As eleições invadindo suas redes sociais.

"Ah, com essas mudanças eleitorais sem dúvida nenhuma esse será o ano da eleição digital!", disseram os otimistas. Bom, é e não é. Acho que primeiro é importante explicar que mudanças foram essas.

A nova legislação mexeu de forma contundente na maneira de se fazer campanha. Ela reduziu o tempo de campanha de 90 para apenas 45 dias, reduziu o tempo de TV para apenas 10 minutos (dividido entre os partidos) e durante apenas 30 dias, acabou com o programa eleitoral gratuito na TV para vereadores — que agora só podem aparecer nas inserções, não pode mais por bandeira, cavaletes ou mesmo pintar muros e adesivos foram reduzidos para meio (!) metro quadrado. Hoje o candidato já pode se dizer pré-candidato, só não pode pedir voto. A campanha, em tese, ficou menor e mais espartana.

Bom, diante desse quadro é natural achar que a campanha digital ganhou importância. Com a campanha reduzida e com a possibilidade da pré-campanha ter mais força e com tantas restrições de campanha de rua, seria compreensível que a estratégia para explorar as restrições contemplasse maior presença nas redes sociais, sites e hot sites explicando e defendendo bandeiras, apps que estimulassem o debate e a construção de ideias colaborativas, participação em grupos e fóruns e diversas outras iniciativas criativas, envolventes e empolgantes, não é mesmo? Seria, se eu não tivesse deixado de lado as duas maiores dificuldades criadas pela mudança na legislação eleitoral.

Acabaram com a doação por parte de empresas, ou seja, nada de receber dinheiro doados por CNPJs. Agora o candidato conta com recursos próprios (que ele tenha declarado, coisa rara, não é mesmo?), doação de cidadãos (CPFs) de até 10% do rendimento bruto declarado no ano anterior e com o fundo partidário. E tem mais, todo esse dinheiro não pode ultrapassar um certo limite, que será de 70% do maior gasto declarado para o cargo na circunscrição eleitoral em que houve apenas um turno no último pleito.

Percebem agora o problema?

Não estamos falando apenas da dificuldade de se financiar, há um limite de gastos que foi determinado por 70% do gasto OFICIAL da última campanha. O destaque no termo oficial tem motivo, claro. A mala preta sempre circulou em campanhas, o dinheiro não declarado, pago por fora. Quem está acompanhando a Lava Jato tem ciência de que a campanha de Dilma pagou milhões de dólares fora do país, mesmo depois de ter declarado um gasto oficial de mais de 350 milhões de Reais.

O novo teto e a impossibilidade de receber doações de empresas vai resultar em campanhas mais "pobres" ou em mais gente investigada e presa — sempre haverão os corajosos que ainda toparão as malas pretas, um grande risco já que todo candidato com menos poder financeiro vai direcionar seus exército para fiscalizar, investigar e denunciar abusos de poder econômico por parte do adversário.

"Ah, Eden, mas isso não é bom pro digital? Menos dinheiro? Menos tempo de TV? Menos campanha de rua?"

Deveria, né?

Mas a realidade ainda é outra.

Com menos dinheiro e só sabendo fazer campanha de um único jeito muito candidato ainda reluta em gastar/apostar no digital. Na cabeça deles o dinheiro do digital seria melhor gasto apoiando vereadores, por exemplo. Algumas vezes o marqueteiro, que ainda tenta receber a mesma grana que recebeu nas últimas campanhas, tenta limar "custos desnecessários" pra aumentar sua fatia do bolo— é, pra boa parte deles o digital é desnecessário, afinal sempre ganharam campanha sem essas coisas. E sempre tem o "ué, porque vou pagar esse dinheiro pra vocês se meu primo tem uma agência digital e pode tocar tudo por muito menos?", esse aí terá presença digital mas dificilmente terá campanha digital.

A falta de entendimento do que vem a ser uma campanha digital me fez dar risadas um dia desses. Uma profissional da área mas que atua fora do país, ao entrar em contato com uma planilha de equipe pra uma grande campanha aqui no Brasil, me interpelou:

— Eden, esses "salários" não estão altos?
 — Não, é isso mesmo.
 — Eu acho alto pra alguém que vai trabalhar apenas 8h por dia e 5 dias por semana — me falou realmente impressionada.
 — Olha, durante a campanha o digital trabalha em média 16h por dia, quando não em turnos, durante TODA a campanha. Não há folga, não há fim de semana, não descanso.
 — Jura?
 — Juro.
 — É, aqui não é assim não. Olhando por esse lado...

Estamos falando de pouco tempo, a equipe precisa começar bem lubrificada, sem arestas, com todo o processo definido, sabendo qual a função de cada um e como dar o melhor de si. Não há tempo para "testar", é uma corrida contra o tempo, estressante, onde o time precisa conhecer não apenas de redes sociais, mas de campanha política e suas idiossincrasias. Não funciona juntar uma garotada que entende tudo de Facebook mas que não entende nada de política e de campanha e, pior, não aguenta a absurda pressão por trás desses 60 dias.

A verdade é que enquanto os candidatos acreditarem que campanha em digital é subir um site e postar qualquer tipo de conteúdo no Facebook o "tempo do digital" não vai chegar. Ainda são poucos os candidatos que entendem a importância e o poder de um bom SRM, da inteligência por trás da microsegmentação de targets e mensagens (esse sim, o grande segredo da campanha do Obama), da coleta de dados para geração de insights, da ativação de formadores de opinião, da construção, gestão e ativação de militância, da possibilidade de testar narrativas e argumentos, de aglutinar pessoas que pensem de forma semelhante, de construir dialogo e tantas coisas mais… isso sim vai ajudar a ganhar eleição. Esqueçam essa coisa de "eu sou o candidato com maior número de fãs no Facebook" — e a maior parte dos que comemoram isso tem uma base suja, cuja maioria dos fãs da página não votarão nele, isso é pura bobagem, perda de energia e tempo.

Se vocês chegaram até aqui é porque tem um mínimo de interesse no tema e, claro, estão mergulhados no ambiente digital, logo é bobagem perguntar pra vocês, leitores, sobre o que acham da importância da presença — bem estruturada, com propostas, construtiva, inteligente etc — de candidatos nas redes. Acredito que a maioria, por menos interessados em política ou eleições, concordem que é um meio importante de se escolher melhor em quem votar. O problema é que vocês são apenas eleitores e como eleitores não sabem de nada, quem sabem das coisas são eles, políticos profissionais.

E assim vocês vão ver campanha digitais que se resumem a exagerar no uso de hashtags, em fotos com apoiadores políticos, cobertura de comícios e reuniões, áreas de comentários apenas com elogios e sem nenhuma interação importante, poucas e mal explicadas propostas e muita, muita baixaria.

Se eu puder dar uma dica pra vocês — e, claro, se vocês aceitarem — será: observem com carinho os candidatos que usarem o digital com inteligência, explorem os canais para questioná-los sobre aquilo que acham importante e avaliem as respostas. Analisem se opinam sobre o que é necessário ou fogem de temas mais sensíveis. Se banem cidadãos das páginas por qualquer crítica, mesmo que bem fundamentada, ou se aceitam conversar. Se se preocupam em explicar como suas propostas vão funcionar ou só lançam ideias malucas no ar. Se tratam você com o respeito que você, cidadão e eleitor, merece.

Nossa democracia é bem nova e acho que pouca coisa é mais rica pra ela do que aproximar dessa forma eleitor e candidato. Se ele, candidato, não dá valor a isso… problema dele, mas espero que você dê e mostre isso pra ele nas urnas, afinal precisamos ser parte da mudança que tanto desejamos, não é mesmo?

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