Ansiedade nos tempos de like

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Arrisco dizer que todos temos problemas de saúde mental. Acho impossível um ser humano sobreviver nesse mundo tão louco sem um “disturbiozinho” que seja.

Eu mesmo, recentemente, descobri-me um enfermo de transtorno misto ansioso e depressivo. A depressão consegui praticamente controlar, mas a ansiedade, mesmo longe do grau paralisante de antes, ainda hoje me atormenta.

Como uma boa ansiedade, não tem muito como saber sempre exatamente de onde ela vem. Uma notícia infeliz, um problema no trabalho, uma dívida grande e até uma xícara de café a mais: tudo pode ser gatilho para ela surgir. Com a terapia a gente vai aprendendo sobre a doença e acaba percebendo alguns deles, mas não todos. Acho que nunca conseguirei identificar todos os gatilhos.

Não sou médico e, portanto, não posso afirmar que haja uma ligação direta, mas tenho comigo que os bilhões de fotos do Instagram vistos por dia e as inúteis discussões de Facebook/Whatsapp ajudam a dar o start ansioso. E não só em mim.

Uma vez li uma reportagem que, cientistas sei lá de onde afirmavam que receber um like numa rede social ativa uma região cerebral, liberando dopamina e provocando um prazer semelhante ao orgasmo, que vicia a querer mais e gera frustração quando não correspondido. Bom, o que os experts queriam dizer é o que a cada dia parece mais óbvio: as redes sociais tem um enorme poder sobre nosso corpo e vida.

Sempre que me lembro disso, sinto-me como um ratinho de laboratório, presinho nessa gaiola com touch screen, enquanto uma máquina me testa e vê os cifrões estalarem na registradora da empresa a cada click meu.

A percepção dos danos à saúde mental causados pelas redes sociais tem sido cada vez mais discutida e repensada, tanto é que o “detox digital” vem virando moda. Dar um tempo de vigiar a vida do seu amiguinho no feed ou abandonar a mania daquele sextou toda semana no stories pode ser melhor do que parece.

Ainda não consegui abandonar as redes sociais, mas tenho me dado conta do tempo que perco nelas. Aliás, sabe aquela culpa por estar grudado horas e horas no celular e mesmo assim não largar? Pois é, tem me ocorrido bastante. Isso me lembra muito aquele pedaço de bolo às duas da madrugada em que você sabe que é errado, mas em nenhum momento freia o movimento de sua mãozinha até a porta da geladeira, e aí você retira aquele laminado e… pronto, tá feito o estrago! No fim, todo o doce vai embora e você fica remoendo um arrependimento amargo logo de manhã.

O tempo. Além de roubar horas do teu dia que poderiam ser usadas para ler um livro, praticar um esporte, aprender uma nova língua ou mesmo assistir mais episódios de uma série estúpida, tenho comigo que o vício em redes sociais fez acabar com o tédio. Sim, é sério. A rede social ao alcance da mão nos tirou todo aquele tempo de espera tediosa, seja na fila de banco, no ônibus, na antessala do consultório. Não se lê mais aquela entrevista canastrona de Caras de três meses atrás com a socialite de chihuahua no colo enquanto se ouve de longe o barulhinho do dentista. Agora a gente “gasta” o tempo apertando a telinha em vídeos de quinze segundos, acompanhando o novo pacote que a web-celebridade acabou de receber em casa. Patético.

Eu acho que a gente fica mais burro quando não respeita esse tempo do nada, do tédio criativo, da simples observação e contemplação. Ocupar sempre nossa cabeça com essas futilidades tolas de redes sociais nos tira o que temos de melhor como seres humanos, o poder de desenvolver pensamentos e ideias. Seja sincero caro leitor, quando foi a última vez que você parou para simplesmente pensar? Faz tempo, não é mesmo? Atento nisso, eu tenho tentado usar mais desse tempo de nada, de tédio, para não receber nenhuma nova informação frívola e apenas contemplar uma mãe atravessando a rua com o filho pequeno, ouvir uma discussão entre desconhecidos no ônibus ou divagar sobre a situação sócio-política do país.

Não sei se tem dado algum efeito, mas tenho me sentido menos ansioso e de quebra ainda tenho umas ideias bem malucas, como a de fazer este texto.

Ps.: Se você sofre de ansiedade, procure ajuda profissional. Isso pode te salvar assim como me salvou.