Foi-se o tempo em que as histórias eram um poder unilateral

Matheus Graciano
Jan 29, 2018 · 3 min read

Em 2002, nas eleições presidenciais, viu-se de tudo. Lembro-me claramente de uma aula de história, que está viva na memória de todos os amigos que a presenciaram comigo até hoje. Nosso professor contou a saga do Brasil ditatorial (64–85) através de canções da época. Ao final, o mesmo não se conteve e caiu em lágrimas. Sua emoção era pelo fato de que, depois de tantos percalços, teríamos um presidente operário.

Equipe da COMLURB (Companhia Municipal de Limpeza Urbana do Rio) em seus trabalhos diários, como todo brasileiro. Foto: Matheus Graciano

Naquele ano, eu ainda não votava. Eram tempos de internet discada, com cabeamentos recém-instalados em poucas capitais do Brasil. Os livros acessíveis sobre assuntos históricos também não eram fáceis de encontrar. Quando achados, algo soava familiar: havia sempre uma narrativa similar, contada, em boa parte das vezes, com o mesmo olhar.

Anos se passaram. Cerca de 7 ciclos depois, em 2009, tive um novo contato com aulas de história. Mas dessa vez foi diferente. Me senti incomodado com a visão passada pelo professor. E o motivo do meu incômodo foi simplesmente porque, após anos em contato com apenas uma versão da história, fui apresentado a uma face diferente, onde conseguia ver claramente a sequência de acontecimentos que deram aos militares brasileiros uma justificativa para chegar ao poder.

Agora, havia diversos lados de uma mesma história e um poder de observação incomum. Algo que não eximia ninguém dos crimes cometidos, mas que era capaz de entregar uma perspectiva ponderada para enxergar o futuro brasileiro.

Mundos unilaterais e narrativas fantasiosas

A escrita foi durante muito tempo um difusor de ideias muito usado por um dos lados dessa miríade de correntes políticas. Suas histórias dominaram escolas, ambientes de trabalho, meios de comunicação e todos os lugares onde as letras podiam ser mais fortes que as armas.

Mas o mundo mudou. E muita coisa aconteceu.

Se antes o processo de confecção de livros facilitava a manutenção de poucos viéses de uma mesma história, agora a internet criou espaço ilimitado para todas elas. Todo aquele poder que um lado tanto tinha, agora escorre pelas mãos feito água.

E, naturalmente, toda aquela narrativa fácil de criar, rapidamente vira um grande meme, onde se repete a exaustão, até virar piada em poucos dias.

Destros e canhotos, autoritários e anárquicos, conservadores e liberais disputam cabeça a cabeça a corrida para ganhar os corações e mentes do povo brasileiro. Naturalmente, mundos unilaterais são criados, recheados de narrativas fantasiosas.

Enquanto alguns, preocupados com seu lado político, gritam palavras de ordem, falam em revolução, radicalização ou qualquer coisa que valide os mal feitos de líderes políticos, uma parte grande da população só pensa em mosquitos, carnaval e as contas do fim do mês.

Indiferente às teorias conspiratórias de autores que vivem à frente de seus computadores, a parcela majoritária da população dá graças a Deus por ter chegado a fevereiro com dinheiro no bolso. Assim, dá para curtir o Carnaval, o feriadão ou o retiro com a igreja, devidamente vacinada contra a Febre Amarela, é claro.

Foi-se o tempo que apenas um lado detinha o poder da criação de narrativas. Foi-se o tempo que as visões críticas oriundas de autores com prefixo de doutor, phd ou chancela de universidades tinha o grande valor inquestionável. Chegou o tempo da diversidade. Com muita verdade e notícias falsas para dar e vender.

Só falta agora todos esses autores conhecerem as pessoas da vida real para saírem do mundo da imaginação.

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