Alcançar a felicidade é um processo dolorido

Porque para voar, é preciso sair do casulo

Imagem: Timo Vijn — Unsplash

A felicidade é um dos bens mais cobiçados. Chego a crer que, não fosse pela nossa ânsia em atingir esse estado de total elevação do humor, a publicidade não existiria. Para que comprar algo, se este objeto não preencherá meus vazios com as cores da felicidade? Se não me trará os mais largos e cintilantes sorrisos?

Ela é vendida nos comerciais, nos guias de estilo de vida, nas clínicas de estética, nas araras de roupas e prateleiras das grandes lojas de departamento. Exposta em caixinhas brilhantes com preços de dois, três, mil dígitos. Quanto mais alto o preço, mais feliz você será.

Ah, como seria bom se fosse assim tão fácil. Se a felicidade dependesse do dinheiro que dispomos para comprá-la, não haveria uma pessoa rica e infeliz nesse mundo. Dinheiro não compra felicidade, mas manda buscar, dizem por aí. Tenho lá minhas dúvidas. Nunca fui feliz por causa do dinheiro, e talvez eu não esteja sozinha nesse modo de pensar.

Claro, é um privilégio enorme ter condições de viver de forma confortável, aproveitar os prazeres, bons lugares, boas companhias. Uma vida gourmet, digamos assim. E, embora isso pareça a epítome do ser feliz na era do Instagram, das selfies e da ostentação de experiências — e apesar de esses subterfúgios nos causarem contentamento por alguns instantes — a pergunta crucial é: você está feliz quando não tem nada disso?

No meu entendimento, é essa a chave do quebra-cabeças que temos que completar para alcançar esta dádiva. Para respirar fundo, olhar para si e para o espelho do mundo com suavidade e orgulho, dizendo: sou feliz. Sem artifícios.

A gente cresce pensando que a felicidade é algo que se pode tocar, que vem embalada em celofane e glitter. Que os sorrisos são indicadores da nossa saúde mental, do estado de alegria, contentamento e harmonia em que nos encontramos. Mas os sorrisos podem ser máscaras, o desespero de uma alma cansada, um esforço quase vão de se mostrar para o mundo como alguém que está tentando.

Como a borboleta que se agita dentro do casulo para poder se ver livre das amarras do passado, vivemos com o peito em ebulição. O espírito, indomável e sempre buscando novas paragens, tenta se desvencilhar da matéria e chegar aonde precisa.

Estamos todos nesse processo. E é algo caótico.

E mesmo quando estamos trabalhando o máximo para demonstrar, para o mundo e a nós mesmos, que seguimos na luta, nem sempre os sorrisos são fáceis. Isso não deveria ser problema algum, porque a tristeza não é, necessariamente, o contrário da felicidade. Você pode ser feliz, no balanço geral, e chorar quando a dor for grande demais. Gritar quando o coração pedir.

No fundo, o importante é saber reconhecer os gatilhos que nos direcionam aos lugares sombrios da nossa mente, e evitá-los ao máximo. Ao mesmo tempo, é crucial termos plena convicção daquilo que nos proporciona encarar o peso da existência com um sorriso no rosto.

Pois não se engane: ser feliz não significa a ausência de todo o sofrimento.

Se eu não sei o que me faz feliz, como posso tentar alcançar a felicidade?

Pois é. O autoconhecimento é a nossa arma mais poderosa. Sem saber quem eu sou, como posso saber do que gosto, ou do que me faz feliz, de fato? Sem mergulhar no mais profundo da minha essência e transformar o que for necessário, como posso olhar para a minha realidade e dizer: sou feliz?

Somos tão únicos e diversos, cada qual com seus ideais de vida, seus objetivos. O que se aplica a você e te move pode ser algo totalmente irrelevante para mim. É impossível massificar ou coisificar a plenitude.

É nesse processo de autodescoberta que nos encontramos como seres capazes de chorar, de sentir dor, sem o pensamento obscuro de que se estou triste, sou infeliz. Precisamos reconhecer a importância desses sentimentos para a conquista da felicidade.

Buscar o autoconhecimento é como cavar um solo seco com as mãos, procurando água, até as unhas sangrarem. Vai ser preciso sangrar sim, talvez não muito, e um dia o sangue estanca, fazendo surgir uma pele firme e resistente.

Nesse caminho rumo a felicidade, somos todos meras lagartas, com medo de nos transformarmos em uma mariposa grande demais, repugnante. Há que se ter coragem para romper o casulo, sair da zona de conforto das certezas que não se aplicam a nós, parar de seguir caminhos que não nos completam, renascendo com asas fortes, que nos ajudam a vislumbrar a vida de cima, perto do sol. Onde tudo é quente e iluminado. Onde há vida.