Como testar se você é capaz de cumprir as promessas de Ano Novo

Foto: mickrh

Todo fim de ano nos desperta uma série de emoções ligadas a fatos positivos, negativos, o que realizamos ou deixamos pra lá. É uma época basicamente melancólica para a maioria das pessoas, em especial para aquelas que não cumpriram o que prometeram a si mesmas 365 dias atrás. Dizem que costumamos superestimar o que podemos fazer em um ano e subestimar o que somos capazes de construir em dez. Daí o peso na consciência e a sensação de tristeza, em muitíssimos casos.

Em um mundo ultraconectado, onde acompanhamos gerações nascerem, crescerem, reproduzirem-se e morrerem, a sensação do “tempo achatado” fica ainda mais evidente, causando ansiedade e o sentimento de impotência. É por isso que “ser produtivo” está cada vez mais em evidência, e o não aproveitamento eficaz da nossa timeline de vida causa muito mais remorso nos dias atuais.

Os lifehacks descritos abaixo não são as soluções de todos os seus problemas, mas excelentes formas de testar a mente para as “vicissitudes” que fatalmente virão. Você provavelmente não vai resistir a alguns. Ou a nenhum. A ideia é tentar, aplicando-os por breves períodos.

  1. Fazer pedidos impossíveis. Jia Jiang é um empreendedor chinês com um humor bastante peculiar (sim, você vai rir), que fez um TED sobre o tema: “O que aprendi com 100 dias de rejeição.”. O objetivo dele era experimentar inúmeras formas e graus de rejeição, num certo tipo de Terapia Cognitivo Comportamental self-made, para usar a resistência e resiliência mental adquirida em suas negociações financeiras. Algumas de suas descobertas foram, no mínimo, hilárias. Se uma de suas metas para 2017 depende de coragem, vale assistir.
  2. Vocalizar “muito prazer” mais vezes. A talentosa Kio Stark deu uma palestra aqui sobre a importância de se falar com estranhos. O estupendo Tim Ferriss concorda. Segundo Stark, além de uma série de benefícios, conversar com gente desconhecida nos ensina a ter uma comunicação muito melhor com quem já conhecemos. Tem muito de PNL nisso. Há gente na sua meta? Assista.
  3. Exercitar a escuta radical. Todo mundo sabe que ser uma pessoa empática não é fácil, embora seja simples. Brené Brown já falou sobre isso, incluindo seu famoso TED, livros e um vídeo no Youtube aqui. Outra pessoa que tem um conteúdo muito bom sobre o assunto é o filósofo social Roman Krznaric. Para dominar as nuances da empatia é preciso treino, mas há uma coisa que podemos fazer para sermos automaticamente mais empáticos (fora sorrir): escutar com atenção. Faça isso com aquela pessoa que você sabe que vai falar demais. E resista.
  4. Cortar o açúcar industrializado. A ideia é resistir à produção rápida de dopamina. Não sucumbir aos prazeres imediatos. Não cair nas tentações. Você pode ler uma boa reportagem sobre isso aqui. Vale para outras dietas e minimização de vícios. O foco é “não ser escravo das suas vontades”, ou: “saber escolher entre aquilo que você quer AGORA e aquilo que você quer MAIS”. Geralmente, nossas vontades (e a procrastinação) estão ligadas a auto-indulgências (prazeres) e, nossos propósitos (metas), são relacionados a sacrifícios (esforço diligente). Portanto, quanto mais preparado mentalmente para resistir ao “deleite fulminante”, mais apto você estará para alcançar um objetivo mais ousado.
  5. Viajar apenas com a mala de mão. Tenho amigos que viajam 180 dias por ano sem aumentar o stuff. Outro, que já fez um cruzeiro de 8 dias e, sua bagagem, cabia em um saquinho de compras de supermercado. Fiz minha primeira experiência de viajar apenas com a bagagem de mão ano passado, em um roteiro internacional de 10 dias. Em situações assim a gente exercita o foco, o desapego e o aumento dos limites de nossa zona de conforto. Afinal, se você é capaz de sair de casa apenas com aquilo que é realmente necessário, mantendo o bem-estar, você sabe distinguir o essencial da perfumaria nos seus objetivos. Cinco dias de viagem a trabalho pra Manhattan não vale. Teste é fazer isso em Miami. Ainda sobre arrumação (e foco), leia as dicas da japinha fofa Marie Kondo, aqui.
  6. Questionar suas vontades agressivamente. Este item é talvez um dos mais importantes, especialmente para pessoas que desejam aumentar seu nível de autoconsciência. Você pode usar o questionamento socrático, o metamodelo de linguagem ou a técnica dos 5 porquês, criada com o modelo Lean de produção. A mais simples e rápida é esta última, que funciona basicamente com perguntas sequenciais para se descobrir a causa de um problema (vontade ou sentimento ruim, por exemplo). No começo é preciso exercitar a mente para evitar “desculpas”, pois sempre haverá um motivo plausível para cada situação, e a função do questionamento é descobrí-lo. Uma semana de perguntas aumenta muito o nível de autopercepção — e de mudança consciente.
  7. Decorar os nomes das pessoas. Tenho uma amiga na academia que sabe o nome de todo mundo. Ela conversa com todos, dá atenção, sorri. Como se não bastasse, é bonita. Eu acredito que ela tenha dois tipos de público: fãs e invejosas. Fora os marmanjos, ineptos, que confundem simpatia com flerte. Confesso que faço parte dos fãs: ela provavelmente “decorou” meu nome de primeira e, pra reforçar o carisma, ainda me chama, algumas vezes, pelo diminutivo. É muita fofurice pra uma pessoa só, naquele tipo de ambiente. Tem como não gostar de alguém assim? Todo mundo é capaz disso, dá um look aqui.
  8. Interagir com seu inimigo, sem brigar. Outro dia dei carona pra uma menina que tinha opinião política diferente da minha. Só que era um trajeto de três horas. A conversa não desandou em nenhum momento, e conseguimos aprender um com o outro como eu nunca havia imaginado fazer com alguém radical como ela (pode ser que ela se considere moderada e me ache radical). Mas o fato é: se você consegue conversar e aprender com gente de mindset tão oposto ao seu, é capaz de muita coisa. Mas caso a conversa esquente, nada como o bom humor pra salvar a essência da vida, que são as boas relações.
  9. Fazer tudo como se estivesse em público. Isto é especialmente interessante. Só que difícil. Tente imaginar a pessoa mais importante (ou a que mais gosta/ama) da sua vida. Agora comporte-se, em todos os momentos, como se essa pessoa estivesse te observando. Mesmo em casa, só. Faça de conta que está sempre em público, só que não no Big Brother, mas com uma audiência que realmente te importa. Você se comportaria diferente? Provavelmente sim. É possível que você consiga manter esse bom comportamento consciente por muito tempo? Provavelmente não. Como na Física, o olho do observador altera o observado e, neste caso, quanto mais tempo durar, melhor pra você.

Há inúmeras coisas que podemos fazer para ter um novo ano realmente inédito, e melhor. Para construir um futuro essencialmente comemorativo sobre o quanto evoluímos em cada período. E o que eu desejo é que, a cada fim de ciclo, quando você se deparar, novamente, com este questionamento nietzschiano, a resposta seja sim.