Arctic Monkeys, como vocês se atrevem a crescer?

Em defesa de Tranquility Base Hotel & Casino

Foto por Domino Records

Existe um ditado antigo que eu acabei de inventar. Se eu me recordo bem, é mais ou menos assim.

Pessoas podem mudar. Bandas, não.

Foi isso que me veio na cabeça depois que o Arctic Monkeys lançou Tranquility Base Hotel & Casino na sexta-feira. Um álbum bem diferente do que a banda fez no passado, quase um primo de segundo grau do The Last Shadow Puppets, projeto paralelo de Alex Turner ao lado de Miles Kane.

À primeira vista, Tranquility Base Hotel & Casino é um álbum estranho. Dos nomes das músicas, passando pelas letras e pelo jeito em que ele foi composto, tudo é diferente do que já vimos da banda. Não completamente, claro. Pra mim, é uma evolução de AM, gravado em 2013, mas não espere um AM 2.0. Isso seria óbvio demais e o Arctic Monkeys é tudo menos óbvio. Só de bater o olho nos nomes das faixas você já percebe isso. The Ultracheese, Batphone e The World’s First Ever Monster Truck Front Flip. Ou nas letras, que entre menções a Blade Runner, Strokes, Lana del Rey e Wu-Tang Clan, ainda tem espaço para frases como:

So who you gonna call? The martini police?
Star Treatment
The leader of the free world reminds you of a wrestler wearing tight golden trunks.
Golden Trunks
Dancing in my underpants, I’m gonna run for government.
One Point Perspective

E se algumas das letras parecem jogadas ali é porque foram. Turner escreveu a frase here ain’t no place for dolls like you and me em 2009, nove anos antes de compor Star Treatment. E o nome da taqueria na Lua em Four Out Of Five — Information-Action Ratio- foi retirado do livro Amusing Ourselves to Death. A banda mesmo parece admitir esse caminho em One Point Perspective: Bear with me, man, I lost my train of thought.

Pode se chamar Tranquility Base Hotel & Casino de um álbum conceito. A Pitchfork o definiu como “uma aventura sci fi em um futuro não tão distante, onde a Lua foi colonizada e se tornou um resort de luxo. E nessa viagem toda, o Arctic Monkeys se coloca como a banda principal desse hotel”. É como se Alain Delon e Jean-Pierre Melville tivessem produzido as músicas. É, talvez, o que um músico de jazz tivesse feito se ele fosse mandado pro futuro mas descoberto um jeito de voltar.

O álbum parece moderno e nostálgico ao mesmo tempo e traz um Arctic Monkeys muito mais crooner do que o normal, bebendo da fonte de Leonard Cohen, David Bowie e até Lô Borges - acredite se quiser. Outra coisa interessante é que ele foi inteiramente composto por Turner em um piano. Era um projeto solo antes de virar o 6o disco deles. Por isso, talvez, a quase total ausência de guitarras. Um ou outro riff e solo, mas nada que lembre as pauladas de R U Mine?, Arabella ou Do I Wanna Know? Claramente não é um AM 2.0. A não ser que você pense em AM como o horário perfeito para escutar o disco. Na cama, de manhã, com uma leve ressaca e uma pessoa que você não lembra muito bem o nome, muito menos como ela parou ali.

Mas nada desse contexto importa, porque para muita gente, o Arctic Monkeys cometeu o maior pecado que uma banda pode cometer. Eles mudaram. E como eu disse antes:

Pessoas podem mudar. Bandas, não.

A gente pode mudar de roupa, de partido político, de faixa na Marginal. Pode mudar de amor, mudar o pedido no restaurante, o cabelo, o emprego e personalidade. De carro pra bike, de casa pra prédio, de vegetariano pra vegano.

A gente mudar não tem problema. Mas como o Arctic Monkeys se atreve a mudar? Como eles se atrevem a crescer? Do auge da fama, lotando estádios e festivais, eles resolvem fazer um álbum no PIANO?? NO PIANO?? Que absurdo! Me diz, como pode uma banda querer tentar fazer algo que nunca fizeram antes? Ainda mais 5 anos depois do último álbum. Afinal, quem muda em 5 anos, né? Aposto que você é o mesmo que era a 5 anos atrás, tirando as bermudas de tactel.

Calma, esse parágrafo anterior teve uma boa dose de ironia. O que eu acho mesmo um absurdo, é a quantidade de pessoas por aí achando Tranquility Base Hotel & Casino um absurdo. Mas se estamos sendo sinceros, admito que não gostei na primeira ouvida. Nem na segunda, nem na terceira. Mas na quarta, de ressaca num sábado de manhã, as coisas começaram a fazer sentido, as letras — charmosas e irônicas na mesma medida — ficaram na cabeça. E a falta de guitarras não foi sentida.

Não estou dizendo que você precisa gostar do álbum. Não precisa. Na verdade, você pode odia-lo e nunca mais ouvir nenhuma música dele e usar essa hora do show para ir pegar cerveja e falar como você preferia o “antigo” Arctic Monkeys. Quando tinha guitarra, sabe?

Eu só acho que a gente deveria fazer um mínimo de esforço para entender e apreciar Tranquility Base Hotel & Casino. São 11 faixas em que uma banda, talvez a mais importante do rock hoje em dia, resolveu não se contentar, não ficar no mesmo emprego. Esse álbum é a versão ‘larguei tudo pra viajar pelo mundo e estudar como se faz geleia de manga’ do mundo da música.

Não é foda que eles tentaram algo novo? Que eles arriscaram, em vez de fazer o de sempre? E olha só, 12 anos atrás eles já tinham avisado todo mundo disso. No título do primeiro álbum: Whatever People Say I Am That’s What I’m Not. Totalmente sem querer, é claro, mas mesmo assim, a ironia não passa despercebida. Eu avisei, devem estar pensando os 4 rapazes de Sheffield.

Odeie ou ame Tranquility Base Hotel & Casino, por favor, não deixe de apreciar o não conformismo do Arctic Monkeys. Fica uma lição pra gente. Se eles podem tentar algo novo, por que a gente também não? Largue tudo, vá aprender a fazer geléia de manga.

E se você não consegue entender ou respeitar essa direção da banda, bem, como diz o ditado, as pessoas podem mudar, não?

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