Aprendendo a habitar o meu corpo

“Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses.”
[máxima atribuída a Sócrates]

Uni as palmas das mãos, ergui os braços, entrelacei os dedos e depois espichei os braços para cima e para trás, dando aquela boa espreguiçada que parece soltar o corpo todo e conceder novo fôlego ao dia de trabalho. Um gesto banal, feito sempre no piloto automático. Mas dessa vez foi diferente, foi um gesto consciente. Ao entrelaçar minhas mãos, senti a importância delas, a textura, o calorzinho, a flexibilidade do movimento acontecendo, me senti grata, acolhida, acolhendo-me. E nasceu a vontade de escrever este texto.

Talvez tenha a ver com a Yoga que comecei a praticar recentemente, ou com a meditação que pratico há algum tempo, ou com os últimos dois anos, de mergulho no autoconhecimento e aproximação com o espiritual — o que não significa que eu vá ser beatificada, é bom esclarecer. Sigo sendo uma pessoa horrível (leia aqui).

Acontece que temos o hábito de nos confundir com o nosso corpo físico; de acreditar que somos efetivamente a imagem que vemos refletida no espelho — ou de nunca pensar sobre isso. E dessa visão deturpada sobre “quem somos nós” surge uma série de confusões e encanações completamente desnecessárias, que desviam o foco daquilo que realmente importa, e nos atrasam.

Não enxergamos o corpo humano como um aparelho muito incrível que nos é emprestado para que possamos viver neste planeta, fazer o que viemos fazer, experimentar inúmeras vivências da matéria e expandir o nosso estado de consciência; o enxergamos como sendo o nosso próprio eu, a nossa pessoa, e exigimos e reclamamos dele o tempo todo, porque não queremos ser exatamente assim: gordos demais, magros demais, altos demais, baixos demais, nariz muito grande, muito torto, lábios muito finos etc. ad infinitum.

Temos vergonha do nosso corpo e há todo tempo transmitimos a ele mensagens de insatisfação, de ódio, de culpa, de ressentimento, de mágoa. Seja em voz alta, seja em pensamento. E apesar de não haver nada de errado em se esforçar para melhorar aquilo que incomoda na aparência física, concedemos a essa insatisfação espaço demasiado, que gera dor, sofrimento e, pior que isso, nos faz perder tempo!

A Yoga é uma ferramenta capaz de mediar esse conflito, permitindo que façamos as pazes com o nosso corpo, seja ele de que tipo for, seja qual for a encanação com ele. E isso acontece porque essa prática ajuda a despertar a percepção de que não somos um corpo, mas sim que habitamos um. Tiramos o foco daquilo que é o foco no mundo materialista – ou seja, a bunda, a barriga, o tamanho, o peito, o tônus, as espinhas, a beleza das formas – e aprendemos a prestar atenção e a valorizar nossas pequenas articulações, os movimentos, a elasticidade, o equilíbrio, a respiração, a força, a capacidade de superação dos limites, a mente.

É como se por meio dos exercícios de Yoga o corpo e a alma fizessem as pazes e assumissem cada um o seu devido lugar.

Somos muito além da matéria, essa matéria que envelhece, engorda e emagrece. E, ao mesmo tempo, precisamos dela para viver, para estar aqui interagindo, realizando nossos sonhos, amando as pessoas, tendo filhos, ensinando, aprendendo, experimentando. Precisamos do nosso corpo para existir na Terra e trilhar as nossas experiências físicas que vão nos permitir avançar alguns passos como espíritos imperfeitos que ainda somos. Então por que tanta insatisfação, pra que tanta reclamação e tanta vergonha? Por que tanta preocupação com a aparência, com as formas? Tanta cobrança.

“Tudo é luz, tudo é espírito”, dizia o guru indiano Yogananda. Nós somos espírito, somos luz. Habitamos um corpo, mas não somos um corpo. E, assim como acontece em relação ao lugar onde moramos, é salutar nutrir bons sentimentos pelo corpo que habitamos, sentir-se em casa dentro dele. E isso torna-se possível a partir dessa mudança de perspectiva. Quando a perspectiva muda, a vida muda, o foco muda, os planetas se alinham. E a nossa alma sabe disso. Devemos ouvir mais o que ela tem a nos dizer, precisamos nos conhecer. E, para isso, é preciso menos razão e mais intuição. Portanto: ouça-se.


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