Às margens do rio Nilo: Há então filosofia Africana?

Introdução à filosofia Kemética

A primeira definição de “filósofo” na história da humanidade; e essa definição não surgiu na Grécia Antiga

Segundo Théophile Obenga, os antigos egípcios entendiam por rekh ou sai um “ser humano sábio” ou “filósofo”. Não foi apenas uma questão de palavras. Dois mil anos atrás, no Kemet, sem dúvida, a “inscrição de Antef” deu a primeira declaração clara e distinta, apresentando o significado fundamental de um “filósofo”. Esse é um fato demonstrável. O egiptólogo alemão Hellmut Brunner traduz a “inscrição de Antef”, que dá a definição de “filósofo”:

[Ele é o único] cujo coração é informado sobre essas coisas que seriam de outra forma ignoradas, aquele que é perspicaz quando está profundamente envolvido em um problema, aquele que é moderado em suas ações, que penetra escritos antigos, cujo conselho é [procurado] para desvendar complicações, que é realmente sábio, que instruiu seu próprio coração, que fica acordado à noite enquanto procura os caminhos certos, que supera o que ele realizou ontem, que é mais sábio que um sábio, que se trouxe para sabedoria, que pede conselhos e cuida para que lhe peçam conselhos. (Inscrição de Antef, 12ª Dinastia, 1991–1782 a.E.C.)

Estejam atentos ao período desta inscrição. Até onde sabemos, o primeiro filósofo Grego, Tales de Mileto, “surge”, aprox., no séc. 6 a.E.C, e mesmo assim, ele é tomado enquanto o primeiro filósofo do mundo, mesmo tendo deixado apenas dois aforismos como legado. Pois bem, Ptah-Hotep deixou um papiro com 37 máximas-mandamentos, aproximadamente, no século 24 a.E.C, mas Ptah-Hotep não é sequer estudado nas grandes universidades.

É importante deixar bem escuro aqui que não estamos assumindo um ponto de vista que nega a Filosofia Ocidental e seu legado, mas reivindicando um lado da História que é negado pelo Ocidente. Ao contrário deles, não queremos excluir, mas sim incluir. Lembrando que essa negação historiográfica teve seu início na Era Moderna Ocidental.

Datas aproximadas

A negação da filosofia Africana: epistemicídio

Como sabemos, Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770–1831), que não era historiador, mas um grande filósofo, declarou em suas palestras proferidas no inverno de 1830–31 sobre a história filosófica do mundo: “A África não é parte histórica do mundo; ela não tem movimento ou desenvolvimento para exibir… o Egito…não pertence ao espírito africano” (1956, p. 99; grifo meu). Essa visão da filosofia hegeliana da história tornou-se quase uma opinião comum e um paradigma acadêmico na historiografia Ocidental. Uma grande cultura ou civilização não pode ser produzida por pessoas Africanas (negras). Além disso, os Africanos nunca tiveram qualquer tipo de contribuição para a história do mundo. (…) Nos tempos modernos, o principal documento relativo à “questão” da antiga conexão egípcia com o resto da África Negra foi, até o simpósio do Cairo, a Filosofia da História de Hegel. Assim, levou um século e 44 anos, de Hegel (1830) ao simpósio do Cairo (1974), para mudar o paradigma instalado pelo filósofo alemão. (OBENGA, 2006, p. 32–33)

Hegel, embora reconheça a contribuição do Egito Antigo para a cultura Europeia, ele o faz embranquecendo a história, pois assumir a produção intelectual preta custa caro ao Ocidente.

Porém, essa atitude de Hegel nos parece um tanto confusa, pois a Antiguidade Grega reconhecia sua dívida com o Egito, filósofos como Aristóteles reconheciam abertamente a riqueza Kemética, no entanto, essa negação se materializa através do projeto Iluminista.

Lembrando que a construção da ideia de raça remonta meados do século XVI, isto é, consoante ao projeto colonialista, e essa classificação teve/tem como objetivo nada mais nada menos que manter brancos [branquitude] no topo da hierarquia racial/social e pretos na base, em constante exploração.

Cheikh Anta Diop, uma das maiores referências do movimento pan-africanista, dizia, com convicção, que raças não existem, pelo menos não num nível biomolecular; ele dizia que um finlandês e um zulu poderiam ser mais geneticamente próximos entre si do que entre seus respectivos povos; no entanto, na África do Sul da década de 80, o finlandês seria um homem livre, enquanto o zulu seria mais um integrante da maioria violentada e massacrada pelo apartheid. Dessa forma, Diop dizia que os brancos costumam negar a realidade das raças, ao mesmo tempo em que tentam destruir as outras raças. Concluímos então que, geneticamente, não há raças; ainda assim, a noção sociocultural e fenotípica de raças ainda define de forma decisiva a maioria das relações humanas até hoje. (Fabio Kabral)

A filosofia Kemética nasce às margens do rio Nilo, aproximadamente, entre os anos de 3400 e 343 antes da Era Comum

Isto é, 28 séculos antes de Tales existir.

o conceito rekhet (escrito com o hieróglifo para noções abstratas) significa “conhecimento”, “ciência”, no sentido de “filosofia”, isto é, investigação sobre a natureza das coisas (khet) com base em conhecimento preciso (rekhet) e bom (nefer) julgamento (upi) — Théophile Obenga
Imagem: Google Maps

O mapa (atualizado) acima nos mostra a passagem do rio Nilo pelo Egito e sua ligação com o Mar Mediterrâneo.

O mapa abaixo nos mostra os sentidos da colonização Grega:

Mileto era uma colônia Grega que sequer se localizava na Grécia. Hoje, onde ficava Mileto, vemos Turquia, isto é, Oriente Médio. Sendo assim, como a filosofia pode ter certidão Grega se ela nasce com um filósofo que não era grego? Eis a questão.

Para nós, isso não configura um problema, a questão é: por que o Iluminismo se arroga em definir “filosofia”?

Os gregos nunca deixaram de reconhecer sua dívida cultural com a África, sobretudo com o Kemet

Trechos de filósofos que reconheceram isso:

  1. Heródoto: Quase todos os nomes dos deuses passaram do Egito para a Grécia. Não resta dúvida de que eles nos vieram dos bárbaros.
  2. Aristóteles: De modo que, constituídas todas as ciências deste gênero [metafísica], outras se descobriram que não visam nem ao prazer nem à necessidade, e primeiramente naquelas regiões onde os homens viviam no ócio, foi assim que, em várias partes do Egito, se organizaram pela primeira vez as artes matemáticas, porque aí se conseguiu que a casta sacerdotal vivesse no ócio.
  3. Diógenes diz que Pitágoras estudou 22 anos no Egito. Tales e Platão também o teriam feito. (O que era absolutamente natural — capital cultural do mundo antigo.)

Nesse sentido, o historiador George G. M. James (1954, p. 10), diz que:

Os jônios e italianos nunca tentaram sustentar que eram autores da filosofia, porque eles tinham plena consciência que os egípcios eram os verdadeiros autores. (…) Por esta razão, a então chamada filosofia grega é roubada da filosofia egípcia, que primeiro espraiou-se pela Jônia, depois pela Itália e por fim para Atenas. E deve ser lembrado que neste curto período da história grega, isto é, de Tales a Aristóteles (640 a.C. — 322 a.C.), os jônios não eram cidadãos gregos, mas colônias do Egito e depois da Pérsia.

No trecho acima, James já adianta a problemática de atribuir uma certidão grega à filosofia: ela não nasce na Grécia!

George G. M. James

Se a Antiguidade Grega não tinha problemas com os egípcios, onde surge o problema? É o que veremos a seguir.

A negação destes elementos historiográficos: o colonialismo

O projeto colonial foi um projeto de dominação. Inicialmente este se sustentava na religião, isto é, na “cristianização”. A partir da Era Moderna, cabe ao Iluminismo oferecer tal justificativa. E essa justificativa é o epistemicídio.

A essa negação, Cheikh Anta Diop (1967) chamou de moderna falsificação da história ou era da Europa (1492–1945).

“Quando disseram que a Europa inventou a ciência, ele escreveu nas margens que isso era mentira. Quando disseram que os africanos eram inferiores e não tinham filósofos, ele escreveu nas margens que isso era falso. Quando eles disseram que a Europa originou a civilização, ele escreveu que os europeus haviam falsificado a história.” — ASANTE, Molefi K.

O século XVII e a justificativa para a empresa colonial

Inicialmente, como dito acima, a justificativa para a brutalidade dos processos coloniais era a “cristianização”. Após o século XVII, cabe ao iluminismo fornecer tal justificativa. Passa-se de uma subalternização religiosa passa a uma subalternização epistemológica, o epistemicídio (RAMOSE, 2011). De fato, há em autores como Kant e Hume argumentos explícitos de defesa do caráter intelectualmente inferior de pessoas Africanas.


David Hume

Com a palavra, David Hume

RACISTA!

Eu estou em condições de suspeitar de serem os negros naturalmente inferiores aos brancos. Praticamente não houve nações civilizadas de tal compleição, nem mesmo qualquer indivíduo de destaque, seja em ações seja em investigação teórica. Não há artesãos engenhosos entre eles, não há artes, não há ciências. Por outro lado, os mais rudes e bárbaros dos brancos, como os antigos alemães, o atual tártaro tem algo de eminente […] Tal diferença uniforme e constante não poderia ocorrer […] se a natureza não tivesse feito uma distinção original entre essas raças de homens.

Refutando Hume com a própria filosofia Ocidental

Pode falar, Aristóteles

De modo que, constituídas todas as ciências deste gênero [metafísica], outras se descobriram que não visam nem ao prazer nem à necessidade, e primeiramente naquelas regiões onde os homens viviam no ócio, foi assim que, em várias partes do Egito, se organizaram pela primeira vez as artes matemáticas, porque aí se conseguiu que a casta sacerdotal vivesse no ócio.

Hume poderia ter ficado quieto, né nón.

Embora não abordemos aqui, Kant e Hegel também expressaram suas repulsas pelos Africanos em seus escritos.

#SóParaDescontrair: Tirinha adaptada, de HistoriaNoPaint (twitter), por mim, para aludir ao processo de sequestro da epistemologia.

Há, então, filosofia Africana?

Se os grandes filósofos da Era Moderna, a Era mais consagrada do Ocidente, não reconheciam a existência de uma filosofia Africana, há então filosofia Africana?

Sim, há.

A negação da existência da filosofia Africana é uma negação do estatuto ontológico de seres humanos dos Africanos (RAMOSE, 2011, p. 7).

Mas os ocidentais pensam conforme o silogismo (lógica) do racismo, e ele funciona assim:

“O homem é um ser essencialmente pensante, racional
Ora, o negro é incapaz de pensamento e raciocínio, possui uma mentalidade pré-lógica, etc.
Portanto, o negro não é verdadeiramente um homem e pode ser, legitimamente, domesticado, tratado como um animal.” (TOWA, 2015, p. 27)

Sendo assim, ao tomarmos como ponto de referência o que eu disse lá no início do primeiro texto, a filosofia existe em todo o lugar inclusive na África.


A experiência humana como origem do filosofar

Kwame Anthony Appiah, em Na casa de meu pai: a África na filosofia da cultura, diz que:

Se entendermos por “filosofia” a tradição a que pertencem Platão e Aristóteles, Descartes e Hume, é fatal que pelo menos os seguintes conceitos sejam considerados centrais nesse cânone: beleza, bem, causação, conhecimento, Deus, deuses, direito, entendimento, erro, ilusão, justiça, mal, mente, pessoa, razão, realidade, sentido, verdade e vida. Ora, sem dúvida, nem toda cultura têm exatamente esses conceitos. Mas é provável que todas tenham conceitos que mostrem uma semelhança familiar com eles. Nenhum ser humano que não dispusesse de um conceito semelhante ao nosso conceito de causação seria capaz de pensar na ação, nem tampouco, sem ele, de pensar em por que as coisas acontecem no mundo. Ninguém poderia ter normas sociais sem conceitos ao menos um pouco parecidos com bem e mal, certo e errado.

Então por que ainda insistimos na ideia de que a filosofia é grega?

Eu, particularmente, já abandonei essa ideia, e espero que você a abandone também.


ESTE TEXTO É O SEGUNDO DE UMA SÉRIE SOBRE FILOSOFIA AFRICANA NA #NEWORDER: VEJA OS DEMAIS ARTIGOS:

PARTE 1: