Arrebol

Foto: Newsha Tavakolian

Não existe momento mais revelador do que o final de um dia quando se funde com o início de outro. Eu não havia dormido, estava assistindo vagarosamente os primeiros raios do sol chegarem — aquela continuidade noite-dia sempre despertou em mim certo clima de epifania.

Pensava na noite anterior como um sonho — palavra que eu uso por falta de uma mais específica. Não era exatamente como um sonho mas como um pensamento etéreo, comprido, do tipo que se costuma ter ao acordar, ainda deitado, de olhos fechados, imaginando situações inexploradas, impossíveis, naquela lentidão desatenta do sono.

A noite foi estranha e a manhã era, como de costume, segura. Estranhamente sentia ser essa a mais calma e segura de todas as manhãs que eu já havia experimentado. Conheci nas horas anteriores uma gente simpática que me tirou do meu casulo e que eu tinha certeza que não estaria na minha vida além daquela noite. Eu não as procuraria e nem elas a mim. Não fazia mal. Sentia de uma forma muito enfática, quase como se alguém estivesse me dizendo com todas as palavras, que eu ali tinha começado um capítulo novo.

Do sofá onde eu jazia espatifada, conseguia enxergar um pé sob a mesa, saindo de trás de um sofá, cuja posição me elucidava que seu dono, invisível pra mim, havia dormido (ou desmaiado) ali mesmo em certo ponto da noite. Do meu lado no sofá dormia uma garota muito bonita, com a boca toda borrada de batom, como se tivesse dado um único beijo apaixonado e descomedido. Debruçado na mesa do outro lado daquela sala enorme, um casal comia os restos de um bolo já destruído. Duas pessoas dividiam, deitadas do lado de fora, na beira da piscina, uma dessas espreguiçadeiras brancas e longas. Alguém fumava um cigarro poeticamente recostado na janela, de olhos fechados e a fumaça meneando ao sol conduzia meu olhar suavemente à moça dormindo encolhida na poltrona na minha frente. Ela tinha um corte enorme na sola do pé, com o sangue já endurecido. Há uma beleza quase infantil na vulnerabilidade de um corpo abandonado em ebriedade.

Há algum tempo atrás, teria visto toda essa cena com nojo, pena, ou até com um certo sentimento de superioridade. Ver aquelas pessoas apagadas, toda a bebida e a droga. Toda a sujeira. Toda a vulgaridade. Acharia verdadeira decadência. Naquele momento, no entanto, tudo aquilo fazia parte da beleza da minha transição, do meu rito de passagem. Fazia inteiro sentido toda aquela desgraça derramada no chão de um apartamento desconhecido. Era como se tivessem jogado uma bomba e todos tivessem caído juntos, ao mesmo tempo, bem como os objetos todos, as garrafas deitadas, os copos quebrados, os pedaços de sabe-se lá o que, as comidas, o violão. Havia despencado algo do céu e derrubado tudo. Só eu sobrevivi — outra.

Com a cabeça pesada e o espírito leve, consegui finalmente me levantar e ouvi por dentro todos os músculos do meu corpo gemendo. Sabia no entanto que precisava, agora sim, enfim, sair daquele ambiente, não porque o rejeitasse ou tivesse cansado dele — era lindo. Mas porque precisava dar início ao resto da minha vida.

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