Às margens do rio Nilo: Introdução à filosofia Kemética

Filosofia Kemética, a filosofia que nasce em África

Kemet, transliteração do hieróglifo km.t, era como os antigos egípcios chamavam sua terra, e significa “Terra Preta”. Nesse sentido, falar de uma filosofia Kemética é falar de uma filosofia que nasce às margens do rio Nilo, no Kemet (Antigo Egito). Em outras palavras, filosofia Kemética é filosofia Africana antiga, o que remonta cerca de 27 séculos a.E.C (antes da Era Comum, ou seja, do ano zero).

Sankofa: se wo were fi na wo sankofa a yenkyi [se você esquecer, não é proibido voltar atrás e reconstituir]

O que é filosofia?

Antes de, especificamente, falarmos sobre filosofia Africana, é necessário (tentar) definir o que entendemos por filosofia e para isso, de forma estratégica, nos apropriamos de algumas definições, as quais foram fornecidas por grandes nomes da filosofia.

Em 2016, a filósofa e professora da USP, Marilena Chauí, em Convite à Filosofia, nos fornece uma definição um tanto problemática para “filosofia”. Chauí diz que há “pensamento” entre outros povos e culturas, mas a Filosofia é grega. Diz ela:

Em outras palavras, Filosofia é um modo de pensar e exprimir os pensamentos que surgiu especificamente com os gregos e que, por razões históricas e políticas, tornou-se, depois, o modo de pensar e de se exprimir predominante da chamada cultura europeia ocidental da qual, em decorrência da colonização portuguesa do Brasil, nós também participamos.

Chauí é bem assertiva ao dizer que a filosofia é grega, mas, ao dizer isso, a filósofa reproduz o elemento constituinte da estrutura da sociedade brasileira: o racismo. Nesse caso, o racismo epistêmico, pois, ao assumir esse posicionamento, Chauí diz que não há produção epistemológica e filosófica entre os Africanos. Mas com este texto, vamos mostrar que há.


Em 2011, o filósofo sul-africano Mogobe B. Ramose, no artigo Sobre a Legitimidade e o Estudo da Filosofia Africana, diz que a filosofia existe em todo o lugar, ou seja, todo ser que produz conhecimento, é um ser que faz filosofia.

Onde quer que haja um ser humano, há também a experiência humana. Todos os seres humanos adquiriram, e continuam a adquirir sabedoria ao longo de diferentes rotas nutridas pela experiência e nela fundadas. Neste sentido, a filosofia existe em todo lugar. Ela seria onipresente e pluriversal, apresentando diferentes faces e fases decorrentes de experiências humanas particulares (OBENGA, 2006, p. 49). De acordo com este raciocínio, a Filosofia Africana nasceu em tempos imemoriais e continua florescendo em
nossos dias.

Particularmente, gosto da definição de Ramose, pois, dessa forma, posso me auto afirmar enquanto filósofo, ao passo que a Academia não legitima minhas produções, por serem subjetivas demais. Eu só acho engraçado que falar de branco é super acadêmico, mas falar de preto não.

Sobre isso, o Fábio Kabral, diz algo muito inteligente:

As pessoas negras sempre contaram as suas histórias. Sempre lutaram pelo seu presente, honraram seu passado e projetam o seu futuro. O que ocorreu, em algum momento, é que o pessoal pálido do norte resolveu bagunçar tudo e tomar tudo pra si, dando a impressão de que ninguém faz mais nada além dos pálidos.

Nesse sentido, em 2006, no artigo Egypt: ancient history of African philosophy, Théophile Obenga (p. 33) diz que:

A filosofia é mais importante em sua função essencial do que em sua mera metodologia como uma investigação crítica ou analítica sobre a natureza das coisas. A noção básica de filosofia no antigo Egito referia-se precisamente à síntese de todo aprendizado e também à busca da sabedoria e da perfeição moral e espiritual. A filosofia nos tempos antigos do Egito faraônico era, então, uma espécie de pedagogia que continha os sábios ensinos (sebayit) dos antigos sábios, que eram estudiosos, padres e oficiais ou estadistas ao mesmo tempo.

A mensagem de Obenga é bastante escura: todo o ser que pensa, filosófa. No entanto, se continuarmos pensando a partir do Ocidente, isto é, de que a filosofia tem certidão grega, não entenderemos isso.


Martin Haake, Cruising Around Africa

Não existe filosofiA, existem filosofiAS

o conceito de pluriversalidade (RAMOSE, 2011)

Do ponto de vista da pluriversalidade de ser, a filosofia é a multiplicidade das filosofias particulares vividas num dado ponto do tempo. Excluir outras filosofias e negar seus estatutos simplesmente por conta de uma definição inerentemente particularista da filosofia como uma disciplina acadêmica significa anular a validade da particularidade como o ponto de partida da filosofia. Isto significa que não podem haver filosofias Ocidental ou Africana como disciplinas acadêmicas e, nem filosofia como a busca existencial humana do conhecimento enquanto o contínuo resultado da aprendizagem pela experiência. Opostamente a esta reivindicação insustentável, está submetida a ideia de que a particularidade é um ponto de partida válido para reivindicar o direito à filosofia.

O que Ramose diz não é complexo, vamos lá.

Partindo do pressuposto de que somos seres plurais, fazer filosofia é produzir um conhecimento (válido!) que refletirá nossas localizações sociais. Negar outras produções de conhecimento/filosofias por serem particularistas demais, isto é, por não estarem inseridas num eixo hegemônico, é invalidar as próprias epistemologias. Com base nesse pensamento, é impossível validar as filosofias Ocidental e Africana, porque aí se está anulando a particularidade como ponto de partida para a filosofia. Lembrem-se que não há epistemologias neutras, por isso é inviável discutir um conhecimento universal, pois o mesmo não existe. O que existe é a pretensão. Em última análise, Ramose diz que a particularidade é um ponto de partido válido para a filosofia, pois trata-se de um exercício do pensamento. Sendo assim, a ideia de que a filosofia é grega nos parece insustentável.

Por isso que, ao reivindicar a legitimidade da filosofia Africana, não buscamos silenciar outras filosofias, o que queremos é introduzir o conceito de pluriversalidade: há diversas formas de filosofar.

Não há somente um modelo de relacionamentos afetivos, há vários modelos. Não há somente um modelo de família, há diversos modelos. Não há somente uma forma de amar, há diversas formas. Sendo assim, por que haveria somente uma forma de fazer filosofia, e essa forma seria pensando em grego?

Defender a ideia de pluriversalidade é assumir que: não há somente uma forma de filosofiA, há diversas formas de filosofiAS; existe a filosofia Grega, mas também existe a filosofia Africana, e a filosofia latino-americana, a filosofia aborígene… Há diversas formas de filosofar. O recado é simples.