Aquilo que nos consome

Há algo de podre no reino da Dinamarca. Certamente, é o surströmming, uma espécie de peixe fermentado e apodrecido propositalmente para que dure e é, tradicionalmente, consumido com torradas e muita cebola. Há, por outro lado, algo de podre no mundo, algo que foi propositalmente apodrecido para a manutenção de outra coisa, mas que vem nos custando mais do que cebola poderia encobrir.

Recentemente, retornando da casa de minha sogra, topei com uma ponte fechada, estava no uber e o motorista disse que era padrão, “possivelmente alguém pulou da ponte”. Mudou o caminho, onde poderia pegar outra ponte e seguir viagem. É um fato que já havia ouvido falar, naquela ponte, pula-se muito para tirar a própria vida.

Ao chegar em casa, bateu uma vontade de ouvir Soundgarden, banda que embalou minha adolescência e início de juventude. Devo dizer, Chris Cornell tem um papel muito importante na construção da minha auto-estima. Um jovem rockeiro, morrendo de calor com seu casaco de couro na Lapa, no Garage, na Heavy Duty (cariocas reconhecerão) e querendo ter seus cabelos longos. Como eu tinha cachos, eu era constantemente chamado de Bethânia ou Slash. Ok, hoje eu sou fã da Bethânia e o Slash nunca foi, de fato, uma ofensa, mas eu nunca admirei ele.

Chris Cornell foi o primeiro músico que eu olhei e falei “putz, que cara irado” e ele tinha cachos. Longos e lindos cabelos cacheados. Cantava muito bem e tinha uma postura em relação ao mundo que fazia sentido para mim. Ele era crítico com tudo o que o circundava, estava sério, mas não parecia deixar de viver por isso. É claro, não deixou de viver até que deixou.

O suicídio do Chris Cornell veio em uma época em que eu já não ouvia tanto mais Soundgarden, mas bateu-me feito um soco no estômago. Com seus cinquenta e tantos anos, eu achei que ele já estava salvo dessa praga que leva as pessoas ao suicídio. Dei-me a pensar que eu nunca esperaria outro herói da juventude tirar a própria vida, desde Champignon, baixista do Charlie Brown Jr.

Esses são os famosos, mas quantos anônimos simplesmente se matam? E se não diretamente, indiretamente? Pois bem. Não acho que overdose acontece a toa. Não acho que um ataque cardíaco fulminante é gratuito. Eu não cultivo um desejo de pular de uma ponte, mas, sempre que a vida pega, pego-me devorando um fast food. Isso não é um suicídio? Um prazer fulgaz que justifica o vazio de uma vida angustiada? Nem acho que seja diferente do indivíduo que enfia a cara na cocaína. Além do mais, ninguém pega uma cocaína pura demais ou cheira demais sem querer ou na doidera. Quem cheira sabe o que cheira. Morrer cheirando tem algum grau de autonomia, mesmo que menos consciente.

Sei de altos índices de suicídios entre policiais e estudantes do fundamental. Sei de índices de suicídio do mercado financeiro sempre que há grandes mudanças nesse. Ou suicídios no funcionalismo público com mudanças de diretrizes drásticas dadas por um governo. E o que falar do motorista de uber? Um marceneiro que dirigiu o uber até duas da manhã no sábado para domingo e iria dirigir até onze da noite do domingo para tirar uma grana extra pois tinha tido, recentemente, uma filha. Ele quer dar o melhor para filha e está anulando a possibilidade dele de viver.

Não estamos em tempos fáceis. É fácil olhar para todos os avanços sociais e políticos e achar que tudo tem melhorado. Algo de muito ruim acontece. Uma doença surge no seio da sociedade, algo que nos torna ansiosos, depressivos, bipolares. Cultivamos um desejo de conseguir algo e sofremos muitos para isso, quando conseguimos, cultivamos novos desejos.

Não deixo de pensar em Giorgio Agamben, quando ele diz que o consumo impede o uso, pois o consumo destrói o produto. Nós criamos o consumo como centro do sistema social da nossa comunidade, algo estragado para tentar fazer durar os sistemas capitalistas que revolviam em crises. Não estou aqui levantando uma bandeira contra o capitalismo, é o mundo feio que temos, façamos o melhor que podemos com ele (não negaria um mundo comunista também). Estou aqui dizendo que esse valor do consumo, que faz perdurar o capitalismo, está consumindo a humanidade.

Não tem cebola que salve esse fermentado. Precisamos repensar nosso mundo.