“Dreams”, por Carolina Infanger, ou um quadro sobre coisas que eu senti.

Amor líquido, sólido e gasoso.

Quanto tempo você leva de casa para o trabalho e do trabalho para casa, em quanto tempo você toma banho, com qual frequência você deseja bom dia para alguém e por que é tão importante acelerar tudo? 
Uma das coisas que eu mais odeio na modernidade é a noção de tempo. Nós andamos mais rápido, comemos mais rápido, consumimos mais rápido e nós nos relacionamos mais rápido.
Nós nos entediamos mais rápido também.
E nós descartamos lixo, descartamos oportunidades, descartamos momentos e descartamos pessoas.
Nós não pensamos na vida útil do plástico, nem do canudo, nem do trabalho, nem da quantidade de açúcar na veia, nem da nossa mãe, nem daquele carinha bonitinho do bar. Nós não pensamos na nossa vida útil.
Se você lê meus textos há um bom tempo, já sabe que um dos grandes sentimentos de conforto que a vida me proporciona é a ideia de prazo de validade — e que descobri que é a ideia do vazio, te conto mais outro dia —, a ideia de que todos seus medos, problemas e dores de barriga possuem um prazo e todos irão embora um dia e serão só um punhado de histórias.
Mas a gente tem prazo de validade também.
E, por isso, eu te pergunto: por que a gente aceita a modernidade líquida? O amor líquido, a vida líquida.
Pra te perguntar isso, antes eu preciso te explicar sobre.
Temos a definição de modernidade líquida dada por Zygmunt Bauman, sendo um mundo de constantes mudanças, frágil e não-duradouro. Um mundo sem comprometimento, vínculos e laços. O amor líquido infiltra na mesma linha de pensamento, porém no quesito amoroso.

Quais fatores nos levam ao mundo líquido?

Pensamos como pequenos hamsters correndo numa rodinha. Não sabemos o porquê de estarmos correndo, nem o que de proveitoso isso trará, nem se há um destino, nem quanto tempo permaneceremos naquele looping
Só corremos porque alguém nos colocou ali, então algum propósito isso deve ter.
Não tem.
Nós seguimos expectativas externas e criamos paranoias para suprir vontades externas, seja de uma família, de uma amizade, de um relacionamento, de um Estado ou de um capital. Corremos por vontade dos outros.

E o que de ruim acontece quando corremos tanto, com tanta pressão e sem entender absolutamente nada?

Nós nos tornamos líquidos.
A cada coisa que nos consome nós nos esquecemos de consumir outra mais importante.
Deixamos nossos medos, inseguranças e pesadelos guardados numa caixinha intocável e acreditamos que isso será benéfico.
Quantas vezes você já teve uma vontade louca e a reprimiu? E quantas vezes você percebeu isso? 
Quantas vezes você realmente aproveitou uma companhia que teve? Como se só ela bastasse. Quantas vezes você percebeu que o outro é um vasto e lindo Universo, totalmente diferente do teu? Com outras cores, outros medos, outros amores, outra família, outra idade, outro signo. Quantas vezes você pensou o quão importante é alguém? E quanto tempo você dedicou a essa pessoa?

Mas, numa modernidade líquida, seria a solidificação a solução para tudo?

Não.
Precisamos entender algumas coisas antes. O jeito que fomos estruturados a lidar com tudo e a quebra disso.
Um dos grandes culpados pelo jeito que nós nos relacionamos de “forma sólida” é o movimento romantista do século XVIII, em que o amor deveria ser o centro da nossa vida e o resto estava girando ao seu redor.
Em que a ideia de um amor não-correspondido era ligada à ideia de morte.
Sendo assim, tivemos uma estrutura possessiva e que dava ao outro total controle sobre nós.
E não é nem o amor líquido e nem o amor romântico que indicam algum tipo de harmonia, muito pelo contrário.
Um amor onde o outro tanto faz versus um amor onde você tanto faz.
Nosso equilíbrio não é nem sólido, nem líquido e nem gasoso/de vapor (acredito que o gasoso seria um amor que se infiltra por tudo, se mistura a tudo e não tem identidade alguma, uma hora se dissipa e nós nem percebemos).
Nosso equilíbrio é um estado em que já fomos esses três. Podemos chamá-lo de Estado Real, tendo noção de que não existe uma totalidade para um Estado Ideal.
O que existe somos nós. 
Nosso próprio Universo feito de histórias próprias, amores, decepções e percepções de presente. 
No nosso Estado Real, nós já nos percebemos e entendemos que já fomos sólidos, líquidos e gasosos e hoje somos um Estado só nosso, da mais plena consciência. 
Nós temos a liquidez para tornar as coisas fluidas, a solidificação de torná-las duradouras e o vapor para torná-las leves. Além da percepção de nós como o Universo e o outro como outro Universo incrível e que leva tempo e muito amor para ser compreendido e aceito. 
Sendo assim, entendo a crítica de Bauman sobre as relações líquidas, porém não acredito que chegaremos a uma plenitude sendo um estado só, seja este líquido, sólido ou gasoso. A plenitude é formada por todos os estados da forma em que você os interpretar e vivenciar. Seu Estado Real não estará estampado em nenhum livro de filosofia ou psicologia, porque o seu Estado é só e unicamente entendido, interpretado e vivenciado por você.

Serge Gainsbourg, em interpretação da canção intitulada: “La chanson de Prévert” (1962)