Aprenda a desistir dos seus sonhos. Vai te fazer um bem danado

Vermelho!

Quando eu tinha sete ou oito anos, em uma época em que ter essa idade significava passar metade do dia brincando pela rua, uma vizinha mais ou menos da minha idade saiu de férias com a família. Foi conhecer a Bahia. Voltou uns dez dias depois toda bronzeada e já querendo falar arrastado. Passou dez dias na praia enquanto nós enfrentávamos uma invernera desgraçada em pleno mês de julho no interior do Rio Grande do Sul.

Voltou feliz e saltitante com presentes para os amiguinhos da rua: um bolo de fitinhas do Nosso Senhor do Bonfim. De acordo com ela — e até hoje eu não sei se isso era dito na Bahia — tinham explicado em Salvador que você deveria amarrar a fita no pulso e fazer um pedido. Quando a fita, por si só, arrebentasse, seu pedido seria realizado.

Peguei uma branca, amarrei firme no pulso, fechei os olhos, e lasquei: quero ter um Tempra.

Um Tempra. Um Fiat Tempra.

Carros, em bairros pobres, são sempre um sinônimo de status. E no início da década de 1990 um Tempra era um baita carrão. Então, eu queria ter um Tempra. Nem precisava ser eu. Poderia ser o meu pai. Até imaginei ele trocando o Escort 1986 todo baleado por um Tempra novinho. Mas se não desse para o meu pai ter um Tempra, e se eu não poderia ter um Tempra naquele momento, não tinha problema. Eu esperaria dez anos para ter um.

Desde que um dia eu tivesse um Tempra.

Aquela fitinha durou uma eternidade no meu pulso. Em poucos dias ela estava preta das brincadeiras no barro. A fitinha esfiapava e não caia. Um inferno. De vez em quando eu dava uma ajudinha pro santo, dando umas puxadas nela, deixando em baixo da água. Nada. Minha mãe já estava indignada com aquela fitinha suja no meu pulso, até que um dia me obrigou a tirar aquilo. Para não perder o meu Tempra fui para o tanque e fiquei uma hora com a fitinha na água, até que ela se soltou “espontaneamente”.

Fui lembrar dessa história uns 12 anos depois quando guardei um pouco de dinheiro e fui dar entrada em um carro. O Tempra já tinha saído de linha, e já era conhecido como “casamento”. Gastava gasolina demais, mecânica demais. Resumindo: nem sequer pensei em comprar um Tempra. Um sonho que se ia pelo ralo junto com a fitinha do Senhor do Bonfim.

Toda essa historinha é para dizer algo bem simples: existem sonhos que você deve desistir.

Fomos criados com o mantra “nunca desista dos seus sonhos”. O problema é que o seu sonho pode ser como um Tempra 1994: defasado, ruim. Existem sonhos que precisam ser descartados.

Vale para um monte de coisas. O emprego dos sonhos que na verdade é um pesadelo. O namorado(a) dos sonhos que se transforma em uma relação abusiva. Olha, a lista de sonhos mal sonhados pode ser longa.

O que não pode ser longo é tempo que você leva para perceber que um Tempra é uma furada.

Existem sonhos que quando se realizam são maravilhosos. Mas me atrevo a dizer que a maioria dos sonhos que nós vamos inventando são bem meia boca. Isso, obviamente, não significa que você não deve sonhar. Apenas saiba largar de mão um sonho ruim, para colocar outro melhor no lugar dele.

Eu nunca tive um Tempra. Quer saber? Não me fez falta nenhuma.

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