Aos motoristas que vivem (eternamente) sozinhos em seus carros

(Ou porque os motoristas deviam dar uma chance aos ônibus e outros meios de transporte)

Ei você, motorista do carro ao lado. Te olho daqui do vidro do ônibus no qual estou. Diferente de você, no banco ao meu lado, há alguém. Já do seu lado, há um vazio. Por isso mesmo, consigo te ver, mesmo você estando do lado oposto de mim em seu carro. No banco de trás, só consigo ver o vazio também. De lá, portanto, também consigo te enxergar. Atrás de mim, ao contrário, há duas pessoas. Se você der uma viradinha e me olhar daí, verá que eu estarei perdido no meio de muitas pessoas que compartilham o mesmo meio de transporte.

Estamos assim desse jeito: você no seu mundo e eu no meu. Cada um separado do outro por uma fina janela, a qual, contudo, separa mundos grandes e completamente diferentes.

Eu até entendo que você prefira o conforto. Prefere estar no seu carro sozinho, sem pessoas ao seu lado e sem correr o risco de, às vezes, ter que fazer o percurso todo em pé. O que eu não entendo, contudo, é porque esse espaço ao seu lado está sempre vazio. E os dos bancos de trás também. Hoje, amanhã, depois de amanhã. Esse ano e o ano que vem. E entendo menos ainda porque há tantos “você” pelas vias de São Paulo, essa cidade que nunca para. Você que anda sozinho no carro todos os dias, por ai. Geralmente, na ida e volta do trabalho. É perceptível isso, para todos nós que andamos de ônibus, e acredito que seja algo que não estou sozinho em não entender.

Com uma olhada rápida pela janela, durante o percurso, qualquer passageiro do ônibus pode perceber que de 20 carros que passam, no mínimo 10 levam apenas uma pessoa no seu interior (isso para ser otimista). Um carro levando você. Você sozinho. Todos os dias.

Não há ninguém para você oferecer uma carona? Porque afinal, um espaço ocupado por um carro é muito maior do que o de um ônibus, se levarmos em consideração a quantidade de pessoas transportadas. Já pensou em um dia ir de ônibus? De metrô? De bicicleta? Ou mesmo, de carona com aquele amigo que, diferente de você, está sempre com o carro cheio. Deixa o carro para o fim de semana rumo aquele jantar especial, para ir àquele lugar de difícil acesso ou para fazer coisas que realmente exijam que você tire o seu carro da garagem (garagem essa que por sinal também te traz gastos).

Eu sei que não sou ninguém na sua vida para palpitar nela. Apesar de estar aqui reclamando, acredito sim que você tem todo o direito de andar pelo meio que quiser e quando quiser. Mas isso não tira o fato de que sim, você me incomoda. Não há como evitar esse incômodo. Olho pela janela e isso está sempre lá: os bancos vazios. E o trânsito lotado. Me incomoda, mas respeito sua escolha. Imagino que esteja te incomodando também, ao escrever pra ti, mesmo que aqui distante, ao te observar da janela do meu ônibus de cada dia.

Contudo, só queria te lembrar que o tempo que levo para chegar a minha casa nos horários de pico, geralmente, são bem menores que os que você leva até sua casa. As faixas e corredores exclusivos realmente fizeram a diferença, embora você viva reclamando deles do interior do seu carro ou quando você já está, confortável, em sua casa. Aquele percurso de uma hora se reduziu para trinta minutos. Além disso, se o número de carros diminuísse dando mais espaço para transportes coletivos o tempo se reduziria ainda mais, tanto para mim quanto para ti. E eu nessa situação? Ficaria ainda mais contente.

Sei também que você vive reclamando que o limite de velocidade diminuiu, mas você não pode se esquecer que a cidade é das pessoas. Não dos carros. Logo, o pedestre deverá ser sempre priorizado. Se redução de velocidade preserva a vida deles, de nós, que os limites sejam reduzidos. E já está comprovado que a redução até ajudou na fluidez no trânsito da cidade (pode conferir aqui)

Isso tudo sem contar outros fatores que nossas escolhas envolvem. No meu percurso de ônibus, posso ir despreocupado lendo o meu livro. Nesse tempinho que poderia estar perdendo segurando um volante que nunca sai do lugar, viajo para lugares mágicos através dos diversos livros que leio e aprendo coisas muitíssimo mais interessantes que o conteúdo oferecido pelas muitas rádios por ai (companheiras de trânsito). Sem contar a menor poluição gerada pelo meio de transporte que optei (agora tem ônibus elétrico híbrido também!) e a interação social, que envolve os mais diferentes tipos de pessoas. A velhinha que te achou simpático e para a qual você deu abertura para ela te contar como foi o passeio dela com seus netos. As crianças que sempre tem uns papos cabeças, que vão fazer você refletir. O motorista mal humorado que vai te irritar, o cobrador que está dormindo ou a cobradora que faz tricô. Você está perdendo isso, embora esteja ganhando um clima fresquinho, com seu ar condicionado (apesar de que isso não é mais exclusividade, já que se multiplicam por ai o número de ônibus com ar também).

E eu sei, eu sei que o transporte ainda não é da qualidade da qual gostaríamos que fosse. Sei que os preços são altos para todos nós (ainda que mais baratos que o transporte individual por carro), trabalhadores que vivem com salários modestos. Mas imagina você do nosso ladinho na luta por melhores e mais inclusivas condições de transportes? Se você alterar sua maneira de locomoção, teremos mais uma pessoinha que vai sentir na pele tudo o que passamos todos os dias, mas que um dia já foi bem pior. Sua indiferença vai acabar, afinal você vai vivenciar aquilo no seu dia-a-dia e você só passa a realmente enxergar algo quando aquilo passa a representar algo pra ti.

Teremos mais alguém para pressionar o governador que expande o metro da maior metrópole da América Latina a passos lentos e bem espaçados temporalmente. Mas também para pressionar o prefeito que, embora tenha adotados políticas louváveis, como a expansão dos corredores de ônibus, da ciclofaixas, a instauração do Passe Livre estudantil, permitiu aumentos sistemáticos da tarifa em sua gestão.

Eu sei que o caminho é difícil e seria muito mais confortável permanecer em nossos carros, fechados em nosso grande aquário de quatro rodas climatizado. Mas esse caminho é recompensador.

As cidades do futuro serão aquelas nas quais os meios de transportes são eficientes, ao mesmo tempo em que são também inclusivos. Os transportes serão compartilhados, muito mais do que individualizados. Verdes, ao invés de poluidores. A cidade do futuro somos nós que fazemos, com a expansão dos parques, espaços culturais e a apropriação dos espaços públicos que são nossos por direitos. Direito à cidade muito mais do que a financeirização dessa mesma. Mas para isso, precisamos de você.

Sem você, aquele espacinho vazio que fica ao seu lado no carro vai continuar me incomodando, ainda que eu siga minha vida, nos transportes públicos da grande metrópole que nunca para. Apertadinho (embora cada vez menos) mas rumando para uma cidade mais inclusiva, menos caótica e mais fluída.

Para finalizar, um trechinho do segundo livro da série O Mochileiro das Galáxias que nos faz refletir:

Na Terra — quando havia uma Terra, antes de ela ter sido demolida para dar lugar a uma via expressa hiperespacial — o problema eram os carros. As desvantagens envolvidas em arrancar toneladas de gosma preta e viscosa do subsolo, onde a tal gosma tinha ficado escondida em segurança e longe de todo mal, transformá-la em piche para cobrir o chão, fumaça para infestar o ar e espalhar o resto pelo mar, tudo isso parecia anular as aparentes vantagens de se poder viajar mais rápido de um lugar para o outro. Especialmente quando o lugar a que se chegava tinha ficado, por conta dessa coisa toda, muito parecido com o lugar de que se tinha saído, ou seja, coberto de piche, cheio de fumaça e com poucos peixes.

Obs: Esse texto foi feito para aqueles que diariamente andam em seus carros sozinhos e não se esforçam nunca por preenchê-lo ou por adotarem outras formas de transporte. Se você foge disso, esse texto também é para você, mas você não me incomoda ❤


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