Aprenda a amar sentimentos ruins

Você pode achar que um mundo inundado de amor, compaixão e todo tipo de sentimento bonito seria um lugar melhor para se viver. Eu também acho (apesar de ter frios na espinha com certas concepções de paraíso, mais chatas do que festa infantil regada a guaraná sem gás).

É fácil dizer isso hoje, quando vivemos nesse mundo quase pronto, em que a gente ainda reclama porque um miojo demora 3 minutos pra ficar pronto. O duro é reconhecer que quase tudo que temos e usamos neste momento fantástico é resultado do uso de alguns dos sentimentos mais básicos, animais e nada lisonjeiros. Sim, porque queira você ou não, este planeta é movido a medo, vaidade e ambição. Sentimos muito ódio também, mas é quase consenso notar que este sentimento destrói mais que constrói.

Pode doer um pouco perceber isso. Mas nossos primeiros impulsos tecnológicos vieram do medo. O medo de sermos engolidos vivos, que nos empurrou pra dentro das cavernas, formando os primeiros lares. A vaidade nos fez enfeitar as cavernas com pinturas, inventando a arte. A ambição nos fez procurar a caverna mais ampla, com face norte, voltada para o lago e protegida da chuva para nossa família ficar melhor do que “aqueles selvagens”.

O medo do escuro nos fez domar o fogo. A vaidade (e a fome também, porque não admitir?) fez um cro-magnon enfrentar um dente de sabres com uma tocha na mão, para virar herói da tribo. A ambição fez esse guerreiro virar chefe da tribo, inventando a política.

O medo de ser corno inventou o casamento. A necessidade de ser mais atraente do que todos da comunidade criou os padrões estéticos: vaidade. E aí percebemos que ser rico é um dos mais potentes afrodisíacos do mundo. E com essa descoberta, criamos a grana: ambição.

Temos medo de morrer, por isso inventamos o remédio. E para saciar nossas ambições e vaidades, precisamos trabalhar e não ficar doentes, por isso nos entupimos de remédio. E antes que você ache que isso é negativo, pense em como era morrer de diarréia há menos tempo do que você imagina: não há vaidade que resista. Eu teria medo.

Nem sempre o jogo funciona nessa ordem. Vem de todas as formas, mas os sentimentos básicos estão sempre ali.

A ambição de ir mais longe inventou o carro. O medo, o cinto de segurança. A ambição, a frota.

O medo de ficar ocioso inventou o esporte. A vaidade, os times. A ambição, o campeonato.

Sem a ambição de alguns Zuckerbergs não teríamos redes sociais. Não poderíamos esfregar nossas vaidades em todo mundo em milhares de selfies. E teríamos que enfrentar o medo de estarmos sozinhos numa sociedade cada vez mais confusa.

O medo deu à luz ao Pastor Alemão. A vaidade, ao Lulu da Pomerânia. E ambição criou o Pet Shop.

Não estou aqui elevando esses sentimentos à categoria da nobreza.

Também não incentivo ninguém a regá-los, fazê-los florescer. Até porque, como Pokemóns do Inferno, o medo facilmente evolui para paralisia. A vaidade vira obsessão e a ambição vira ganância. E esses sim, são pequenos desastres.

Mas é preciso admitir que, munidos apenas de amor, compaixão e desprendimento, estaríamos todos no alto de montanhas, sentados em posições de flor de lótus, amando uns aos outros, e morrendo de diarreia.

E tudo isso sem a menor chance de Pulp Fiction ter existido.

Portanto, trate com carinho seus medos, vaidades e ambições. Eles podem ser seus melhores amigos, e porque não, ajudar a transformar o mundo num lugar melhor.


Like what you read? Give Rodrigo Teixeira a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.