tentando alterar a correnteza do oceano. O povo já foi conquistado pela ideologia neoliberal e todos esperam ansiosamente pelo dia em que se destacarão, e que poderão afirmar para si mesmos e para o mundo que os anos de passividade valeram a pena. O único problema desta lógica é o fato de não saberem, ou ignorarem, que é impossível existir um mundo onde todos se destaquem. Muitos têm de ficar para trás para que alguns triunfem.

A elite, que como eu disse anteriormente, não sente a mesma pressão que o cidadão comum, hoje em dia acaba produzindo a maior parte do conteúdo artístico e científico disponível. A maioria de seus expoentes reitera o sistema estabelecido e defende os privilégios de uma minoria mais rica sem nenhum pudor. Alguns outros, que podemos chamar de traidores da classe (no melhor dos sentidos), criticam este funcionamento das coisas, utilizando-se da erudição adquirida nas melhores universidades para atacar o poder. Mas, ainda que se preocupem, não abusam muito da paciência do Estado e dos capitalistas com medo de perderem as vantagens das quais desfrutam no meio burguês. Além do mais, suas boas críticas parecem vazias de sentido quando os mesmos cidadãos explorados que estão sendo defendidos manifestam seu repúdio à qualquer ideia de igualdade social. Afinal de contas, no projeto neoliberal, os primeiros a serem captados ideologicamente são os mais pobres.

Logo, fica clara a diferença entre o Espírito de artistas e intelectuais de outrora e o dos nossos. Para esta geração parece não haver outra saída senão seguir o fluxo ditado por esta estrutura. A juventude sempre sai da adolescência cheia de planos e dotada de uma energia contagiante, sonhando com um mundo melhor… Mas chegam os vinte e tantos anos, e aí tornam-se sombrios, tristes, depressivos, fatalistas, etc. Não é a toa que o Brasil seja o país com o maior índice de depressão em toda a América Latina, pois foi aqui onde o neoliberalismo mais “deu certo”. Sonhos são quebrados e vozes são caladas todos os dias. As pessoas vivem amedrontadas e inseguras, e sua expectativa de melhoria de vida é a mais baixa possível.

Neste quadro de coisas torna-se improvável que surjam, na mesma frequência de outros tempos, artistas e intelectuais de qualidade (e mesmo sem qualidade) entre as camadas médias e pobres da população. Eles(as) encontram-se constantemente sufocados por exigências externas, seja da família, do Estado ou mesmo de pessoas desconhecidas. A sociedade quer que eles se integrem no sistema de acumulação — o qual acumula dinheiro apenas para quem já tem o bastante — e sigam nele sem desvios anômicos. A força irresistível que impulsionava aqueles que possuíam enorme potencial para mudar o mundo arrefece na medida em que as novas dinâmicas sociais os oprimem. A criação original passa a ser cada vez mais frívola e escassa entre a massa. Trata-se de uma geração de derrotados.

Contudo, nossos corpos e espíritos podem até estar fatigados com o excesso de trabalho, e nossas mentes podem até estar meio atrofiadas com a inatividade intelectual, mas ainda assim existem alguns de nós que resistem. Alguns gatos pingados que se recusam a capitular perante esta poderosa coerção e que, embora não sejamos os mesmos jovens radiantes que um dia já fomos ou os gênios hiperativos que antigamente formavam a vanguarda do progresso intelectual, ainda permanecemos criando arte e/ou fazendo ciência. O cansaço, o desgaste, a depressão, o pessimismo, a neurose já fazem parte de nós. O mundo estampou, talvez de maneira irreversível, esta sombra em nossa face, porém isso não vai necessariamente nos parar. Continuamos criando, mesmo que em pouca quantidade e pouca frequência — quando dá tempo e quando há alguma energia — , lançando pequenos protestos em forma de poemas, pesquisas, contos, artigos, canções e pinturas, expondo nossas interpretações do mundo para que, de alguma sorte, consigamos fazer a almejada diferença.

Portanto, temos um recado para estes que acreditam ter nos vencido: estamos exaustos, mas ainda estamos de pé.

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Daniel Soares

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Escritor (literato), idealista, cientista social, filósofo espírita, educador e amante das artes. Contato: danielintrouble@icloud.com

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