Aquela velha homofobia casual

Photo by Sanketh Rao from Pexels

Mais interessante do que a forma como os diversos insultos os quais verbalizamos estão enraizados numa cultura de homofobia, é a facilidade com qual as pessoas não percebem isso.

Caso 1: Cheguei num restaurante para um almoço casual com um amigo outro dia. Ele, por sua vez, estava com outro amigo. Quando cheguei, eles estavam falando algo relacionado a futebol e a convocação da seleção brasileira para a Copa do Mundo de 2018 na Rússia. O amigo do meu amigo é hétero, como meu amigo também. As poucas interações que tive com o amigo do meu amigo me passavam a ideia de que ele estava longe de ser homofóbico. Acontece que, enquanto ele comentava das expectativas sobre quem deveria ser convocado, ele chamou um dos atletas de “boiola”. É claro que ele quis dizer com isso que o jogador era um atleta ruim ou menos qualificado, de alguma forma.

Sem perder o ritmo da conversa (e talvez sem pensar corretamente), eu retruquei: “Boiola? Esse jogador deve ser um cara muito gente fina, então”. Pegos de surpresa, ficaram em silêncio e meu amigo se desculpou pelo seu amigo. Ele não está acostumado a conversar com gays, ele disse. Geralmente, e com uma frequência absurda, não pensamos sobre o que as palavras que dizemos realmente significam. Frases como “deixe de ser fresco”, “isso é coisa de gay” são ditas numa regularidade que dificilmente quem fala entende o quão problemático é. Uma forma muito simples de ilustrar isso é observar caras héteros brincando casualmente sobre ser gay uns com os outros, como se a orientação sexual diferente da deles fosse algo passível de ridicularização ou até algo digno de piada.

Caso 2: retornando pra minha casa depois de um final de semana na minha cidade natal, abro o Facebook e vejo uma postagem do meu primo. Na postagem, um comparativo de dois meninos gritando um para o outro. Na primeira imagem, com data de 2000, um menino chama o outro de “viado” e o outro responde “viado é rolimã, como tu e tua irmã”. Na segunda imagem, datada de 2018, um menino chama o outro de “viado” e o outro responde: “racista, homofóbico, seguidor do Silas Malafaia”. O post tinha apenas 6 curtidas. Todas com o emoji de gargalhada.

Mais uma vez, sem perder o ritmo da mensagem (mas dessa vez pensando em todas palavras da resposta), eu comentei: “ainda bem que as coisas mudaram, né?”. A imagem compartilhada pelo meu primo é de uma página com mais de 25 mil seguidores, alguns até amigos meus, alguns até gays e esse post em particular tinha mais de 2.500 compartilhamentos. Um discurso de intolerância fantasiado de piada e uma mensagem não muito subliminar de que quem se opõe é extremista. Meu primo não respondeu ao meu comentário, mas deletou seu post.

Em ambas histórias passa uma linha muito tênue e quase invisível onde mora a homofobia, profundamente enraizada em nossa cultura. Por um lado, o choque do meu comentário em um ambiente social fez alguém se desculpar pelo comentário espontâneo de um terceiro. Do outro lado, meu convite a reflexão na rede social é silenciado sem uma resposta de quem dissemina e perpetua pensamentos segregadores em forma de piada.

Pra quem resolve retrucar, comentar, convidar ao debate, como eu fiz, sempre sobra o papel de exagerado, de desconfortável ou daquele que não sabe brincar. E por isso mesmo que as coisas não mudaram tanto ainda e não irão mudar a menos que façamos algo sobre isso. Ninguém nasce homofóbico — essa é a verdade — e estamos rodeados de colegas (e porque não membros da família?) e da mídia que perpetuam esses insultos homofóbicos em forma de frases, posts, comentários. Todos que fazem isso e são confrontados, ora diminuem o problema ora querem te fazer acreditar que esses insultos estão separados de leituras sobre a sexualidade. Nunca estão.

Você pode ter grandes amigos gays e ainda ser homofóbico, da mesma forma que você pode ter grandes amigos de cor e ainda ser racista. E para ser machista basta não ter nascido mulher. Mudar não é fácil, não é algo que você deixa de ser da noite pro dia, mas não é impossível. Esses exemplos que contei foram as poucas vezes que senti confortável para corrigir alguém por dizer frases que me incomodaram diretamente. Suspeito que, infelizmente, não foram as últimas.

Me senti um pouco orgulhoso de mim mesmo por ter dito alguma coisa naquele almoço e ter provocado o delete do post do meu primo? Sim. Há uns 5 anos, eu teria provavelmente deixado passar, ficado em silêncio, me sentindo desconfortável enquanto ia para casa. Dessa vez, eu me levantei e fiz alguém pensar um pouco mais sobre as palavras que ele escolhe para expressar seus pensamentos. Ou simplesmente provoquei uma reflexão sobre quem compartilha mensagens na internet sem pensar (ou esperando que ninguém fale nada, né?).

E eu fiz isso tudo na expectativa que da próxima vez que o amigo do meu amigo for chamar alguém de “boiola”, ele escolha conscientemente dizer outra coisa ao invés disso.


O Dia Internacional contra a Homofobia é celebrado em 17 de maio. A data foi escolhida lembrando a exclusão da homossexualidade da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID) da Organização Mundial da Saúde (OMS), em 17 de maio de 1990, oficialmente declarada em 1992.