Aprendi a conviver com o déficit de atenção e usar isso a meu favor

Numa reunião sempre tem aquela pessoa que parece impaciente, que bate o lápis ou a caneta na mesa, que balança os pés ou que se movimenta demais: eu sou uma delas. Sentia uma necessidade de explicar o motivo por temer o incômodo dos outros. A coisa era tão aparente que algumas pessoas perguntavam se eu tinha algo pra fazer, se precisava sair, mas não era essa a razão. Então nas apresentações pessoais eu tinha a oportunidade de esclarecer as coisas.

“Meu nome é “X”, faço “Y”, trabalho com “Z” e tenho déficit de atenção. E não, eu não estou impaciente, nem entediada ou querendo sair logo. Na realidade estou tentando prestar atenção em tudo, esse é o meu jeito de fazer o cérebro prender o conteúdo”.

Algumas pessoas riam, meu sócio dava um sorriso e eu respirava aliviada na minha cadeira, enquanto balançava os pés por debaixo da mesa. Quem convive comigo já se acostumou com o fato de que preciso me levantar às vezes, me esticar. Não estranham mais olharem meu notebook, encontrarem 15 abas abertas e eu estar alternando entre elas numa velocidade absurda. Aprendi a lidar com o déficit e não deixar que me prejudicasse nas atividades cotidianas. Não foi algo fácil ou rápido, exigiu de mim muito esforço, lágrimas, dor de cabeça e questionamentos pessoais. Tinha um grande problema em lembrar coisas simples, que foi resolvido com alarmes no celular, mas tenho lá meus deslizes como toda pessoa.

Funciono assim, consigo fazer várias coisas ao mesmo tempo, sou criativa e sempre tenho uma solução rápida pras coisas. Minha criatividade foi algo que me auxiliou no processo de descoberta pessoal e profissionalmente. Na infância encontrei meus maiores obstáculos, maiores que os enfrentados na vida adulta por conta do déficit. Tenho várias lembranças dessa fase, mas uma em particular que foi bastante marcante de um lado negativo e positivo.

Na segunda série do fundamental tive problemas sérios de concentração, minha professora dizia que eu vivia no mundo da lua, que não me interessava pelo que passava em sala de aula. O ápice da paciência dela foi quando confiscou meu caderno por perceber que eu escrevia nele mesmo quando ela não falava nada. Eu estava empenhada em criar uma das minhas inúmeras histórias curtas, essa era sobre uma cidade que mudava de lugar, porque os moradores não suportavam visitas.

No dia da reunião de pais e professores ela mostrou aos meus pais o que eu estava “produzindo” em sala de aula ao invés de prestar atenção no conteúdo. Explicou que eu era uma criança avoada, dispersa e que deveria me empenhar mais. Minha preocupação era recuperar o caderno das mãos dela. Minha mãe me deu uma bela bronca no caminho de volta pra casa e posso quase afirmar ter visto meu pai sorrir pelo espelhinho do retrovisor. No mesmo dia ele me deu um bloco de folhas de desenho, vários lápis e disse que era melhor que eu escrevesse e pintasse ali. Me devolveu o caderno com uma piscadela e me fez prometer prestar atenção e me esforçar mais no colégio. Não se sabia muito sobre o déficit, o que era, a ignorância não era totalmente culpa de algumas pessoas que passaram por minha vida, entre elas familiares.

O que fiz, mas meu jeito “avoado” estava sempre presente. Fora isso tinha facilidade em absorver conteúdo, principalmente se fosse algo que me despertasse o interesse. Minha vida escolar foi bastante normal e minhas notas eram sempre boas em matérias de saúde e humanas, já exatas pra mim era um sufoco, sempre passada raspando na média. Fui lidando com o déficit e aprendendo a focar naquilo que tinha facilidade, habilidade e interesse.

No meu caso o déficit não era tão severo, mas me rendeu muitos momentos de conflitos e mal entendidos. A escrita e a leitura me ajudaram muito nesse processo de “manter” o foco. E hoje, lido com esse problema como quem lida com o trânsito, com uma dor nas costas no fim do expediente. Às vezes até esqueço do bendito, faz parte do processo.


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