Um mirante na Paulista cuja vista extravagante ninguém vê

Felipe Moreno
Sep 7 · 5 min read
(Foto: Yomitai)

Há pouco mais de um ano o SESC reinaugurou sua unidade da avenida Paulista, próximo à estação Brigadeiro de metrô. Como qualquer empreendimento moderno, de alto padrão, trata-se de um prédio imenso, suntuoso, concebido com rigor e excelência arquitetônicas e estéticas. Destaque para o último andar, onde estão localizados um café elegante e acolhedor e, um lance de escada acima, um mirante aberto ao público, com vista para toda a avenida Paulista e arredores.

Durante todo o mês de julho, período de férias, a atração principal do SESC Paulista era a visita ao mirante. Quase todos os dias, de manhã à noite, havia filas que dobravam o quarteirão. Centenas, quem sabe até mais de mil pessoas, diariamente, tendo o privilégio de deslumbrar a vista da região mais vaidosa da América Latina e, economicamente, uma das mais importantes do mundo. Sentir, lá de cima, o vento paulistano nestes meses de frio: gelado, seco e, por causa da altura, um pouco menos tóxico. Enfim, ter o privilégio de poder meditar sobre a paisagem frenética, estonteante.

Entretanto ninguém deslumbrou, sentiu ou meditou sobre nada. E continua assim, aposto: ninguém enxerga, ninguém sente, ninguém reflete sobre absolutamente nada. Digo por experiência: estive lá, analisei as dezenas à minha frente com a atenção, frieza e cálculo de um bandeirinha experiente em final de Libertadores. Eram apenas vinte ou trinta pessoas, mas era o recorte suficiente para acusar o comportamento das outras centenas que, todos os dias, sobem até ali. Reafirmo com a mesma perplexidade do momento em que permaneci naquele topo vertiginoso, diante daquele cenário extravagante: presenciei momentos em que, exceto eu e minha companheira, mais ninguém, absolutamente ninguém estava assistindo à paisagem. Preferiam, obsessiva e compulsivamente, as fotos e as selfies.

Falamos, eu e Marília, de um lugar de vaidade, que está além da vaidade dos que preferem, tresloucadamente, registrar a si mesmos. Criticar o comportamento alheio, neste caso, é tecer um elogio a nós mesmos: eram todos estúpidos, que não podiam largar os celulares; e eu e Marília, ao contrário, éramos os libertos deste hábito corrosivo. Vaidade da vaidade, no fim das contas.

Ciente da minha vaidade, portanto, extraio dela o que há de mais interessante — a própria crítica ao comportamento alheio. Eu vi, com meus próprios olhos clínicos, intrusos; eu sei: milhares sobem no mirante, ninguém vê nada. Exceção, talvez, às crianças muito pequenas, que ainda não foram munidas com uma câmera; senhores e senhoras de muita idade, considerados anacrônicos por não terem smartphones; pouquíssimos “excêntricos”. E todo o resto, em compensação, se afoga na profusão narcísica, mesmo — ou melhor, inclusive — diante daquela paisagem tão atraente.

Fiz uma conta simples e cheguei a um número: são, em média, quatro selfies por pessoa que visita o mirante do SESC Paulista. Registrei algumas figuras que ficaram no ambiente por mais de vinte minutos e não foram capazes de parar de bater foto um minuto sequer.


(Foto: Carlos Alkimin)

A arte de contemplar, que eu considero a mais acessível e, ao mesmo tempo, a mais elevada forma de sublimação da experiência, um gesto religioso, a mais profunda forma de oração, foi, muito rapidamente, intoxicada, corrompida, arruinada. Me chamem de exagerado, categórico; me chamem de saudosista, anacrônico, e eu rebato com uma indagação, um exercício digressivo básico, dirigida apenas aos jovens que vivenciaram as transformações radicais dos últimos dez ou quinze anos: em relação ao uso do celular, especialmente o da câmera, o que a pessoa que você era em 2006 pensaria da pessoa que você é hoje? O que a criança ou adolescente que você era em 2006, que alimentava um perfil no Orkut, conversava pelo MSN, tinha um blog de fotos e, de vez em quando, fotografava com uma câmera digital simples pensaria do jovem adulto que você se tornou hoje, com dezenas, centenas, muitas vezes milhares de fotos de si mesmo salvas no aparelho; que publica snaps da própria vida diariamente; que passa horas do dia assistindo aos snaps dos outros, zapeando o indicador na tela digital, espiando a vida alheia; que, ao chegar em qualquer ambiente inédito e/ou minimamente interessante, saca o celular do bolso e começar a registrar?

Fomos sugados pelo vórtice digital, que deve, quase sempre, espelhar a nossa própria imagem. É condição primária do nosso narcisismo patológico, afinal: destacar a nossa fuça, o nosso corpo, os nossos dentes sobre qualquer cenário, inclusive os mais extraordinários. Ressurgisse Jesus, nos fizesse uma visita íntima, inesperada, às três da tarde, Nossa Senhora, em luz e espírito vivo; desabasse sobre a Terra um fenômeno de magnitude ímpar, independentemente de qual, mas que fosse único, estrondoso; aparecesse entre nós o espetáculo, algo realmente arrebatador, de ordem mágica ou mística, registraríamos o acontecimento fenomenal em perspectiva secundária, pois, à frente de tudo, estariam as nossas cabeçorras estúpidas, desaforadas, intransigentes.

Não é necessário ir tão longe. Na Casa das Rosas, também na avenida Paulista, por exemplo, há um lindo jardim repleto de — advinha? — rosas. Uma mais linda que a outra, uma mais perfumada que a outra. E todas as rosas servem apenas como modelos fotográficas, mas nunca são tocadas, nunca são cheiradas. Todo aquele esplendor e perfume para irem direto ao Instagram. Que péssimo destino tem as rosas da Casa das Rosas.


(Foto: Reprodução Wikipédia)

2019: sacamos a arma do bolso, engatilhamos o registro, disparamos uma, duas, três, dezenas de vezes seguidas, e, finalmente, encaminhamos o conteúdo para o mundo — a rede de dados. O que queremos com isso?

2039: nossos olhos terão lentes inteligentes, que vão fotografar o mundo com uma simples piscadela, encaminharão o conteúdo para a rede por indicação de voz e nos pouparão do trabalho de ter que sacar a arma do bolso, engatilhar, disparar etc. O que queremos com isso?

Camadas de lentes que, cada vez mais, blindam a realidade dos nossos olhos biológicos, orgânicos, sofisticadíssimos; revestem a experiência do olhar com parafernálias, incute no nosso psicológico a necessidade inextrincável da exposição. Para onde iremos com tamanho sobressalto?

Há um veredito para o nosso tempo: toda paisagem foi intermediada por uma câmera. Os monumentos históricos, por exemplo, não são mais nada do que planos de fundo para realçar o nosso próprio rosto, sempre sorrindo, sempre feliz — sempre mentindo. Consciente de todo o meu orgulho, digo: é libertador poder frequentar lugares sem estar acorrentado à necessidade de registrá-lo.

No mirante, apavorados com o que estávamos assistindo, eu e Marília decidimos fazer uma experiência. Começamos a falar alto, às vezes a gritar frases como: “Vocês não são capazes de ver a paisagem nem por dez segundos?” ou “ninguém aqui consegue largar o celular?”.

Não houve qualquer resposta ou reação, mas apenas a permanência inquebrantável do burburinho: “Tira uma assim”, “tira uma aqui”, “põe o flash”, “tira o flash”; “tira uma com aquele filtro”, “tira mais”. E, vencida pelo frenesi narcísico, assim como as rosas da Casa das Rosas se entristecem por falta de contato pleno e sensível, a paisagem do mirante do SESC Paulista morre de tédio e solidão.

NEW ORDER

Produção colaborativa de histórias e tendências para instigar você. Somos a primeira e maior publicação brasileira no Medium, vamos juntos?

Felipe Moreno

Written by

Rebaixar ao nível do sublime; elevar ao nível do ridículo.

NEW ORDER

NEW ORDER

Produção colaborativa de histórias e tendências para instigar você. Somos a primeira e maior publicação brasileira no Medium, vamos juntos?

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade